Mogadício - Ao menos dez pessoas morreram e 15 foram feridas ontem na Somália, quando homens armados disputaram com a população um carregamento de comida doado por entidades internacionais. A disputa foi iniciada, segundo testemunhas, por soldados do governo interessados em roubar os alimentos distribuídos no acampamento na Capital Mogadício. Há cerca de 30 mil refugiados no local, deslocados pela fome.
A crise já matou mais de 29 mil crianças abaixo de 5 anos apenas nos últimos três meses na região sul do país, segundo estimativa dos Estados Unidos.
Abdiweli Mohamed Ali, primeiro-ministro somali, condenou o ataque e ordenou à polícia que prendesse e levasse os responsáveis à Justiça. Em seguida, pediu desculpas às vítimas e prometeu que não haverá mais ataques.
Logística difícil
O incidente de ontem ressalta as dificuldades e riscos logísticos do envio de ajuda humanitária à Somália. Entidades dizem já contar com perdas nesse processo.
Apesar da grave crise humanitária na região, o grupo armado Al Shabab proíbe as agências internacionais de enviar ajuda à população. Eles negam que haja fome. "Um dos problemas que enfrentamos é a falta de acesso para levar ajuda", diz Sandra Lefcovich, porta-voz do CICV no Brasil (Comitê Internacional da Cruz Vermelha), que atua no país.
Questão semelhante é enfrentada pelo Médicos Sem Fronteiras (MSF) - que prefere receber doações em dinheiro, em vez de em alimentos.
"A comida para desnutridos é bastante específica, quase um remédio", diz Tyler Fainstat, diretor-executivo do MSF no Brasil. "O custo para enviar alimentos, além disso, é bastante alto."
Problema é político
Mogadício - Há seca severa, mas este não é o principal motivo por trás da crise de fome que assola a Somália. A análise é de Abdi Ismail Samatar, professor da Universidade de Minessota, nos Estados Unidos. Nascido na Somália, naturalizou-se americano e pesquisa a África há 30 anos. "A cada dois anos há uma seca. Nos últimos 50 anos, houve várias secas, mas elas nunca viraram uma crise de fome como esta, em que milhares morrem. Isso porque havia governos no país com capacidade de assistir as pessoas", disse.
Para ele o que mudou nas últimas décadas foi a instabilidade política, depois da ocupação da Etiópia (2006-2008) e da "Guerra ao Terror" americana, que patrocinou e armou clãs locais contra grupos considerados terroristas, como a milícia Al Shabab. EUA e ONU apoiaram a criação do TFG (Governo Federal Transitório), que desde 2006 administra parte do país. "É um dos regimes mais corruptos e incompetentes do mundo", diz Samatar. "Sem um governo efetivo, as pessoas enfrentam a seca, mas não têm a quem recorrer. É a falta de assistência que criou a fome e não a seca em si."