Tribuna do Leitor

Homenagem ao doutor Leonardo


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Na última semana, apesar de poucos veículos de comunicação noticiarem, o delegado de polícia Leonardo Mendonça Ribeiro Soares, de 28 anos, foi morto com um tiro na cabeça quando perseguia bandidos no interior de uma favela na zona sul da capital. Hoje em dia nosso cotidiano está tomado pela violência. São horas a fio na TV e páginas e mais páginas nos jornais e revistas dedicadas a esse assunto, reflexo de uma realidade que não há mais como esconder, diante do descaso do poder público com um assunto que deveria ser, entre outros de igual importância, prioridade do Estado.

Como profissional de segurança pública e no exercício de minha profissão, me deparo cada vez com mais frequência com o que há de mais sórdido na alma humana: assassinatos, roubos, estupros e latrocínios. Isso faz com que nos tornemos até certo ponto "acostumados" e "frios", no que diz respeito a tais situações.

Contudo, por mais acostumada que a sociedade esteja, não posso admitir que seja dada tamanha importância à morte de uma cantora inglesa viciada em drogas e álcool, por mais talentosa que fosse, do que a morte de um homem que deu sua vida por essa mesma sociedade.

O professor da Academia e Delegado Operacional por muitos anos do GOE, dr. Marcelo Lessa, escreveu a respeito do delegado Leonardo e a ele peço venia para transecrever algumas de suas palavras: "Fui professor desse menino na Academia de Polícia, há pouco mais de dois anos... Ele era por demais carismático... Era interessado, atento e, principalmente, vocacionado! Essa luz, da boa vocação, não brilha facilmente nos olhos de qualquer um, até porque, todos sabemos, nossa carreira, neste Estado, é usada como mero trampolim para outras... Nele, Leonardo, não se via essa intenção... Ele queria (e foi), delegado de Polícia em São Paulo...

É certo que nada elimina o risco da nossa profissão. Não existe fórmula mágica que blinde o policial e o torne imortal. E, dadas as circunstâncias em que ele foi emboscado, nem o mais treinado dos agentes teria conseguido passar incólume sobre aquele cenário. É hora de chorarmos a perda desse menino, a quem o Estado, de uma forma ou de outra, creditou o "status" de policial, de defensor da sociedade...

Um menino de bem, um pobre plantonista nos confins da capital de São Paulo, numa das piores delegacias do DECAP... Ele nasceu Leonardo... Mas morreu como o "delegado" Leonardo, policial armado, de profissão e de alma... Este é um momento de reflexão para todos nós, afinal, quem está na linha de frente está sujeito ao mesmo destino... E quem será que se importa? Neste momento, creio que várias pessoas... Umas, pela perda do amigo... Algumas, pela falta do filho... E outras, pela ausência do profissional Leonardo, cuja vaga, num fétido plantão, terá que ser preenchida às pressas por outro pobre... Muitos não sentirão falta de Leonardo, pois para estes talvez fosse ele mais um número, mais um a entregar a sua saúde, a sua sanidade e a sua vida a serviço de quem sequer o respeita como profissional ou como homem de família... Como cidadão paulista, estendo minhas homenagens a você, Leonardo, que era pago para me proteger e, no final de tudo, perdeu a vida num bueiro imundo fazendo isso..."

Cledson Luiz do Nascimento - delegado de Polícia da DIG/Bauru

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