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Bauru: 71% das famílias têm casa

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 7 min

O crescimento da renda do bauruense, estimulado pelos incentivos governamentais, fez com que o sonho da casa própria se tornasse, hoje, uma realidade presente na vida de sete em cada dez famílias da cidade. Segundo estatísticas do Censo 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 78,8 mil de um total de 109,8 mil domicílios de Bauru são próprios (71,7%) e somente 24,8 mil alugados (22,6%).

Há dez anos, quando o último levantamento foi realizado, o número era de 68,1 mil imóveis próprios e 15,9 mil locados, de um total de 90,6 mil unidades residenciais. Embora o IBGE aponte que houve um acréscimo de 20 mil novas casas em uma década – um crescimento de 21%, acima da evolução populacional de apenas 8,85% no período -, especialistas consultados pelo Jornal da Cidade acreditam que este número possa ser ainda maior, principalmente por conta da expansão do mercado imobiliário impulsionada pelo “Programa Minha Casa, Minha Vida” (PMCMV), criado em 2009.

“Entre 2010 e 2011, acredito que pelo menos outras 5 mil casas tenham sido construídas e compradas com a ajuda do ‘Minha Casa, Minha Vida’ e que não estejam computadas nos cálculos do IBGE. Esse volume continua crescendo e só vai aparecer no próximo censo”, avalia Wânia Pôrto, proprietária de uma imobiliária na cidade. Vale lembrar que, durante a coleta de dados, os recenseadores do IBGE encontraram aproximadamente 8 mil domicílios desocupados em Bauru, que não foram computados na pesquisa.

Entre eles, estão novas construções, espalhadas por bairros distintos da cidade como o Núcleo Otávio Rasi, Jardim Brasil e Jardim Terra Branca devem ser entregues até o final do primeiro semestre do ano que vem. Grande parte deles, segundo Carlos Eduardo Candia, delegado do Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci) em Bauru, será ocupada por seus proprietários, que até então moravam em imóveis alugados.

“É claro que os investidores também compraram, mas a maioria é mesmo o primeiro imóvel das famílias que estão fugindo do aluguel e também da violência, já que quase todos estes novos imóveis são apartamentos”, destaca.

 


Sem precedentes


Conforme lembra Wânia, o aumento no número de domicílios nos últimos dois anos é algo sem precedentes na história recente da cidade e do País, que vagamente pode ser comparada à expansão de conjuntos habitacionais proporcionada por estímulos governamentais em décadas passadas. “Antigamente, apenas as classes D, E e F recebiam este tipo de apoio. Agora, os programas abrangem desde a classe B. É um público bem mais amplo, que tem condições de custear o financiamento de uma moradia melhor”, assinala.

Trata-se de gente como o industriário Sérgio Aparecido da Silva Santos, 39 anos, que comprou um imóvel no Residencial Flamboyant’s, no Jardim Marambá, através de um financiamento junto à Caixa Econômica Federal (CEF). Pela primeira vez morando em um apartamento, pelo qual pagará 92 mil em 12 anos, ele diz viver com maior tranquilidade por ter se livrado do aluguel.

“Já tive casa própria mas, por problemas pessoais, durante o último um ano e meio tive de pagar aluguel. É um dinheiro que a gente nunca mais vê. Agora, mesmo com o custo das prestações, a gente sabe que é um investimento para a vida toda”, pontua ele, que mora com a esposa e dois filhos.

A operadora de telemarketing Andréia Gonçalves de Souza, 36 anos, começa a pagar a primeira parcela de sua nova casa, no Jardim Prudência, ainda neste mês. Os planos são de entrar no imóvel até o final desta semana com o marido e os filhos de 16 e 9 anos.

“Eu morei em casa de núcleo habitacional, no Bauru 16, e decidi vender porque era um imóvel que não valorizava. Vendi por R$ 32 mil, fiquei um ano e meio vivendo de aluguel e comprei a nova por R$ 70 mil, sendo que R$ 5 mil foi subsidiado pelo Minha Casa, Minha Vida”, revela.

O financiamento será quitado em 25 anos, mas Andréia já comemora a valorização do novo lar em R$ 20 mil em apenas cinco meses. “Fechei o contrato em março e recentemente recebi uma oferta para vender minha casa por R$ 90 mil. Mas não quero. Ela é a realização do meu sonho”, adianta.

 

 

Outras cidades


A proporção de famílias que atualmente vivem em casa própria em Bauru se assemelha a de outros municípios de mesmo porte. A cidade de Piracicaba, por exemplo, tem 71,4% de seus habitantes morando em residências próprias. Em Franca, o índice é de 68,8% e, em São José do Rio Preto, de 66,2%.

