Espantei-me com a reportagem publicada segunda-feira da semana passada sobre os custos de uma gestação. Não me horrorizam os valores mencionados, ainda que eu tenha despendido muito menos recursos quando engravidei e ainda que saiba que a realidade descrita pelo autor da matéria não é, nem de longe, a mesma da maior parte das famílias que esperam a chegada de uma criança; cada um que dê a seu dinheiro o uso que desejar. Não critico, portanto, as famílias retratadas na reportagem.
O que me chamou a atenção foi o tom de normatividade utilizado: "Gravidez custa pelo menos R$ 15 mil" era o título da matéria. Custa tudo isso sempre? "Sem abrir mão do bom gosto, mas com controle nos gastos, somente com mobiliário e decoração para o quartinho do bebê, é preciso desembolsar cerca de R$ 6 mil." É preciso realmente desembolsar tudo isso pra garantir conforto ao bebê que vai chegar? O tom da reportagem dá a entender que não há outra forma de passar pelo período da gestação. Todo o público-alvo do jornal é contemplado com essas afirmações tão categóricas? Infelizmente a matéria acabou ganhando um tom fútil e acrítico da forma como foi apresentada aos leitores. A normatividade presente no texto não gera identificação e empatia, pelo contrário. É triste que um veículo de comunicação apregoe que é necessário um gasto que para a maior parte da população é nada menos do que um luxo.
Deborah Junqueira