Bairros

Laudo confirma que túnel oferece riscos

Vitor Oshiro e Bruna Dias
| Tempo de leitura: 6 min

Era fim da noite de anteontem quando moradores da quadra 4 da rua Timbiras, em Bauru, saíram de suas residências após ouvirem um estrondo. Na via, encontraram grande cratera derivada do túnel criminoso descoberto há exatos seis meses e que tinha como alvo a empresa de valores Protege. Entretanto, mais do que "celebrar" a data, o buraco desnuda uma preocupante realidade para os moradores: segundo perícia da própria Polícia Científica realizada em oito casas, todas apresentaram problemas por conta do túnel.

O perito responsável pelo laudo conversou com o JC na tarde de ontem, porém, preferiu ter a identidade preservada. Segundo ele, há cerca de três meses, por pedido da Polícia Civil, foi feita uma perícia na área e constatados vários problemas.

"O laudo aponta trincas e rachaduras no passeio público, na via, nas calçadas, em paredes, quintais e chãos das casas de toda a área visitada", explica.

Entretanto, a área de risco, de acordo com o perito, é ainda maior, uma vez que "alguns moradores não permitiram a entrada ou não estavam presentes nos três dias em que a perícia foi realizada". Desse modo, a estimativa é de que cerca de 15 imóveis, entre residências e estabelecimentos comerciais, estejam em risco. Muitos já começaram a apresentar problemas.

"A verificação que fiz aponta que, caso (o túnel) não seja tapado, haverá danos estruturais, como os que já estão aparecendo", diz o perito.

A perícia no local foi realizada há aproximadamente três meses, o que torna a situação mais preocupante agora. "No laudo, expliquei que a terra é compactada pela natureza em milhares e milhares de anos. A escavação provoca vibração e vira uma espécie de ?queijo suíço?. Assim, a área lateral perde atrito e ocorre o deslocamento dessa terra", afirma o perito da Polícia Científica.

Novo buraco


Segundo o Departamento de Água e Esgoto (DAE), foi exatamente um desses deslocamentos de terra que pode ter provocado o aparecimento da cratera na rua Timbiras anteontem. Conforme o JC publicou na edição de ontem, logo após o surgimento do buraco, técnicos da autarquia descartaram para a reportagem qualquer relação com o túnel. Porém, horas mais tarde, voltaram atrás.

Por meio da assessoria de imprensa, o diretor de serviços de manutenção do DAE, Benedito da Silva, afirmou que, por conta da escavação criminosa, houve um rompimento de dutos de água e esgoto no local.

Moradores relataram que a polícia esteve presente durante a madrugada na área e que técnicos da autarquia teriam visto até mesmo lâmpadas e fiações do túnel, entretanto, a assessoria de comunicação do DAE não confirmou o fato. Ainda ontem, a autarquia consertou os dutos e tapou o buraco, normalizando o abastecimento de água em algumas casas afetadas.

"Isso mostra o perigo. Naquela rua (Timbiras), passam muitos veículos pesados. Isso vai provocando um deslocamento da terra, que é úmida por conta das tubulações, e pode abrir uma nova cratera. Então, há riscos nas casas e na via também", conclui o perito responsável.

____________________

Jogo de empurra


Em março, o asfalto da quadra 2 da Nações Unidas já havia cedido provavelmente por conta de uma infiltração do túnel. Na ocasião, o prefeito Rodrigo Agostinho declarou que a responsabilidade de tapar o túnel não era da prefeitura. "Não é função do município. Infelizmente, cada morador vai ser o responsável por tapar o buraco de suas casas", afirmou.

Na época, o prefeito declarou que o problema é mote de segurança pública, o que compete ao Estado resolver. Todavia, o presidente da Subseção Bauru da OAB, Caio Augusto Silva dos Santos, apontou que realmente seria responsabilidade do município.

