Avaí - Nem mesmo com uma logística de transporte "criativa" traficantes de entorpecentes conseguiram passar despercebidos pela Polícia Federal, na madrugada de ontem, em Avaí (39 quilômetros de Bauru). Com o objetivo de burlar a fiscalização, eles tentaram atravessar a rodovia Marechal Rondon com 258 quilos de maconha escondidos em veículos carregados por um caminhão do tipo "cegonha".
A estratégia, entretanto, não deu certo. Durante fiscalização de combate ao narcotráfico, a Polícia Federal de Bauru, com apoio do Tático Ostensivo Rodoviário (TOR) do 2º Pelotão da 1ª Companhia do 2º Batalhão de Polícia Rodoviária, apreendeu a droga no quilômetro 367 mais 800 metros da Rondon. Dois homens foram presos em flagrante.
Segundo o registro policial, a maconha - avaliada em R$ 500 mil - era transportada por um caminhão cegonheiro Scania, com placas de São Paulo. Os policiais fizeram o bloqueio e localizaram a substância em fundos e laterais falsos de dois veículos que estavam no caminhão. Em uma caminhonete Ford, modelo F 1000, com placas de Campinas, foram localizados 164,375 quilos de maconha e, em um Corsa de Americana, estavam 93,865 quilos do mesmo entorpecente.
Foram presos V.C.S., 34 anos, morador de Cáceres (MT), que estava junto com o motorista na cabine do caminhão, e S.G.S., 36 anos, residente em Regente Feijó (SP), que fazia a viagem dentro da caminhonete (apenas as iniciais dos nomes foram divulgadas). O motorista do cegonheiro foi liberado.
Ao todo, foram apreendidos 258,240 quilos de maconha, que foram encaminhados para a Delegacia da Polícia Federal, em Bauru. Os acusados foram presos em flagrante por tráfico de entorpecentes e encaminhados à Cadeia Pública de Promissão. Posteriormente, deverão ser transferidos para o Centro de Detenção Provisória (CDP) de Bauru, onde aguardarão julgamento.
A polícia não informou o itinerário que o caminhão realizava, mas o veículo seguia no sentido Interior-Capital. De fato, os principais destinos de entorpecentes que passam pela região de Bauru costumam ser grandes centros como São Paulo, Campinas e Sorocaba, além da baixada santista, onde se concentra a maior quantidade de usuários. Os carregamentos, em geral, partem da Bolívia e entram no Brasil pelo Mato Grosso, passando por toda a extensão da rodovia Marechal Rondon e seguindo em direção às rodovias Castelo Branco, Raposo Tavares e Anhanguera.
Tática sofisticada
No entanto, os traficantes também utilizam outras rotas, incluindo estradas secundárias de difícil acesso e pouco trânsito denominadas "cabriteiras", conforme revelou o tenente-coronel Nelson Garcia Filho, comandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4.º BPM/I), em entrevista recente ao JC. "Outra entrada é por Florínea, para a droga que vem do Paraná. Do que vai para São Paulo, parte segue para o Exterior. Há ainda uma parte de maconha que vem de Goiás, onde existem muitas plantações", detalha Garcia.
A estratégia de usar o caminhão "cegonha" como forma de camuflar o tráfico faz parte da ação cada vez mais sofisticada destes grupos criminosos, conforme revelou uma fonte ligada à polícia que preferiu não se identificar. Para tentar escapar da fiscalização, estes "empresários do crime" chegam a utilizar batedores, que trafegam alguns quilômetros à frente do veículo que transporta a droga.
Eles são utilizados para informar o comboio ao longo de toda a viagem sobre eventuais blitzes. "Em muitos casos, estes batedores seguem em carros e param na base (da Polícia Rodoviária) para pedir alguma informação. Nesse tempo, ele mantém o policial ocupado e tira a atenção dos caminhões que estão vindo atrás", revela.
Outra tática é denunciar parte do próprio carregamento à polícia, como forma de despistar a fiscalização e garantir a passagem, na sequência, de outros caminhões que transportam a maior parte da droga. "É o chamado boi de piranha. Eles denunciam um caminhão que está na rodovia. O policial vai lá e encontra o entorpecente. Até registrar toda a apreensão, outros caminhões que vêm logo atrás passam impunemente. Essa é uma prática comum", comenta a fonte.
Mais de 4 toneladas no ano
De janeiro até ontem, incluindo a apreensão da maconha que estava escondida no caminhão "cegonha", já foram interceptadas aproximadamente 4,4 toneladas de entorpecentes na região de Bauru, conforme levantamento extraoficial realizado pelo JC. Disparado, o volume mais significativo deste montante é de maconha. Ao todo, foram apreendidas 4,143 toneladas da droga, 186,6 quilos de crack e 109,2 de cocaína que, juntos, têm valor estimado de R$ 15 milhões.
Com base na expectativa "otimista" de que, para cada um quilo de droga apreendido, outros nove chegam até seu destino final - os usuários, é possível que o tráfico tenha movimentado, na região, 44 toneladas de entorpecentes e R$ 150 milhões somente em 2011. Há quem acredite, entretanto, que os números possam ser ainda maiores.