Ciências

O veneno do beijo e o câncer

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 4 min

No corpo temos 100 trilhões de bactérias ou 10 vezes mais do que células, sem contar vírus, fungos e parasitas. Somos um monte ambulante de bactérias! Não podemos ficar irados pois testes em humanos mostraram que sem elas não sobreviveríamos: precisamos delas! Os mecanismos de defesa sem elas, não funcionam. Incrível, somos paradoxais em todos os sentidos.

Uma grande parte das bactérias está na boca. Na língua a quantidade é muito grande circulando agitadamente em viagens pelos recantos e encantos da boca. Ao beijar uma língua trocaremos milhões de bactérias e seus produtos como enzimas, toxinas e dejetos. Isto que é intimidade!

Uma bactéria em média tem diâmetro igual à milésima parte de 1mm ou 1 micrometro. Ou uma micra como diria meu vovossauro! Os vírus são menores, muiiiito menores que as bactérias. São tão pequenos que os pesquisadores acreditavam que os líquidos ou fluidos que provocavam doenças estavam contaminados por venenos, pois eles passavam pelos melhores filtros nos laboratórios. A palavra "vírus" significa veneno em latim.

Temos trilhões de vírus por aí em tipos muito diferentes entre si. No corpo entram e parasitam apenas em um dos 206 tipos de células que temos. Os vírus tem tropismo ou preferência para um tipo de célula e escolhe muito bem pois só conseguem se multiplicarem dentro dela. Fora de células morrem ou ficam latentes. Exemplos: vírus da hepatite preferem células do fígado e do herpes, as células neurais.

Um tipo de vírus penetra nas células epiteliais da pele e das mucosas bucal, genital e anal. Nestas células promovem proliferação e formação de crescimentos benignos conhecidos como verrugas e papilomas com projeções filiformes superficiais que nos órgãos genitais são popularmente chamados de cavalo de crista ou crista de galo. Este vírus recebeu o nome de HPV ou Human Papillomavirus.

No início acreditou-se que estava relacionado apenas com verrugas e papilomas, mas depois descobriu-se que havia mais de 200 sub-tipos. Agora sabe-se que alguns deles provocam o câncer de útero, pênis, boca e orofaringe. Em 80% dos cânceres de boca e orofaringe do Hospital A.C. Camargo, tem-se associação com o HPV, especialmente o sub-tipo 16, encontrado principalmente na região genital.

O perfil do portador de câncer bucal era formado por homens com mais de 50 anos, fumantes e usuário de álcool. No país em média tem se 14 mil casos de acordo com o Instituto Nacional do Câncer. Na última década este perfil mudou e são jovens não fumantes entre 30 e 45 anos e praticantes do sexo oral. O HPV é a razão para a mudança pois espalhou assustadoramente pela maior densidade da população urbana e maior atividade sexual sem proteção desde jovem. O câncer bucal associado ao HPV triplicou e os relacionados ao tabaco e álcool, diminuíram.

Pesquisa no International Journal of Epidemiology revela que quanto maior o número de parceiras com as quais se pratica sexo oral e quanto mais precoce for o início da vida sexual, maior o risco do homem desenvolver câncer associado ao HPV. A vacina no país não é aprovada para homens, apenas para mulheres entre 9 e 16 anos e contra 4 sub-tipos entre os quais o 16. Ainda assim, apenas na rede privada a um custo médio de R$900,00 reais.

Sexo não é apenas interação de genitálias, mas também inclui beijo na boca e sexo oral com mucosa esfregando-se em outra mucosa, com atritos, erosões e micro-traumatismos com sangue diluído na superfície, troca de saliva e muitos vírus, bactérias e fungos. Pela boca temos muito mais contato com outras pessoas e com o mundo do que com a região genital. As pessoas pensam que beijar é um ato inocente, mas biologicamente não é, infelizmente! Devemos escolher quem beijar.

A boca é a principal porta de entrada pois aspiramos as gotículas dos espirros e da respiração alheia, inclusive dos animais. Na boca colocamos a mão que cumprimentou alguém que tocou o nariz e outras partes do corpo sem lavar. A mão e a boca que te tocam agora, em outro canto da festa pode ter afagado a intimidade de outro corpo! Os japoneses cumprimentam abaixando levemente o corpo: sem toques!

Beijar na boca é intimidade máxima; significa dizer ao outro: vou lhe beijar na parte mais infectada, arriscada e perigosa do seu corpo! Vou arriscar minha vida, confiar em suas atitudes, vou me entregar de corpo e alma! Será que camisinha deveria ser usada na língua quando se beijasse sem compromisso!?

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