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Uma visão holística da cidade

João Jabbour
| Tempo de leitura: 2 min

Para uma cidade lhe ser agradável, você tem de ter o direito de andar por suas calçadas e deslizar suavemente em um rico, vasto e variado mosaico de gente, natureza e edificações que o façam sentir-se em casa. Esqueça o carro neste momento. Dê uma pausa no frenesi pós-tudo que comanda o cotidiano. Já que hoje é o dia de Bauru, lá vai uma proposta para você não ficar apenas no exercício mental de ler este texto: saia a pé por sua rua, seu bairro ou escolha um local agradável para pôr os pés do chão (pode ser de sandálias ou tênis, mas se for, literalmente, a pé será melhor ainda). É um forma lúdica de celebrar os 115 anos de Bauru. É uma forma de ser e sentir-se, de fato, cidadão e filho deste bom pedaço do planeta sem precisar de qualquer formalidade. Afinal, nossa identidade individual, muito além do RG, é fortemente construída por raízes geográficas e o sentido de posicionamento no espaço físico e temporal. Já reparou que não tocamos mais a terra que nos dá sustentação com as solas dos pés e não saímos por aí a caminhar, a passos mais lentos, sem compromisso algum, como numa espécie de bailado de confraternização com nossos concidadãos, algo que ainda existe apenas nas cidades menores? Ou estamos urgentemente "protegidos" por paredes e pisos de todos os lados, envelopados em concreto e paranóias, ou estamos com os pés no assoalho do automóvel. A cidade é o berço de um povo e, como tal, devemos dialogar com ela em toda sua plenitude física ou sensorial. Afinal, a cidade não tem um dono. É uma das entidades mais democráticas do mundo. Seus moradores se interconectam em uma formidável rede de colaboração e trocas em prol da existência e procriação da vida. A cidade não pode ser só o todo nem só a parte. A holística nos ensina que estamos interligados e somos interdependentes, irremediavelmente. E isso é bom, pois do contrário não sobreviveríamos. É a dialética entre os fenômenos e sua essência, entre o particular e o universal, entre a base material e a consciência, entre a imaginação e a razão. Exercitar a conexão do todo com a parte não só nos conforta em relação à praga da fragmentação da existência, como nos orienta em nossas perspectivas. Quer um singelo exemplo dessa unicidade que pregamos? A feira livre. Ela é a real expressão do congraçamento entre pessoas e cidade. Livre mesmo, saborosa, feita ao ar livre, sem barreiras sócio-econômicas, descontraída, informal. Uma festa da multiplicidade urbana. Que nosso cotidiano seja o mais próximo possível de um sonho feliz de cidade.


O autor, João Jabbour, é editor chefe do Jornal da Cidade

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