Como se não bastasse o crack e mais recentemente, o oxi, outra “modalidade” também apontada como devastadora passou a ser usada como alucinógeno e tem preocupado a polícia de Bauru. Trata-se do consumo de substâncias tóxicas de pilhas, que tem tornado-se “opção” para usuários que não têm recursos para fazer uso do crack.
Conhecida como “Bomba Atômica”, a droga é consumida por quem já têm histórico no consumo de entorpecentes, informa a Polícia Militar. Geralmente, explica o comandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM/I), tenente-coronel Nelson Garcia Filho, os usuários procuram no lixo por pilhas usadas e aproveitam suas substâncias. “O usuário que recorre a pilhas está em situação de desespero. Ele já usou todos os recursos que tinha para consumir crack e, para manter o vício, procura se alimentar de outro tipo de substância”, aponta.
Segundo Garcia Filho, em Bauru, policiais que atuam no patrulhamento diário já constataram que algumas pessoas, em situação de desespero, recorrem às pilhas. “Eu desconhecia esse tipo de consumo. Essas informações chegam aos policiais que fazem patrulhamento, que começaram a perceber pessoas em meio ao lixo procurando por pilhas para fazer uso alucinógeno”, diz. “Pelo menos há três meses, em Bauru, acho que essa ‘modalidade’ já está sendo disseminada entre essas pessoas que não têm mais condições financeiras de usar o crack”, alega.
Fervida
Conforme informa o cabo Jorge Santos, da 1.ª Companhia de Polícia Militar (PM) de Bauru, a pilha é “cozinhada” em água fervente. Depois disso, os usuários tomam o líquido contaminado com as substâncias tóxicas. “O chumbo é um dos elementos ingeridos que entra na corrente sanguínea e prejudica vários órgãos de uma só vez. O efeito alucinógeno pode durar de 30 a 40 minutos, mas a consequência à saúde é algo devastador”, explica o cabo, que se tornou “especialista” no consumo de drogas por ministrar palestras há mais de 20 anos sobre entorpecentes em instituições diversas.
Em Bauru, segundo Garcia Filho, os usuários estão concentrados mais na área central, onde são avistados “fuçando” no lixo e procurando por pilhas.
Apesar da modalidade estar sendo considerada como novidade no Interior, Santos explica que este tipo de consumo já é antigo e mais corriqueiro em outras localidades. “É mais comum nas capitais, como em regiões da cracolândia em São Paulo. A ‘Bomba Atômica’ chega no Interior através de migrantes que passam por aqui e comentam com outros usuários”, assinala.
O efeito avassalador no organismo ataca vários tipos de órgãos e pode facilmente levar à morte, segundo Santos. “Sabemos que o oxi e o crack têm efeitos diretos no cérebro. Ao ingerir substâncias tóxicas como o chumbo, todos os órgãos são afetados de uma só vez”, indica.
Descarte adequado
O consumo da “Bomba Atômica” apenas reitera a necessidade do descarte em locais adequados de pilhas e baterias. “As pessoas precisam ser melhor orientadas a descartar corretamente pilhas e baterias. Precisam ser disponibilizados mais pontos de coleta em locais acessíveis que fazem parte do dia a dia das pessoas, como padarias, por exemplo. Seria até viável, acredito eu, estimular mais ainda o descarte correto desses materiais através de campanhas, que dessem algo em troca para quem descartasse corretamente esses produtos”, argumenta Garcia Filho, comandante da PM. “O poder público tem que frear logo esse consumo, pois esse tipo de droga pode se alastrar”, alerta.
Além do chumbo, podem ser encontrados em pilhas e baterias metais considerados perigosos à saúde humana e ao meio ambiente, como mercúrio, cobre, zinco, cádmio, manganês, níquel e lítio.