Caros leitores deste "cevado" caderno de "causos verídicos", o fato que vou narrar me foi contado pelo amigo Diolindo Panichi, aposentado da antiga Cesp. Diolindo morou muito tempo em Ribeirão Claro, cidade paranaense próxima ao deslumbrante rio Paranapanema que faz a fronteira entre São Paulo e Paraná. Pois bem, tudo aconteceu com dois conterrâneos e amigos dele que, a seu pedido, para evitar constrangimentos, vamos chamá-los de João e Pedro. Os dois solertes pescadores acabaram de almoçar no rancho à beira do "Panema" e desceram o rio num confortável barco, à procura das grandes piaparas. Barco amarrado pelo João no galho de uma frondosa árvore, deixou nossos amigos à vontade para a captura das belas piaparas. Foram 17 das boas, fora as que escaparam! Pedro fisgou nove e João, oito. À tardinha, vendo a beleza do sol poente, estavam na margem do rio a limpar os peixes quando perceberam que o barco se soltara e rodava rio abaixo, levado pela correnteza. "Que belo nó você deu na corda, ?seo? João! E agora?!?," perguntou Pedro. "Calma, Pedro, estamos perto do rancho, vamos levar os peixes nos sacos de estopa e amanhã a gente pega o barco!", disse João. A noite já se aproximava e o local logo seria um breu total, pois a mata que margeava o rio até o rancho era fechada e intensa, como podem ver na foto do local. Sacos nas costas cheios de peixes, seguiam pela trilha já quase escura - o sol já havia se retirado - somente os dois pescadores, João e Pedro! O silêncio era quebrado pelo pisar deles nas folhas secas do caminho. Juntos, lanterna na mão, ofegantes pelo peso dos peixes, perceberam que eram seguidos de longe por alguém pesado e grande. O foco de luz mostrou a cara da bitela! "Olha os ?zóio vermeio?, Pedro, é uma onça!!!"
Pescador que se preza não perde os peixes, mas correr com tamanho peso nas costa era impossível. "João, joga uma piapara pra ela, quem sabe ela prefere um peixe e não come o pescador!", sugeriu Pedro. "Joga das suas, Pedro, você pegou uma a mais do que eu!", retrucou João. "Isso é hora de brigar por peixe, João, a onça vai comer nóis, caramba!" E as piaparas foram jogadas uma a uma a cada trecho do caminho, para tristeza dos pescadores que perdiam seu precioso pescado e para alegria do enorme felino que mal respirava com tanto peixe na boca! A lanterna mostrou a entrada do rancho. Que alívio! Não se sabe como, mas João e Pedro entraram ao mesmo tempo pela porta estreita: - Vuuupt! E a onça? Bem, a onça se engasgou com as espinhas dos peixes e parou pelo caminho. Só sobrou uma piapara no saco do João. Passado o susto, eles estão brigando até hoje pra saber quem teria pego aquela que sobrou. Caro Diolindo, seus amigos tiveram muita sorte, pois vai que a onça não gostasse de peixe , não é mesmo? Um abraço a todos os grandes pescadores e amigos da Cesp dos bons tempos passados em nossa grata convivência.
Fernando Lucilha Júnior é aposentado do Banespa, pescador e contador de "estórias".