A contagem de corpos nos atentados em Nova York em 2001 é inferior a muitos outros derramamentos de sangue que o mundo presenciou e assiste neste exato momento. Apenas em termos frios de comparação numérica, os protestos na Líbia contra a ditadura de Muammar Gaddafi superam seis mil cadáveres. Sem contar os mortos nas estradas brasileiras ou flagelados pela fome na Somália.
Mas então, por que o 11 de setembro de 2001 ficou tão tatuado na memória das pessoas, seja em Nova York, Bauru ou na aniversariante do dia, Itapuí? A grande diferença dos atentados terroristas nos Estados Unidos, além da barbárie ter ocorrido na sala de estar de um país acostumado com guerras, porém no terreno alheio, foi o efeito surpresa - inerente a uma ação terrorista -, mas também ao fato do genocídio ser transmitido ao vivo, via satélite.
O horror do extermínio de judeus no holocausto nos foi passado através dos livros de história, filmes e documentários. Outras guerras, mais recentes, também tiveram as câmeras como testemunhas ao vivo, principalmente o primeiro conflito no Golfo Pérsico, com a CNN brindando aos telespectadores com a tempestade de mísseis luminosos na noite do deserto, em 1990. Mas o 11 de setembro juntou tanto a "notícia espetáculo" quanto o diferencial da "nova proposta" de guerra do século 21.
Sem soldados ou veículos blindados, o fronte, na ocasião, era ocupado por civis, que morreram durante o trabalho ou até mesmo na cobertura do que, de início, pouco se sabia do que se tratava.
Em dissertação de mestrado em Comunicação Midiática pela Unesp de Bauru, intitulada "A Cobertura do Terror e o Terror da Cobertura", o geógrafo Wellington dos Santos Figueiredo aborda o que classifica como Terrorismo Informacional.
Para o estudioso, as câmeras e microfones utilizados tanto como instrumento de assombro global, por parte dos terroristas, como ferramenta de difusão da espetacularização do fato, salvo raras exceções, sem ir a fundo no que antecedeu à fumaça e escombros que invadem a tela de milhões no mundo.
"Além do fato ser histórico, os atentados terroristas nos Estados Unidos revelaram falhas da mídia, com informação contaminada por ideologia", observa, citando a visão maniqueísta da imprensa, de forma geral, tanto do lado norte-americano quanto dos extremistas islâmicos. "Não houve o debate, visto a propagação do próprio discurso do Bush na época em que dizia ?quem não está conosco, está com os terroristas?".
Muitos veículos na ocasião, lembra o autor, assim que os Estados Unidos foram atacados e até o anúncio da retaliação, 26 dias depois, com as tropas invadido o Afeganistão sob pretexto de encontrar armas de destruição em massa, venderam a notícia sob o rótulo "Guerra à América".
"Não foi um ataque a todo o continente", diferencia. "Os Estados Unidos não são toda a América, mesmo porque, assim fosse, não teriam apoiado os ingleses conta a Argentina na Guerra das Malvinas, nos anos 1980", argumenta o professor.
O geógrafo, evidentemente sem desprezar o marco que é o 11 de setembro na história mundial, cita outro episódio que mostra o distanciamento entre os Estados Unidos e demais nações do continente americano em algumas questões políticas e bélicas, curiosamente com a mesma data emblemática. "O 11 de setembro, no Chile, é marcado pelo ocorrido em 1973", referindo-se ao golpe de estado que derrubou o presidente Salvador Allende e iniciou uma das mais sangrentas ditaduras do continente, comandada pelo general Augusto Pinochet.
O diferencial, além do ataque ter alvejado o centro financeiro e militar do ocidente, foi o orquestrado plano dos terroristas de chocar os aviões com diferença de alguns minutos entre uma torre e outra, propiciando tempo para as câmeras estarem no local após o primeiro prédio ser afetado. "A imagem cria mais efeito. Não seria absurdo dizer que quem inaugurou o século 21 foi o jornalismo."
O novo mundo ?envelheceu??
Definitivamente, o novo século começou, de fato, naquele 11 de setembro de 2001. A conclusão é da historiadora bauruense Sônia Mozer, que visitou as torres gêmeas um ano antes delas ruírem.
Professora da disciplina, ela frisa que o tema já é estudado no campo de atualidades entre os alunos do ensino médio, alguns deles muito pequenos quando os atentados foram cometidos. "O tema é apostilado e muitos professores ainda desenvolvem métodos próprios em quatro frentes: foi o ataque mais estrondoso que a nação mais poderosa do mundo; a autoestima dos Estados Unidos foi abalada; é a imagem mais repetida desde então, como o cogumelo de Hiroshima e o alcance de um ataque terrorista aliado ao despreparo dos governos."
Ela destaca uma nova visão sobre o conceito de guerra, amplificado pela cobertura ao vivo dos atentados. "Desapareceu a visão do soldado. Para quem estava do outro lado, na visão de quem organizou os ataques, os inocentes que ali morreram também eram os inimigos", salienta.
O apelo das imagens das torres ruindo é tão forte, que muito se fala sobre o ataque ao World Trade Center, mas o estrago causado pelos aviões que caíram sobre o Pentágono e no Estado da Pennsylvania, não é tão emblemático.
No exato momento em que a ação terrorista era deflagrada, ela se lembrou de uma das visitas que fez às torres gêmeas. "Pensei nos mendigos que dormiam no subsolo e também num imigrante paquistanês. Na cabeça veio a quase certeza: aquele homem morreu", lastima. "No final, o ser humano é que ficou mais pobre".