No dia 22 de fevereiro, uma motociclista caiu por conta de outro buraco aberto no solo. Caio Augusto informou que ela irá ajuizar uma ação indenizatória contra o município.

Ontem, por meio da assessoria de comunicação, a prefeitura repetiu que a recuperação da via pública já foi feita e que "ainda não há definição jurídica sobre a quem cabe a responsabilidade de consertar o túnel clandestino aberto sob os imóveis, que são áreas particulares".

____________________

Seis meses, nenhuma prisão


Hoje completa exatamente seis meses que o primeiro túnel foi descoberto sob a Nações Unidas. Após todo esse período, ninguém foi preso ou mesmo identificado pela Polícia Civil. O caso, que é investigado pela Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Bauru, pode ficar mais distante de uma solução após a troca do titular da unidade. Ontem, Carlos Alberto Gomes da Rocha Silva, que estava à frente do caso, deixou a DIG e assumiu oficialmente a Seccional de Jaú.

O diretor do Departamento de Polícia Judiciária do Interior 4 (Deinter-4), Benedito Valencise, confirmou o risco de desabamento. "Isso já era previsível. A prefeitura já foi comunicada sobre isso, o Poder Judiciário foi comunicado também. Nós temos laudo do Instituto de Criminalística sobre o perigo de desabamento daquele túnel. Então, há que ser tomada uma providência urgente", alertou Valencise.

____________________

Rachaduras e até quintal desabando


Além do buraco que surgiu no meio da rua Timbiras, os moradores apontam vários problemas que provavelmente apareceram em decorrência do túnel criminoso (veja no quadro acima). A primeira "vítima" parece ter sido a família de Anne Cristine Ferraz Dutra Ferreira, 21 anos, que mesmo antes da descoberta do túnel, viu uma cratera se abrir no quintal.

"Era um buraco de um metro de profundidade por um de largura. Colocamos dois caminhões de terra e, no outro dia, tinha desaparecido. Chamamos um engenheiro e ele disse que havia risco de cair".

Segundo Anne, somente após o terceiro caminhão de terra o buraco foi tapado. Entretanto, a família resolveu mudar do local. "Isso foi algo que pesou bastante".

Houve aqueles que perceberam os problemas depois da descoberta do túnel. "Moro aqui há três anos e minha casa era normal. Quando descobriram o túnel, fiquei com medo da casa ceder. Agora, minha casa já apresenta rachaduras na calçada, no quintal e na primeira parede", aponta Willian Gregório, 25 anos, que reside em frente ao buraco aberto na noite de anteontem.

Nos meses seguintes à descoberta do túnel, o JC já havia ouvido outros moradores que estavam na provável rota da obra criminosa e todos estavam com medo de desabamentos. O fato recente e a confirmação do laudo da Polícia Científica somente ampliam esse sentimento.

____________________

Relembre o caso


A investigação do caso começou em 3 de fevereiro. Na ocasião, funcionários da Prefeitura Municipal de Bauru, ao consertar um buraco, localizaram na quadra 3 da avenida Nações Unidas um túnel com 30 metros de extensão. A obra foi feita por criminosos e partia da galeria pluvial abaixo do canteiro central, terminando na empresa de segurança e transporte de valores Protege.

A polícia informou que havia várias entradas públicas possíveis para a galeria, como a do próprio rio Bauru, localizada na avenida Nuno de Assis. Entretanto, no último dia 17 foi descoberto um segundo túnel. Dessa vez, a obra partia de uma casa e terminava na quadra 2 da Nações Unidas, a cerca de 150 metros de distância da Protege. Pelas posições das travas, foi possível saber que essa era a rota pela qual os bandidos acessavam a galeria.

No dia seguinte, ao percorrer essa nova escavação de aproximadamente 150 metros de comprimento, foi localizado o imóvel utilizado pelos bandidos como ponto de origem do túnel: uma casa construída pelos criminosos e que funcionava como "Quartel-General" dos bandidos.

Comentários

Comentários