Tribuna do Leitor

Sobre fábulas e subserviências


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Ainda na minha primeira infância, não me recordo se no segundo, terceiro ou quarto ano do Grupo Escolar ? era assim que se dizia das segundas, terceiras e quartas séries do atual ensino fundamental ? estudávamos as fábulas de Esopo e suas interpretações, já então aperfeiçoadas e editadas pelo francês La Fontaine. Incorporava-se a esse aprendizado o ensino da moral de cada fábula, maneira bastante pedagógica de ensinar aos pupilos de então a retidão e a conduta exemplar e ilibada que os bons meninos deviam praticar no dia a dia. Lembro-me bem, dentre outras, das fábulas "A raposa e as uvas", "O lobo e o cordeiro", "A gansa dos ovos de ouro" (e não a galinha) e "A lebre e a tartaruga".

"Sirvo-me dos animais para instruir os homens", dizia costumeiramente La Fontaine.  Mas, nos conturbados dias de hoje, a todo o momento vem-me à lembrança a fábula do "Macaco, do gato e das castanhas". Lembram-se dela, senhores leitores? Se não, eu refresco-lhes a memória.  Ei-la: o macaco Lulu achou sobre a mesa uma bela porção de castanhas cruas, recém-apanhadas. O símio imediatamente ficou com a boca marejada pela saliva decorrente do seu desejo de comer as castanhas. O fogão a lenha esmaltado estava aceso e a chapa toda tinindo pela alta temperatura. Ali por perto estava a gata Delmira, aproveitando o calor do fogão ou, como diz o vulgo, "esquentando o frio"... Analisada bem a cena, tudo o que o macaco Lulu queria estava à disposição: as castanhas fresquinhas e no ponto de comer e o fogão, redundante e literalmente, pegando fogo. Além disso, as patas lindas e fofas de Delmira ali, à sua disposição. As castanhas postas por Lulu sobre a chapa quente começaram a chiar e Delmira, adredemente postada no colo do macaco, pronta para ser posta em ação: segurando com suas mãos de macaco as patas da gatinha, como se fosse uma espátula ele manobrava as castanhas para que não passassem do ponto, a despeito de que as patas dianteiras da felina, obviamente, ficassem em carne viva. Retiradas as frutas de sobre a chapa, também com o auxílio das patas da gatinha ? que miava(gato não urra, uai!) de dores ? Lulu refestelou-se com seu lauto banquete.

Eis aí uma boa ocasião para deduzirmos qual seria a moral da história desta fábula. No caso, ela ensina que devemos escolher cuidadosamente nossos amigos, porque há certos companheiros que somente querem se aproveitar de nossa amizade e ingenuidade, usando-nos como instrumentos de acobertamento de suas más intenções.

Os amigos logicamente já perceberam que atualizando e cotejando o conjunto dos elementos textuais desta história com aquilo que ocorre no núcleo duro do "pudê" da nação, hoje, não estamos tratando de uma mera... coincidência. Assim, as castanhas deliciosas são o "Bresil"(sic). Agora, o símio e a gata, os leitores que identifiquem. O que causa admiração, e até mesmo espanto, é a leniência da gata que sequer esboça arranhar o Lulu com suas patas traseiras, que estavam soltas. É muita subserviência, não acham?  Porém, cada um se presta a determinado tipo de serviçalismo. Durma-se com um barulho desses...

João Guilherme Ortolan

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