Trípoli - Diante da tomada do quartel-general de Muammar Gaddafi e de praticamente toda a Capital líbia pelos rebeldes, o chanceler do país, Abdelati Obeidi, admitiu que a guerra acabou para seu líder. A caçada a ditador continuava ontem, com os rebeldes garantindo "anistia total" a quem entregá-lo - vivo ou morto.
Em entrevista à emissora britânica Channel 4 News, Obeidi disse que os gaddafistas devem abandonar a luta, vencida pela oposição. "Se estivesse no poder, diria a eles para baixar as armas", disse, por telefone, de Trípoli.
O diplomata é considerado um integrante moderado do gabinete de Gaddafi, mas ocupou vários postos de confiança no regime desde 1977. Ele garantiu não saber o paradeiro do ditador.
Ontem, a oposição mostrou que não está disposta a dialogar com o governo. "O CNT (Conselho Nacional de Transição) anuncia que qualquer um do círculo próximo que mate Gaddafi ou o capture receberá anistia ou perdão por qualquer crime cometido", disse o presidente do CNT, Abdel Jalil.
Ainda segundo Jalil, um empresário de Benghazi, bastião insurgente, ofereceu recompensa de US$ 1,6 milhão (R$ 2,5 milhões) pelo ditador.
A caçada a Gaddafi e os confrontos continuaram em várias cidades ontem. Guma el Gamaty, porta-voz da CNT, disse à rede BBC, acreditar que Gaddafi está perto ou mesmo na Capital líbia.
A oposição afirma ter controle de 80% de Trípoli, que ainda registra intensos confrontos, especialmente nas regiões próximas ao aeroporto e ao complexo Bab al Azizia, tomado no dia anterior por rebeldes.
Durante todo o dia, militantes pró-Gaddafi no bairro de Abu Salim atiraram em direção ao ex-quartel-general do ditador. Poucos civis arriscaram sair às ruas de Trípoli.
Depois da Capital, o objetivo dos rebeldes é tomar Sirte, cidade natal de Gaddafi, de onde as forças leais ao ditador lançam mísseis contra Misrata. Especula-se ainda que o ditador possa estar escondido na cidade.
As tropas da oposição avançavam ontem em direção ao centro da cidade em duas frentes, a leste e oeste.
Os rebeldes já estariam recebendo apoio de militares das forças especiais de Reino Unido, França, Jordânia e Qatar em solo, segundo a CNN.
Um oficial da Otan confirmou que as tropas ajudaram os rebeldes a "melhorar suas táticas" para tomar a Capital.
Em uma estrada próxima a Trípoli, quatro jornalistas italianos foram sequestrados por gaddafistas ontem. Segundo o "Corriere della Sera", jornal para o qual trabalham dois deles, os repórteres já estão bem, em um apartamento em Trípoli.
Temor brasileiro
O Itamaraty teme que o Grupo de Contato sobre a Líbia - formado por potências ocidentais e regionais, proposto pela França - tome o lugar do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) nas discussões sobre o tema.
Para o Ministério das Relações Exteriores, a formação de grupos não poderia deixar que temas próprios do conselho sejam tratados "por fora".
Ontem, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, mencionou a participação do Brasil no Grupo de Contato. O Itamaraty diz que ainda não houve convite formal. Ainda que prefira que a questão Líbia seja tratada na ONU, o ministério não descarta participar do grupo.
Jornalistas são libertados após confinamento
Trípoli - Foram libertados ontem os 36 jornalistas e profissionais de imprensa que estavam há cinco dias proibidos pelo regime líbio de saírem do hotel de luxo Rixos, em Trípoli, onde estavam hospedados.
A detenção dos jornalistas, que estavam na Líbia devidamente credenciados pelo regime, havia gerado temores de que pudessem ser sequestrados ou usados como escudos humanos.
A libertação dos profissionais foi mediada pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha e ocorreu no fim da tarde. Os repórteres, fotógrafos e produtores foram levados ao Hotel Corinthia, em área controlada por rebeldes.
Os jornalistas, de veículos como Reuters, France Presse e CNN, entre outros, foram recebidos com beijos e abraços por parte dos colegas que participam da cobertura do conflito na Capital, Trípoli.
Na chegada ao saguão do Corinthia, acompanhada pela reportagem, vários jornalistas libertados se emocionaram ao relatar o confinamento. "O que restava da comida estava apodrecendo, e eu comecei a ficar doente", disse à reportagem Dario Lopez Mills, fotógrafo da Associated Press.
O mais difícil, segundo relato de vários jornalistas, eram os conflitos interpessoais alimentados em grande parte por divergências sobre o conflito na Líbia.
"A guerra do lado de fora estava sendo reproduzida dentro do hotel", disse Thierry Messan, jornalista francês que é notório crítico da ação da Otan (aliança militar do Ocidente) contra o regime líbio. "As divergências ideológicas nos levaram às vias de fato", afirmou Messan, sem dar detalhes sobre a briga.
A reportagem apurou que o racha opôs Messan, uma jornalista britânica e um sul-africano ao restante do grupo. "Os que acusavam os grandes veículos ocidentais de ser tendenciosos e agentes da Otan foram os primeiros a embarcar com a Cruz Vermelha", ironiza Lopez Mills.
Boa parte do grupo está na Líbia há meses. Sob controle constante do regime, só podiam relatar o que o governo mostrava.