Por estarmos tão imersos em nossas vidas cotidianas, achamos difícil nos distanciarmos um pouco e olharmos de forma lúcida o ambiente caótico que nos cerca. Vivenciamos progressos tecnológicos surpreendentes. Dificilmente passa um dia sem que escutemos falar sobre um novo progresso na medicina, ou nas comunicações, ou na indústria. O mundo está cada vez mais unido, mas, no plano pessoal, existe desunião inédita. Nossos sistemas de valores se encontram despedaçados. Há um triste paradoxo: quanto mais acumulamos maestria tecnológica e conforto material, mais rapidamente nossos valores entram em declínio.
Recém-nascidos abandonados, crianças fazendo "arrastões" e a violência gratuita entre jovens e contra seus professores revelam o colapso da estrutura familiar saudável. Este não é um problema novo ? se prolonga por duas ou três gerações ? mas, agora sentimos sua força brutal e a sociedade parece resignada e nem ousa ter a esperança de que as coisas possam melhorar.
Um recém nascido não tem moral, nem pode ter. Tampouco o bebê e, por um bom tempo, a criança. Em compensação e bem cedo, numa estrutura familiar saudável, a criança precisaria descobrir as proibições: "não faça isso", "é sujo", "é ruim", "é maldade", "é perigoso". Assim, a criança logo saberá diferenciar entre o que é mau e o que faz mal.
Para a criança o fato precede o direito: há o que é permitido e o que é proibido; o que se faz e o que não se faz. Não dizer palavrões, não interromper os adultos, não mentir, não roubar. Todas essas proibições se apresentam identicamente para a criança: "é feio". A distinção entre o que é ético e o que é estético só virá mais tarde e progressivamente.
Quando ensinamos a criança a dizer "por favor" ou "desculpe", estamos, na verdade, ensinando-lhe respeito; quando ela diz "obrigado", aprende que é preciso ter reconhecimento. Repreender os filhos mil vezes para que digam "por favor", "desculpe" e "obrigado" é muitas vezes desagradável, mas necessário. O amor só não basta para educar os filhos, nem mesmo torná-los amáveis e amantes. O filosofo francês do "Pequeno Tratado das Grandes Virtudes (2010)", André Comte-Sponville, diz que "as boas maneiras precedem as boas ações e levam a estas. É preciso disciplina normativa mais do que coercitiva, disciplina não de polícia, mas de polidez". Continua, citando o moralista francês Jean de La Bruyère (1645 ? 1696): "a polidez nem sempre inspira a bondade, a equidade, a complacência, a gratidão; pelo menos dá uma aparência disso e faz o homem parecer por fora como deveria ser por dentro. Por isso a polidez é insuficiente no adulto embora necessária na criança".
Acrescenta ainda que a polidez cria as condições necessárias para que a moral surja e prepara o terreno para seu pleno desenvolvimento. "A moral é a polidez da alma, uma etiqueta da vida interior, um código de nossos deveres. Inversamente, a polidez é a moral do corpo, uma ética de comportamento, um código da vida social". A falta de valores que distingue o homem de um animal resulta do desequilíbrio patrocinado por um Estado supostamente laico que permitiu o crescimento populacional sem a correspondente infraestrutura em educação, saúde, segurança e justiça rápida. Hoje, todos nós inseridos numa estrutura familiar saudável, vivemos uma realidade que transtorna nosso sistema de referências, criando desconforto e inquietação.
Vivemos, também, num mundo em que existe um grande abismo entre o que as pessoas falam e o que as pessoas fazem. Vemos constantemente que o comportamento das pessoas não reflete suas crenças ou pelo menos aquilo que elas afirmam acreditar. Com frequência, muitos pais estimulam seus filhos a seguir um determinado conjunto de regras mesmo que eles próprios não o façam. A falta do exemplo é inaceitável. Do bem não só se fala; o bem não é para se contemplar, é para se fazer.
O autor, Paulo Cesar Razuk, é é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru