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Nova crise velha

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

 O noticiário dos últimos três meses sobre os novos (velhos) problemas da economia americana, especialmente os sinais de dificuldades na administração da dívida pública, em meio a disputa do Poder entre Congresso e Executivo, assumiu às vezes tons de uma grande farsa quando se sabe que os Estados Unidos continuam sendo o último país onde pode acontecer um "default". Chega a ser um espetáculo ridículo, porque nesse período o Tesouro americano colocou no mercado mais de 100 bilhões de dólares de seus títulos, por semana, desde papéis de 30 dias a papéis de 360 e 720 dias, com taxas de juros declinantes!

Ora, pode passar pela cabeça de alguém que se houvesse realmente o risco de "default" iria aparecer comprador para esses papéis que vencem em 30 dias, com rendimento próximo de zero? É evidente, então, que toda a dramaticidade aparente escondia os verdadeiros alvos do cabo-de-guerra: Obama e a sua tentativa de reeleição. O problema é que os lances irresponsáveis dessa disputa entre republicanos e democratas nos Estados Unidos se transformaram num grande problema para toda a economia mundial, aumentando as incertezas e estimulando um aumento de volatilidade sofregamente explorado pelos operadores financeiros e suas "agências de risco".

Esse sistema de análise de risco é uma das coisas mais desmoralizadas nos novos tempos, mas é utilizado por agências como a Standard & Poor que aproveitou para rebaixar a nota dos títulos americanos, colocando mais uma lenhazinha para atiçar as chamas da volatilidade. A maioria de tais empresas nunca foi capaz de detectar qualquer movimento importante nos mercados antes deles produzirem seus efeitos. Até pelo contrário, muitas empresas que acompanharam seus conselhos simplesmente quebraram, foram a falência. 

É simples entender porque as suas avaliações normalmente conduziam ao desastre: as agências se mancomunavam com os bancos de investimento que estavam colocando seus papéis no mercado, cujas contas atendiam.  Emitiam suas análises, formulavam hipóteses para atrair incautos, se necessário lascavam um AAA, os famosos "Triple A" e quando o mundo ainda os levava a sério encheram as burras enquanto deixavam para trás o rastro de destruição no setor privado e ? como no exemplo europeu ? a nuvem de enxofre da corrupção nos governos cúmplices. Para onde estão correndo as fortunas nesse momento em que a sensação de risco aumentou? Para os papéis americanos, mesmo com todas as dificuldades dos Estados Unidos. Porque é evidente que eles mantêm as condições essenciais para recuperar sua economia. Precisam ultrapassar estes momentos de grave disfuncionalidade política que estão vivendo e vão reencontrar o rumo do crescimento, como sempre fizeram.

Infelizmente Obama deixou passar as oportunidades no começo do governo e foi incapaz de impor a sua vontade ao sistema financeiro que havia se tornado proprietário do Congresso dos Estados Unidos. Tinha o apoio do povo americano que apenas esperava que ele agisse para salvar os empregos dos trabalhadores que ganhavam a vida honestamente e cobrasse duramente a punição dos promotores da crise.


O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento

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