Éder Azevedo |
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Lebre ‘ataca’ aeroporto e sagui, casas
A superpopulação de lebres e saguis já exige ações do Poder Público em Bauru. As lebres europeias estão destruindo plantações do cinturão verde, laranjais e cafezais, sobretudo nas regiões rurais da Barra Grande, sítio Santa Maria e Distrito Tibiriçá, e os saguis formam bandos numerosos ao redor de áreas com mata como o Núcleo Geisel, Aimorés, Parque Santa Terezinha, Jardim Colonial, Jardim do Contorno e Vale do Igapó, bastante habitadas com residenciais.
A invasão urbana tem ingredientes de migração, facilidade de reprodução mas, como toda intervenção indevida do homem na natureza, também conta com ações que estão facilitando a presença desses animais nas áreas edificadas. Os saguis, por serem considerados bichinhos bonitinhos, engraçadinhos, estão se multiplicando nos arredores facilitados pela alimentação fornecida por moradores em seus quintais.
No Jardim Botânico, a superpopulação atinge níveis tão preocupantes que já está presente o canibalismo do bando em torno de um animal morto. A maior ocorrência é por atropelamento nas estradas de terra.
Os bichinhos estão se procriando em uma mistura dos que têm tufo branco com o preto, ambos inexistentes na região de Bauru, segundo o zootecnista e diretor do Zoológico, Luiz Pires. “As pessoas acham bonitinho e alimentam e não pode. Estamos tendo problema sério de superpopulação e isso gera problemas”, adverte.
A derrubada da vegetação e a queimada do cerrado são alguns dos ingredientes que “aproximaram” os animais da área urbanizada. “Se não tem mais vegetação, não tem alimento e esses bichos invadem as cidades. O caramujo veio de fora, é africano, e como ele não tem ainda predador natural na nossa cadeia alimentar, porque não é conhecido dos bichos daqui, ele se multiplica rapidamente. A sorte é que ainda não é transmissor de doença. Se o caramujo for hospedeiro ou transmissor de alguma doença o problema vai se agravar e muito, porque será questão sanitária, de saúde pública, como o cachorro contaminado e a leishmaniose”, lembra.
No caso dos saguis a superpopulação já é realidade. “Eles não têm fartura de frutas como o pequi para comer e já há sinais de canibalismo entre eles. O mais forte mata o macho para se alimentar, ou se alimentam daqueles que são atropelados e dá briga no bando. O mais fraco se separa do bando que tem o líder e, como não encontra muito coisa para comer, começa a atacar filhotes de pássaros, comer ovos de ninhada, está gerando problema com o extermínio de outros animais”, elenca Pires.
Ele faz um apelo para que as pessoas não alimentem esses animais em casa e aponta para outra consequência negativa no desequilíbrio da cadeia alimentar dos animais. “O sagui tem mais um problema, muita gente que tem árvore no quintal e acesso a essas faixas de mata e está dando comida para o bichinho porque é bonitinho. E com isso está aumentando o prejuízo para a preservação das outras espécies, porque aumenta o bando que prolifera fácil e amplia o ataque sobre os demais. Virou praga e está em todo lugar”, reafirma.
Na visão de Luiz Pires, a situação dos saguis é tão preocupante quanto a das lebres. “É como Ribeirão Preto teve de fazer com a capivara, teve de fazer ação de manejo para capturar e atuar para resolver isso. O sagui está em todo lugar e são centenas, e isso está piorando cada vez mais”, finaliza.
Daesp contrata estudos de manejo
A lebre europeia é presença tão preocupante na região do Aeroporto Moussa Tobias, na divisa de Bauru com Arealva, que o Departamento Aeroviário do Estado de São Paulo (Daesp) realiza licitação para contratar consultoria técnica especializada para implantação do manejo e controle desses animais. Mas o resultado dessa ação pode demorar. A licitação teve os envelopes com a apresentação dos interessados entregues na última sexta-feira, em São Paulo. Só depois de contratado e realizado o serviço é que o governo terá condições de indicar o que terá de ser feito.
A superpopulação já virou caso de segurança aeroviária. A presença em grande número dos bichinhos, ágeis e de hábito noturno, preocupa a operação do aeroporto. A reprodução tem sido crescente e rápida nesta área da zona rural, sobretudo em razão da presença de muitos produtores de folhas verdes que abastecem as feiras na cidade.
Mas o alvo das lebres não é só o cinturão verde nas regiões de Tibiriçá, Barra Grande e Sítio Santa Maria. Onde tem laranjal em formação e pé de café o animal também está fazendo estrago. Em Tibiriçá a “praga da lebre” é comentada em qualquer esquina.
Na Barra Grande, em qualquer propriedade que se pergunte a reclamação é a mesma. A família Sartori, por exemplo, instalou telas. Outros produtores também recorrem ás barreiras naturais para salvar pés de alface e outras folhas.
Benedito Antonio Vantin não sabe mais o que faz para garantir o crescimento de seus 12 mil pés de café. “O lebrão não deixa formar a planta. Ela rói o pé e faz um anel em volta. O pé, ainda pequeno, fica fraco e quebra, seca ou cai com o vento. Eu estou replantando, mas não consigo dar conta. Ela corta o pé bem perto do chão, ataca à noite e limpa tudo o que vê pela frente”, explica.
O secretário municipal de Agricultura (Sagra), José Zito Garcia confirma que a lebre europeia virou uma praga na zona rural de Bauru. “Não tem mais jeito de controlar, reproduz muito e rápido. Não tem cerca de tela que segure. Ela pula, ataca e dizima tudo. Está um problema enorme”, cita.
O secretário comenta que os produtores de hortaliças estão sofrendo muito com a invasão da lebre europeia em suas plantações. “A região da Barra, Sítio Santa Maria está enfestada. À noite elas atacam em bando e acabam com a plantação. Na área do aeroporto é uma região de muitos produtores e isso tem atrapalhado e muito. Tomara que o plano de manejo desses animais resolva”, disse Zito, ao saber que o governo do Estado contratou serviço específico de captura desses animais em razão das operações do aeroporto.
Zito Garcia conta que outras culturas já estão sofrendo muito com a lebre. “Ela ataca muito a cultura de laranja também e ainda quando a planta está crescendo. Ela faz um anel ao redor inteiro da planta e mata a planta”, acrescenta.
O diretor do Jardim Zoológico, zootecnista Luiz Antonio da Silva Pires, conta que as pragas urbanas atingem outras espécies. “Temos já problemas graves com a invasão de maritacas no ambiente urbano, a lebre europeia é grave nos sítios produtores de alimentos, o caramujo africano é outro problema introduzido de fora, veio da África para o Brasil e o sagui está infestado”, elenca.
