A redução da taxa básica de juros de 12,5% para 12% decidida pelo Conselho de Política Monetária do Banco Central, em sua última reunião em 31 de agosto, foi naturalmente muito bem vinda nos setores da produção e, como também era previsível, inspirou críticas azedas no sistema financeiro. Trabalhadores e empresários aplaudiram, ainda que moderadamente, o corte de 50 pontos na taxa Selic, enquanto influentes "analistas" dos mer-cados financeiros não esconderam a frustração, acusando o governo de ter "impedido o Banco Central de decidir com autonomia" a mudança nos juros. Houve críticas irresponsáveis, como a que a presidente Dilma "deu instruções" ao Banco Central para forçar o Copom a baixar a taxa de juros. Ora, o que ela fez, dias antes da reunião, foi simplesmente comentar que os juros no Brasil são demasiadamente altos e que seria muito bom se pudessem baixar. É um desejo mais do que natural, quando se sabe que este ano a conta dos juros da Dívida Pública é de 190 bilhões de reais. Se pudermos reduzir à metade a taxa real dos juros que vão para as mãos dos rentistas, teremos condições de modificar substancialmente a própria estrutura produtiva do país.
O segundo veneno instilado pelos "mercadistas" é que o governo pretende abandonar o sistema de metas, novamente "impedindo que o Banco Central aja com independência no controle da inflação". É informação deliberadamente falsa porque sabem que quem estabelece as metas de inflação é o governo, instruído por decisão do Conselho Monetário Nacional após discutir os rumos da política econômica e examinar as alternativas que se oferecem ao Brasil e ao mundo a médio e longo prazos. Ao Banco Central cabe operar com autonomia os instrumentos de política para defender a estabilidade da moeda e manter a inflação dentro dos limites da meta traçada pelo governo, sem perder de vista os objetivos do crescimento econômico e de equilíbrio social. A decisão de acelerar a queda dos juros talvez seja o primeiro resultado, em muitos anos, de um Banco Central realmente independente. Qual foi essa grande mudança? O Banco Central sempre se comportava, numa larga medida, como uma instituição que ouvia mais o setor privado que o setor público. Durante praticamente duas décadas ele fez o que o sistema financeiro privado dizia que devia ser feito. O Banco Central voltou a ser uma instituição do Estado brasileiro, capaz de examinar a situação interna e olhar a ação dos mercados internacionais para tomar as decisões autônomas que lhe compete. Ele olhou o mundo e viu que a economia de inúmeros países, que tradicionalmente mostravam sólida situação financeira, está sendo feita em pedaços, especialmente na Eurolândia. O governo sabe que as medidas de caráter monetário levam tempo para produzir os efeitos que se deseja. Com esta mudança, a autoridade monetária está se antecipando aos problemas que devem acontecer em razão da dramática redução do crescimento econômico em várias regiões do planeta. O que se tem hoje, finalmente, é um Banco Central muito mais afinado com a teoria monetária e antenado com a realidade do Brasil e da economia mundial.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento