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O que pensa Qathafi

Adriana Nigro Cardia
| Tempo de leitura: 3 min

No auge dos anos ditatoriais, Muammar Al Qathafi divulga suas ideias num pequeno livro intitulado O Livro Verde, publicação esta que contêm os fundamentos da filosofia deste governante na tentativa de instalar uma revolução cultural de resistência naquele país tão invadido por potências ocidentais como insultado em seus hábitos e culturas locais. Foi, e até hoje é uma guerra contra a imposição ocidental a costumes e idéias, a implantação de bases militares estrangeiras, além do interesse econômico já declarado anteriormente por Itália, França, Reino Unido, Estados Unidos e Alemanha, até a Segunda Guerra Mundial. Hoje, seus inimigos declarados voltam ao cenário: Itália, França, Reino Unido e EUA com o apoio declarado da Otan. No entanto, parte da população local parece apresentar descontentamento quanto ao longo regime socialista implantado por Muammar Al Qathafi que fora instalado como uma reação contra as ofensivas ocidentais. Gera-se, assim, grande debate em torno da soberania das culturas e dos povos e das imposições imperialistas de potências ocidentais a povos que ainda preservam-se muito arraigados a seus costumes e modos de vida.

Vale lembrar que a Líbia apresenta hoje um IDH - Índice de Desenvolvimento Humano - mais alto daquela região. Portanto, infere-se que nem tão nefasto fora os quarenta anos de governo de Qathafi. Pode-se entender, assim, que a população possa estar mais aberta ao mundo ocidental, numa ânsia em ser governada de forma distinta a que vem sendo submetida, não mais aceitando pacificamente a liderança potencializada na figura de um líder e parte dela interessada na mudança de costumes e modos de vida. Como declarou o ex-ministro das Relações Exteriores naquele país, Felipe Lampréia, é ingênuo pensar que a população local sozinha não poderia idealizar e liderar esta guerra e que os países ocidentais, efetivamente, estariam por trás deste conflito através do fornecimento de armas e estratégias militares.

Tivemos a oportunidade de recebermos um exemplar doado pelo então embaixador da Líbia no Brasil, eu e uma colega de classe, em 1986, quando na ocasião realizávamos nosso trabalho de final de curso - TCC - nosso primeiro voo jornalístico. Dessa forma, fora concedida uma entrevista a estas duas iniciantes quando pudemos conhecer uma realidade totalmente distante da nossa, obtendo, assim, de fontes primárias, informações relevantes para nosso trabalho.

Hoje, como o regime deste presidente parece chegar ao fim, gostaria de compartilhar com nossos leitores um pouco do pensamento deste governante como material de fonte primária.

Cito, a seguir, um trecho da parte I do livro, pois o espaço é pequeno, que é composto de três partes: A Solução do Problema da Democracia e A Autoridade do Povo; A Solução do Problema Econômico (Socialismo) e A Base Social da Terceira Teoria Universal. "Os Congressos Populares e os Comités Populares - Os congressos populares são o único meio de democracia popular. Todos os outros sistemas são uma forma não democrática de Governo. O "Livro Verde" apresenta a solução definitiva do problema da ?máquina de governar? e indica aos povos o meio de passar da era da ditadura para a da verdadeira democracia. Esta nova teoria baseia-se no poder do povo, sem substituto nem representação (...) e realiza a democracia direta de uma maneira organizada e eficaz".

Talvez, não seria por essa razão que a Líbia hoje sofre por falta de lideranças efetivas em comandar essa transição? Como se rearranjará aquele país? Como será divido o poder local e internacional? E isso que se questiona agora.


A autora, Adriana Nigro Cardia, é mestra em comunicação social pela ECA-USP e professora nos cursos de jornalismo - e-mail: Adriananigro2002@yahoo.com.br

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