No Brasil, institucionalizou-se que o espaço público é um espaço de ninguém, portanto, um espaço propício para o exercício do interesse privado. O ex-ministro do Turismo Pedro Novais há sete anos pagava uma empregada doméstica com o dinheiro público. A sua mulher foi flagrada por um fotógrafo indo às compras num carro conduzido por funcionário público. Teve que ser demitido face ao clamor que se seguiu às denúncias. O governo Dilma Rousseff, em nome da "governabilidade", pediu que José Sarney, espécie de soba do Maranhão, indicasse outro companheiro do PMDB para substituir o ministro defenestrado. Trocou um roto moral por um esfarrapado ético, o deputado Gastão Vieira. Este, várias vezes secretário do governo Roseana Sarney, mesmo licenciado da Câmara, continuava ocupando apartamento funcional em Brasília. Os fatos indicam que, além de um espaço público promíscuo, neste País a própria política, como arena pública, se torna um espaço para o exercício do interesse privado. As escolhas políticas "não desmerecem nenhum governo" - pontuou a presidente Dilma. Além do mais, a punição no Brasil é limítrofe, porque admite retorno, como ocorreu com Collor. A deputada filmada recebendo dinheiro sujo continua na Câmara, porque recebeu antes do exercício do mandato.
Como a esfera pública é desvalorizada, o ato de corromper se torna muito mais fácil. Antonio Palocci, indicado por Lula para ser o homem forte do Planalto, teve que sair por tráfico de influência que lhe rendeu milhões de reais. Hoje se beneficia do anonimato em seu apartamento de luxo. Também teve que sair Alfredo Nascimento (PR-AM), dono da pasta dos Transportes, doada a ele e ao partido pelo esquema fisiológico de montagem de governo adotado pelo lulopetismo. Mas não perdeu o status. O mesmo aconteceu com Wagner Rossi, apeado da Agricultura, perdeu o lugar, mas continua milionário à custa do dinheiro que altas posições no governo renderam a ele e ao filho Baleia Rossi.
No Brasil, em geral, há a reafirmação de um fatalismo: "a política é assim", "esses caras não têm jeito", "quem pode faz mesmo". E eles vão ficando. Seria um pouco pesado dizer, mas existe a disseminação de um certo comportamento corrupto da sociedade brasileira. É a polícia que corre atrás do ladrão não para prendê-lo e sim, para ficar com as jóias. Há o sonegador de impostos, o que compra carteira de motorista, aquele que pede favor pessoal ao vereador. A relação com a coisa pública não é só dos políticos, ela é nossa. Está tanto nos microespaços do cotidiano como nos macroespaços institucionais brasileiros. Criaram-se metáforas como "todo povo tem o governo que merece". Todos se sentem vítimas da corrupção, e não parte do processo. Quem sabe, um dia, a indignação vire ação. Tenhamos de volta a manifestação dos caras-pintadas de 1992, uma mobilização de estudantes secundaristas que derrubou Collor. Já se ouvem rumores de desdobramentos dos ensaios ocorridos no 7 de setembro em algumas cidades. A novidade é o uso das redes sociais como instrumentos de mobilização popular, a exemplo do que aconteceu em vários países, a começar pelos que se revoltaram contra as ditaduras na chamada Primavera Árabe. Em 2007 tivemos o Cansei! Chegou a reunir líderes empresariais e políticos. Durou pouco, porque a disposição para a luta já exaltava a desistência. Declarando-se cansados, desde o início, os empresários preferiram esperar sentados.
Dizem que no Brasil não falta motivo, o que falta é motivação. Nosso país goza de uma imagem positiva no Exterior, impulsionada, principalmente, pelo crescimento econômico. Mas, cada escândalo representa um retrocesso. Isso impede a consolidação de um Brasil adulto. Porque fica a imagem do Brasil que precisa consolidar a sua democracia, lidar com a desigualdade social e enfrentar a violência. Só nos falta ganhar a Copa da Corrupção e recordes na Olimpíada dos Malfeitos. O papel da sociedade faz lembrar a fábula do menino estudante, vestido com avental branco, que resolve jogar pedaços de carvão nos colegas. Cansado de atacar, depois de limpar as mãos no próprio avental, o garoto observa, estarrecido, que está todo sujo.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC