Filho de Joana (nome fictício), José (nome fictício) começou fumando maconha ainda na adolescência, esta passada na região da Vila Ipiranga. Ela, que trabalhava fora para sustentar a prole, percebeu que havia algo errado com seu ?menino?, fez vários questionamentos, mas sempre recebeu como resposta um "não", ou o silêncio.
"Ele jurava que não usava droga. Mas um dia ele desapareceu e eu fui atrás. Ele estava muito machucado, com os olhos esbugalhados e o corpo lotado de hematomas. Ele disse que havia mexido com a namorada de um outro jovem e tinha apanhado. Descobri depois que a surra tinha sido motivada pelo não pagando de uma dívida de R$ 100,00 com drogas."
Aos 16 anos, pelas mãos da mãe, o adolescente foi levado para o Centro de Atenção Psicossocial (Caps). "Eu busquei ajuda. Sabia da maconha e precisava ajudá-lo. No entanto, deparei com um tratamento totalmente fora da nossa realidade. Eu diria que o tratamento é uma água morna. A psicóloga ficava fazendo perguntinhas e ele respondia. Porém, saia de lá e voltava para a maconha. Eu perdi dias de serviço e tinha que sustentar os outros filhos. Não tinha como ?vigiá-lo. Sei que muitas vezes, ele não tomava o remédio", conta a mãe.
Na sequência, Joana enfrentou a série de furtos cometidos pelo filho. "Ele foi para a Fundação Casa. Depois que saiu de lá demorou para arrumar um emprego. Não dava certo e um ano depois descobri que ele estava no crack. Tentei colocá-lo no Esquadrão da Vida, mas lá o dependente precisa querer ficar. Ele disse para mim que preferia ir preso e foi o que aconteceu."
Na opinião da mãe, no Brasil deveria ter uma lei que obrigasse a internação. Só assim os jovens se tratariam. "Uma clínica de graça para os pais de baixa renda. É uma doença que não pode ser tratada atrás das grades. No final, meu filho não dormia em casa e quando aparecia eu tinha que dormir com a minha bolsa embaixo da cama. Ele furtava em casa."
Tristeza que vem do fundo da alma
"A dor da mãe de filho dependente de droga é profunda. Sinto uma tristeza que vem do fundo da alma. Me pergunto todos os dias: onde foi que eu errei? Sinto muita culpa. Quero mudar a história. Soube que a namorada dele está grávida. Eles moravam juntos. Espero que um filho mude a cabeça dele", desabafa a mãe Joana.
O sonho mais sonhado e o mais desejado dessa mãe e, provavelmente, de outras milhares que se encontram na mesma situação é livrar o filho do vício. "A gente se sente impotente diante da droga. Sinto ver meu filho magro, com os ossos aparecendo. Sofro e não tenho apoio da sociedade", declara.
Maria, mãe de João, não poupou esforços para afastar o filho do vício. Mas o resultado da busca foi o mesmo de Joana. "Eu liguei para várias entidades. Na época, procurei os Narcóticos Anônimos que não tinha em Bauru. Fomos no Naps, hoje Caps. Eu achava que eles iam me ajudar, mas não ajudaram."
A oportunidade de internação veio através de uma informação. "Conheci uma mulher que levava o filho dela para fazer triagem em Pirajuí. Fui várias vezes para lá, até conseguir uma internação. Em 2008 eu internei o João na casa Dom Bosco. Ele fez tratamento durante cinco meses totalmente gratuito. Eu ajudava com cesta básicas. Ele teve alta", conta.
A recaída
Na volta, Maria confiou na recuperação do filho. "Ele demorou para arrumar emprego. Os amigos voltaram ao portão. Ele teve uma recaída, foi em uma festa de aniversário, tomou cerveja e voltou para as drogas. Pensei em levá-lo para o Esquadrão da Vida, mas ele não quis. Na cadeia espero que ele amadureça e tenha força de vontade para se livrar do vício."
A saúde de João, na opinião da mãe, está debilitada pela droga. "Ele está mais magro, abatido, tem muitos problemas de dente, tem dores. Quando a gente se encontra, ele diz que não aguenta mais. Está depressivo diz que quer mudar a vida dele. Já perdeu muito tempo. Reclama que os amigos o abandonaram. Não mandam sequer uma carta."
Para a mãe, a droga marginaliza não só o dependente, mas a família inteira. "As pessoas acham que a família inteira é bandida, criminosa. A gente se sente discriminada. É uma situação muito pesada, muito mesmo. Os outros filhos, irmãos de João, acham que ele não tem força de vontade para vencer o vício. Eles não entendem que é uma difícil. Aqui em Bauru , infelizmente, não sei de nenhum lugar que possa nos apoiar. Pirajuí, Novo Horizonte e outras localidades têm entidades", revela.
Muita crítica....
João nasceu entre duas irmãs e não contou muito com a participação do pai em sua educação, lembra a mãe. "O pai é militar e dentro de casa era de pouca conversa, muita ordem, muita crítica. Já meu filho era tímido e não conseguiu ter uma aproximação maior com pai. Meu ex-marido achava que ele tinha que sair da barra de minha saia e foi o que aconteceu", menciona a mãe.
