A queda nos índices de confiança da so-ciedade americana sobre a capacidade do Executivo e do próprio Congresso dos Estados Unidos de encontrarem um entendimento mínimo sobre medidas que permitam reanimar a atividade econômica e recuperar os empregos perdidos na crise financeira, é um dos efeitos visíveis da disfuncionalidade que se apossou do sistema político. Não é só na Eurolândia que reina a confusão e a incerteza entre as lideranças políticas, que não mais conseguem explicar, ao menos, os motivos da falência de suas finanças aos irados cidadãos. Os americanos vivem em estado de angústia desde a crise anterior, sem perspectiva de recuperação de seus empregos ou (os que estão empregados) com a expectativa de perdê-los diante da redução do ritmo dos investimentos industriais.
Há quatro anos o PIB está estagnado. Como a população cresceu, isso significa que o PIB per-capita diminuiu. Considerando que o PIB real americano cresce à taxa de 2% ao ano, a flutuação dos últimos 4 anos representa qualquer coisa como 10% a 15% de um PIB anual (mais ou menos um PIB brasileiro) que potencialmente deixou de ser produzido pela disfuncionalidade do sistema financeiro. As consequências sobre o endividamento interno foram importantes. De um lado, pela redução da receita e, de outro, pelo aumento das despesas com o desemprego. Paralelamente, aumentou a desigualdade na distribuição de renda, o que acentuou o mal estar da sociedade com relação ao presidente Obama.
É cada vez mais evidente que as políticas monetária e fiscal foram incapazes de cooptar a confiança do setor privado, de forma que seus efeitos sobre a recuperação do consumo e ampliação dos investimentos têm sido pífios. Basta dizer que as empresas não-financeiras têm entre 1,5 e 2 trilhões de dólares aplicados em papéis do próprio Tesouro americano. Por que não investem? Porque desconfiam do governo de Washington e não têm certeza que tipo de demanda encontrarão no futuro. Enquanto isso, o crescimento do consumo é inibido por um desemprego total ou parcial de mais de 25 milhões de pessoas, que continuam assustadas com o comportamento do mercado de trabalho, especialmente na construção civil.
Deveria ser claro que o problema só poderá ser resolvido com um aumento da demanda privada que até agora não tem respondido aos imensos estímulos monetários e fiscais. A resposta não é "mais do mesmo", mas entender porque não funcionou. Em nossa opinião, porque: 1º) o comportamento do presidente Obama foi hostil com o setor real da economia no início de sua administração; 2º) ele foi submisso e leniente em relação ao setor financeiro, que precisava mesmo ser preservado, mas não os seus agentes mais conspícuos e 3º) gastou o enorme patrimônio político do "we can" com programas necessários mas discutíveis, em lugar de utilizá-lo cooptando e dando confiança ao setor privado para reduzir o desemprego. O problema dos EUA não é econômico: é de liderança, de falta de confiança da sociedade nas ações do governo e da quase paralisia com o processo de disfuncionalidade que além dos mercados está dominando a política.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento