O alerta da polícia e de tatuadores sobre os cuidados antes de fazer uma tatuagem, principalmente depois que criminosos adotaram símbolos antes sem conotação escusa, vem a calhar com a dificuldade em removê-las em caso de arrependimento.
"As tatuagens são um problema de difícil solução quando a vontade do paciente é retirá-las sem cicatriz no local", observa o cirurgião plástico Antônio Assunção.
Segundo ele, a cicatriz resultante de um tratamento depende do tamanho, forma e localização dos desenhos, que podem ser removidos com auxílio de tecnologia laser.
Mesmo assim, adverte o médico, a "limpeza" não é plena. "Grandes superfícies corpóreas podem ter a intensidade das cores atenuada pelo raio laser, mas nunca desaparecerão por completo, como se nada tivesse acontecido", avisa.
Entre os que se arrependem, literalmente, de corpo e alma, o fato de ter cravado os códigos e faces do crime na própria pele, está um guardador de carros de Bauru, que pede para não ser identificado.
Ex-presidiário e atualmente fazendo bicos numa rua central da cidade, ele conta ao JC que as únicas lembranças que mantém ? porque é obrigado ? da vida no crime estão marcadas nos braços e costas, a principal delas com a cara da morte.
Estampada no braço com máquina, agulha e tintas improvisados na época em que cumpriu sentença por roubo no Instituto Penal Agrícola (IPA), quando o presídio ainda operava no regime fechado. "Se eu pudesse voltar no tempo, não faria isso. Mas eu não quis nenhum significado no meu corpo", alega. "Fiz as tatuagens mais no embalo dos outros mesmo. Vi reportagens sobre como tirar. Mas sei que é difícil, caro, e além de tudo não é garantido", resigna-se. "Mas estou feliz de ter deixado isso tudo para trás", considera o flanelinha, de 43 anos, envolvido em crime no ano de 1993, mas com cicatrizes eternas e coloridas.
Proibido
Basta uma agulha e qualquer tipo de tinta ? até mesmo seiva de caju é improvisada na falta de pigmento, observa o oficial da PM ? e uma mão não obrigatoriamente habilidosa, para colorir partes do corpo de um criminoso muitas vezes forçado a tatuar símbolos de uma facção específica.
No entanto, apesar de todos saberem da existência de "artistas" dentro dos presídios, tatuar no interior das celas não é permitido, seja pela confecção de símbolos criminosos e por uma questão de saúde pública, pois o risco de transmissão de doenças através da agulha é grande.
Um agente penitenciário de Bauru, cuja identidade será preservada, confirma o recolhimento, durante varreduras, de apetrechos para tatuagens dentro do xadrezes. Segundo ele, apetrechos para tatuagem têm o mesmo caráter proibitivo de outros itens, como armas ou drogas.