Em cidades vizinhas como Agudos e Jaú, a porcentagem é de 74,6% e 72,9%, respectivamente. Já na Capital paulista, 70,2% dos moradores são donos dos imóveis em que vivem. No Brasil, a proporção é de 73,3%.

 

 

Mercado de aluguéis é considerado lucrativo


A evolução das estatísticas do censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta para um dado interessante. Dos cerca de 20 mil novos imóveis construídos na cidade, metade foi ocupada por seus proprietários e outra metade adquirida por investidores para locação.

É a comprovação de que, embora os subsídios proporcionados pelo “Programa Minha Casa, Minha Vida” tenham facilitado a aquisição do imóvel próprio, o mercado de aluguéis continua sendo considerado um investimento lucrativo. “A procura é muito grande. A renda da população cresceu e um jovem que não pode comprar imóvel, mas quer sair da casa dos pais, acaba alugando”, avalia Wânia Pôrto, proprietária de uma imobiliária na cidade.

Além do aumento do poder de consumo da população e a própria estabilidade econômica e de emprego, o fato de Bauru ser pólo regional e universitário também colabora para este setor se manter aquecido. “Estudantes ou profissionais que vem à cidade com o objetivo de permanecer por um período determinado de quatro anos, por exemplo, preferem alugar. Só depois, se decidirem ficar na cidade é que pensarão em comprar”, analisa.

Conforme analisa o economista Reinaldo Cafeo, após a crise financeira internacional, os investidores saíram da renda variável e partiram para bens reais, sendo os imóveis um porto seguro aos seus lucros. “Os números indicam o número de investidores cresceu na última década, o que reflete, de certa maneira, concentração de renda”, frisa.

Mas, até o primeiro semestre do ano que vem, quando pelo menos 5 mil casas em construção na cidade devem ser entregues, a tendência é que o mercado sofra uma reviravolta, avalia o delegado do Creci em Bauru, Carlos Eduardo Candia. “Acredito que haverá uma desocupação em massa de imóveis alugados, o que deverá refletir em redução no preço dos aluguéis. O reajuste só não vai ocorrer se muita gente de fora vier morar em Bauru”, observa.

 


Déficit é de 6 mil residências na cidade


Ainda que a demanda em Bauru seja de 31 mil casas – já que, de um total de 109,8 mil domicílios, apenas 78,8 mil são próprios -, o déficit habitacional da cidade é de 6 mil unidades, conforme explica a vice-prefeita Estela Almagro, responsável pelo desenvolvimento das ações do “Programa Minha Casa, Minha Vida” (PMCMV) em Bauru. De acordo com ela, este número refere-se ao total de famílias vivendo em situação de vulnerabilidade, ou seja, em domicílios precários, que representam risco à saúde física e emocional dos moradores.

“Nem a totalidade das casas existentes nas 22 favelas de Bauru são consideradas vulneráveis, embora a grande maioria seja. Encontramos residências de bom padrão nesses locais, assim como encontramos imóveis em condições insalubres em outros bairros da cidade”, frisa.

No longo prazo, Estela acredita que o PMCMV contribuirá significativamente para reduzir esta demanda mais crítica. Em sua primeira fase, o programa possibilitou a construção de 2 mil casas em Bauru destinadas a famílias com renda de até três salários mínimos. A expectativa é de que pelo menos outras 700 unidades sejam erguidas na segunda etapa, que terá início ainda neste ano.

Deste total, no entanto, apenas 10% pôde ser destinado à demanda dirigida – cuja prioridade está no desfavelamento da cidade. Os contemplados com os outros 90% de casas subsidiadas foram escolhidos por meio de sorteio.

“Na verdade, poderíamos ter destinado 50% das casas para a demanda dirigida. Mas a grande dificuldade é encontrar área próxima às favelas para fazer as novas construções. Os moradores não querem ser deslocados para bairros distantes de onde moravam, mas Bauru não tem espaço para isso”, frisa.

E, como a população continua crescendo, a tendência é de que o déficit habitacional também não se mantenha estático. Por conta disso, na avaliação de Estela, o município precisa fazer sua parte. Para ela, uma das principais medidas a serem tomadas pela prefeitura seria a criação criar uma secretaria de habitação. “E o Conselho Municipal, já legalmente criado, precisa ser implementado. Até porque estamos cercados de presídios, que trouxeram um contingente de falta de habitação imenso, já que boa parte das famílias desses detentos vieram morar na cidade. A Secretaria de Planejamento já não dá conta sozinha de organizar toda esta demanda”, analisa.

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