Aos 13 anos, o menino que Maria embalava em seu colo jogava uma pelada no campinho de futebol no mesmo bairro onde morava. Sempre na companhia de um vizinho adulto e pai de duas crianças. O que os pais não sabiam é que o morador do lado era traficante. A descoberta veio quando ele morreu e a vila toda comentou.
"Desde os 10 anos, meu filho era convidado por ele para jogar bola, empinar pipa com esse vizinho. Meu ex-marido confiava e deixava. Aos 14 anos, após a morte do traficante e quando João começou a apresentar problemas de aprendizagem na escola, é que eu soube que o tal vizinho aliciava crianças para as drogas. Não só o meu filho, mas o de várias famílias. Ninguém acreditava, meu ex-marido dizia que eu era doida. Vivia falando que o que tem que ser já nasce feito"", cita.
A tese do pai foi derrubada três anos depois, quando João chegou em casa pelas mãos de policiais militares. "Nessa época, meu filho já estava usando outras drogas. Foi nesse período que meu ex-marido acreditou que o filho estava envolvido com drogas".
Fila de espera e várias desistências
A rede pública disponível em Bauru é insuficiente, uma vez que há uma fila de espera que varia de 10 a 20 adultos aguardando para internação, dependendo do dia. Mas para a diretora da divisão, Vera Lúcia de Paula Rodrigues, não é uma fila ?morta?.
"Porque ele está ali, mas tem a possibilidade de ir ao Caps-AD. Vai participando dos grupos e depois de um mês, saindo a vaga, ele pode optar por ficar do jeito que está ou ser internado. Alguns acham melhor ficar no tratamento porque se adaptaram ao grupo", aborda.
A fila muda de forma rápida, segundo a diretora, porque semanalmente de dois a três desistem do tratamento. "Eles têm o direito de ir embora. No mês há uma média de oito desistências. Normalmente, eles ficam por cinco dias e depois pedem para ir embora. O mesmo não acontece com os adolescentes porque ficam fora de Bauru e cumprem ordem judicial, embora já tenha ocorrido fuga. Nas unidades terapêuticas voltadas aos adolescentes não tem fila de espera", menciona Vera.
Segundo ela, de 20 a 25% das pessoas aderem ao tratamento. "Quando você trabalha na incidência e prevalência da pessoa ficar e passar por um processo de recuperação é muito pequeno de fato. O projeto terapêutico faz um trabalho inserindo a família com visitas mensais. A intenção é buscar um novo caminho para o usuário de droga", argumenta.
O adolescente que fica em uma unidade terapêutica por seis meses tem que voltar para uma família mais "forte". "A família tem que estar preparada para receber esse paciente. O que a gente percebe é que muitas famílias não se sujeitam ao processo terapêutico e agem de maneira errônea no retorno do paciente. Um deles foi recebido com churrasco e cerveja no retorno das comunidades terapêuticas. Ele mesmo contou para a psicóloga", revela a diretora.
Dessa maneira, a diretora frisa a importância da participação da família no processo de recuperação. "Nós trabalhamos para que esse paciente tenha, após o tratamento uma nova relação social. Queremos saber onde ele vai estudar, quais são seus amigos, primos etc. Buscamos junto a família essas respostas. Algumas delas se incomodam com isso".
Pesquisa revela desamparo da família dos usuários
Uma pesquisa inédita para o Brasil, desenvolvida pela psiquiatra e pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Maria de Fátima Rato Padin, revela que a família do usuário de drogas está completamente desamparada.
"O sentimento que elas têm é de tristeza e impotência em quase 100% dos casos. A mulher, mãe ou esposa do usuário é a que mais procura ajuda para o tratamento do filho ou do marido. Essas mulheres não contam com nenhum tratamento disponível na rede pública que sejam focados nelas. Contam com os grupos de auto-ajuda, como o Amor Exigente e o Naranon, ambos na Capital, onde o estudo foi desenvolvido", cita.
Para a psiquiatra, além de não encontrarem apoio no sistema público, essas mulheres são solitárias e buscam auxílio na religião. "São elas que descobrem o uso de drogas e as que mais buscam tratamentos. Porém, não procuram especialistas no primeiro momento, vão buscar auxílio na religião."
Na opinião dela, essa busca de apoio religioso é muito importante para a família, mas não pode ser encarada como tratamento. "Esse dado da pesquisa é preocupante porque mostra que a sociedade não encara a dependência química como uma doença crônica. Veja bem; se uma pessoa está com câncer procura um especialista e vai a igreja, mas na dependência química isso não ocorre. Isso nos dá a ideia que a doença ainda sofre de um estigma."
No centro do problema, ela sugere que está a falta de informação. "Eu posso sugerir que existe uma falta de informação a respeito da dependência química e que as pessoas não acreditam que seja uma doença. Isso é fato. Procuram a religião em decorrência de não saber que é uma doença crônica", avalia.