Mais de 50 anos após a chamada "revolução sexual", as relações afetivas e o sexo ainda motivam discussões numa sociedade vista pelos estudiosos como conservadora. Hoje, data em que se comemora o "dia do sexo" devido à iniciativa publicitária de um fabricante de preservativos, estudos apontam que a necessidade de satisfazer a libido cria um perfil próprio em uma sociedade entregue à informação rápida e fácil, mas que ainda esbarra em alguns tabus.
A "nova onda" para "apimentar" o relacionamento é explorar os fetiches próprios e do parceiro. Nesse sentido, cada dia mais o mercado de produtos e serviços ligados ao sexo ganha força.
Coordenador do Núcleo de Estudos de Sexualidade (Nusex) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara, o professor Paulo Rennes Marcal Ribeiro conta que ao longo das décadas, as relações afetivas e o sexo, e a maneira de serem analisados, passaram por várias transformações.
"A partir da criação da pílula anticoncepcional (em 1960) iniciou-se uma revolução na reprodução feminina, o que gerou muitos debates sobre moralidade e sobre a própria relação de saúde", diz.
O professor explica que a História desenha o perfil da sociedade e de como ela trata o assunto ao longo dos tempos. "Depois de anos na luta por liberdade, os jovens das décadas de 60 a 80 garantiram conquistas e tiveram espaço para viver essa liberdade. Por isso, nesses períodos tivemos alguns movimentos que contribuíram para a popularização da sexualidade. Dentre esses movimentos se destaca, por exemplo, o dos hippies, que além do cuidado com a natureza, pregava a prática de nudismo e a emancipação sexual".
Receio
De acordo com o professor, apenas a descoberta do vírus HIV e a rotulação da aids como doença sexualmente transmissível que leva à morte brecaram o crescente apetite sexual da juventude rebelde. "Nos anos 90 tivemos uma exploração muito grande, até mesmo na mídia, com relação à aids. Isso fez com que se criasse um medo na sociedade e acabou freando a revolução sexual", observa o professor.
As fortes investidas em campanhas e em novos artifícios para prevenção de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs), como os preservativos, fizeram com que a sociedade superasse o medo de contaminação e criasse consciência em relação ao "sexo seguro".
"O que existe hoje é uma ambivalência dos fatos. Ao mesmo tempo em que há mais opções, também existe maior facilidade na busca por informações", explica Ribeiro.
A segurança e o conhecimento acabaram criando uma nova ordem de revolução: a busca por satisfação da libido com segurança. Mesmo assim, alguns tabus ainda não foram totalmente excluídos da vida social.
"Até hoje debatemos a questão homoafetiva e a cada dia surgem novas questões a serem debatidas. Por isso ainda afirmo que temos uma sociedade muito conservadora, principalmente nas regiões mais do Interior dos Estados ou do norte e nordeste do País. No sul e sudeste, onde há mais contato com o mundo globalizado, as coisas são mais liberais".
Procura por acessórios aumenta a cada ano
Cada vez mais se torna evidente a incorporação do fetichismo na sociedade, o que pode ser comprovado com a crescente oferta de produtos relacionados ao sexo.
Há 14 anos o empresário Antonio Vitti, 66 anos, gerencia uma loja dedicada a produtos eróticos, e garante que o mercado segue em franco crescimento: "A cada ano temos um aumento de 10% nas vendas".
Um dos mais antigos sexy shops de Bauru, o estabelecimento que fica na avenida Nações Unidas recebe diariamente homens e mulheres à procura de alternativas para "apimentar" a relação.
"Estamos passando pela época do descartável. Se você tem um carro velho, você não manda mais arrumar, você vende e compra um novo. E isso também é visto nesse ramo. As pessoas querem aproveitar ao máximo a vida, e não ficam com receio de nada", conta.
Precursoras da revolução sexual nos anos 60 com as pílulas anticoncepcionais, as mulheres cada vez mais recebem o apoio dos parceiros na hora de ir às compras. Segundo o proprietário da loja, o perfil dos clientes do sexy shop hoje são casais entre 30 e 50 anos. "Na maioria dos casos, entram na loja casais que querem algo a mais na relação".
Entre os produtos mais vendidos estão cosméticos (óleos, essências, lubrificantes etc) e vibradores, sendo que os preços vão de R$ 5,00 até R$ 1.500,00.
E foi em busca de um artigo para enriquecer a relação que A.C., de 55 anos, procurou o sexy shop. "Sou casado há 27 anos, mas não estou fazendo nenhuma surpresa, estou cumprindo uma promessa para minha esposa", destacou.
O mercado erótico acabou transformando Antonio Vitti em mais do que um empreendedor, mas também em uma espécie de consultor amoroso. "A gente acaba dando alguns conselhos. Mas eu digo sempre que sexo é negócio sério, é saúde, e todo mundo faz. A diferença é que o rico faz no iate e o pobre debaixo da ponte", brinca.