JC Criança

Quer brincar? Então, vá para fora!


| Tempo de leitura: 4 min

Um estudo recente feito na Inglaterra mostra que as crianças de agora demonstram mais fraqueza em atividades em comparação à geração de crianças de dez anos atrás. O que muitos pais não sabem é que tais resultados estão diretamente ligados à postura deles e dos professores com relação às brincadeiras incentivadas nas atividades infantis, tanto na escola, como nas horas de lazer, em casa.

De acordo com Marilena Flores Martins, presidente da Associação Brasileira pelo Direto de Brincar (IPA Brasil), atividades que demandam um esforço físico, por mínimo que seja, estão diminuindo com a chegada ao mercado de brinquedos industrializados cada vez mais tecnológicos, com recursos de última geração.

"Esses brinquedos são tão atraentes aos olhos de filhos ? e também dos pais - que substituem em grande parte o tempo que as crianças têm para brincar fora de casa, seja no pega-pega, no esconde-esconde ou subindo em árvores - atividades frequentes nas gerações passadas e, até mesmo, nas gerações dos últimos dez anos", explica.

Segundo a especialista, por maior que seja o esforço em recriar espaços de recreação, com parquinhos modernos e brinquedos variados, os mesmos não promovem o nível de desafios e aprendizados que são oferecidos quando a criança é levada a brincar fora de casa, ao ar livre ou em contato com a natureza.

Como exemplos, Marilena cita atividades que envolvem escavações (como "caça ao tesouro"), simulação de escaladas (que podem ser feitas em morrinhos ou murinhos no próprio quintal) ou até mesmo a construção de uma casinha na árvore.

____________________

Interação com a natureza


No caso da construção de uma casinha na árvore, Marilena Flores Martins, presidente da IPA Brasil, cita que o contato da criança com esse tipo de brincadeira dá a ela a possibilidade de conhecer e se integrar com o meio que a envolve - como as plantas, as árvores, a terra e, por que não, com os pássaros, bichos e insetos que vivem naquele habitat, elementos vivos e que não estão presentes em nenhum brinquedo por melhor e mais tecnológico que seja.

"A tecnologia não substitui a experiência viva - o brincar, o correr livremente, o andar em superfícies diferentes, escorregar, escalar, subir em árvores... Tudo isso fortalece a criança fisicamente e emocionalmente, favorece o controle sobre o próprio corpo, desenvolve habilidades psicomotoras, além de ensinar, na prática, a importância da preservação ambiental", salienta.

Ainda utilizando como exemplo a construção de uma casa na árvore, a especialista avalia o estímulo à imaginação e à criatividade, como a construção de um processo de planejamento e cooperação próprio e com outras crianças.

"O crescimento com pouca liberdade para fazer suas próprias escolhas, resulta em adultos com baixa criatividade, autonomia e independência, isso porque essas brincadeiras, por mais simples que pareçam ser, trabalham aspectos primordiais do desenvolvimento físico, emocional e intelectual da criança", explica, e completa com a citação do presidente da Sociedade de Pediatria do Rio de Janeiro, Edson Liberal: "É questão do uso e desuso. O que você não usa, atrofia. O que você usa, melhora a sua performance".

____________________

Preocupação excessiva pode comprometer


O distanciamento das crianças de atividades que promovem o desenvolvimento em suas diferentes formas é devido a fatores como a preocupação excessiva de pais com desafios que, supostamente, poderiam oferecer algum risco à segurança delas.

Dados da pesquisa Tente Algo Novo, que analisou o sentimento que 800 pais e filhos do Brasil, Argentina, França e Reino Unido compartilham frente a brincadeiras novas, destacam a importância de dar às crianças a oportunidade de aprender pela experiência, mesmo que essa possa envolver um certo grau de risco ou de exposição a comportamentos inéditos.

Segundo o levantamento, 92% dos pais e dos profissionais concordam que é essencial para o desenvolvimento infantil incentivá-las a viver novas experiências. Entretanto, 69% desse mesmo grupo admitem que a maior preocupação ao incentivar que o filho "vá além" e experimente algo novo é de que ele se machuque.

"Esse medo, associado a uma agenda com excesso de atividades para as crianças, excesso de expectativas e cobranças por parte dos pais, vem provocando nas crianças transtornos de ordem física e emocional. Crianças humanas não são ?desenhadas? para sentar na frente das ?telinhas?. É contra a sua natureza", ressalta Marilena Flores Martins, presidente da IPA Brasil, parafraseando o escritor norte-americano Richard Louv, autor do livro "The Last Child in the Woods" (algo como "A Última Criança na Floresta", sem previsão de publicação aqui no Brasil), que trata sobre a disfunção nas crianças gerada pela falta de contato com a natureza.

"É realmente muito mais prático deixar o filho vendo TV ou no playground. Isso dá segurança, conforto e mantém a criança ocupada e, inclusive, enturmada com as outras crianças", frisa ela.

No entanto, em um ambiente adequado, ressalta Marilena, as crianças podem ter contato com novos elementos, aprendendo a controlar os riscos, em atividades simples e inovadoras. Isso porque, segundo ela, a criança aprende o que vive, muito mais do que lhe é ensinado teoricamente, e precisa diariamente de uma boa dose de estímulo para sentir-se viva e feliz.

Comentários

Comentários