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Justin Bieber

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 4 min

Qual será a importância de Justin Bieber para a história da música pop daqui a 30 anos? É uma pergunta impossível de ser respondida hoje, mas podemos traçar algumas previsões.

Provavelmente, Justin Bieber será esquecido pelos fãs, pela mídia, pela história da música pop, pelas gravadoras, pelas adolescentes... talvez até pela sua própria família. Assim como aconteceu com o Menudo, é bem plausível que as pessoas que vão ao show do Justin Bieber em São Paulo terão vergonha de dizer que compraram seus discos, dançaram suas músicas, pagaram (caro) para vê-lo no palco.

Outro dia eu vi a Maiah, amiga da minha filha Sofia, chorando porque queria ir ao show dele. Fiquei com dó. Imaginei o quanto ir ao show do Justin Bieber poderia significar para uma criança de 7 anos. Talvez tudo. Talvez nada.

O que poderia acontecer com ela por não ir ao show do Justin Bieber, se ele for um grande compositor no futuro? Já imaginaram se Justin Bieber se tornar um músico mais mitológico do que os Beatles ou os Rolling Stones? E se ele se libertar daquela alienação toda imposta pelos seus empresários e começar a compor obras únicas e belíssimas em um futuro próximo? 

Imagine ter oportunidade de ir a um show dos Beatles bem no início da carreira, lá no Cavern Club, e não ir!? Se o Justin Bieber sofrer um surto de criatividade libertária e elaborar um novo "Sargent Pepper?s", um "Araçá Azul", um "Cabeça Dinossauro", um "Unforgettable Fire"... não seria um trauma para a criança? Pensei nisso quando a mãe da Maiah me perguntou: "-O que eu faço?" Achei que era melhor deixá-la ir ao show. Vai que o Justin Bieber vira um Elton John!?

Mas não é tão simples assim. A menina tem 7 anos. A mãe tem que ir junto. São dois ingressos, mais a viagem até São Paulo, o tumulto, a histeria na fila... é complicado. Para mim seria insuportável. Sorte que a Sofia não pediu pra ir. Se pedisse eu não levaria, mas ficaria com a consciência pesada. Já pensaram se Justin Bieber se tornar um artista mais genial do que o Chico Buarque? E se ele criar um novo estilo musical, tão acachapante quanto o rock?n roll? Eu não me perdoaria.

Imaginei que seria difícil mensurar a importância que o show do Justin Bieber teria na vida dela. Afinal, ela tem 7 anos. Se tivesse 12, a importância seria incomensurável. Mas com 7, talvez ela quisesse ir só porque todo mundo vai. É incrível esse negócio do sucesso repentino. Não se passaram nem 5 minutos da luta pelo show do Justin Bieber e a Maiah voltou para a sala, olhou pra mim e disse o seguinte: "-Sabia que o cachorro do meu avô comeu vidro e não morreu?"

Percebi que a normalidade voltara. Ela nem sofreria tanto por causa do show.  Na minha época, isso tudo aconteceu com o Menudo, com o Kiss e com o B-52?s. Pelo Menudo eu consegui passar ileso, mas o Kiss e o B-52?s foram muito presentes na minha vida. Troquei o Kiss por outras bandas de heavy metal, depois pelas bandas punk e depois pelo pós-punk - este último estilo faz meu gosto até hoje. E depois ouvi de tudo: do erudito ao black metal, do Eric Satie ao Celtic Frost. E por causa dessa (digamos) bagagem, não consigo imaginar um futuro brilhante para o Justin Bieber. Acho que ele vai acabar como o menino do "Esqueceram de mim": esquecido. 

Se isso acontecer, tomara que ele pegue toda a grana que ganhar, fuja de casa e gaste percorrendo o mundo, conhecendo culturas exóticas. Seria muito melhor do que se afogar no álcool ou nas drogas por causa da fama passageira. Não gostaria de vê-lo pedindo uma chance no programa da Sonia Abrão. Aliás, não desejo isso pra ninguém. É muito deprimente. O ex-famoso vai ao programa e chora as mágoas diante da cara indefinível da Sonia Abrão e de seus comentários esdrúxulos. E eles ainda colocam aquelas músicas tristes, com aqueles pianinhos horrendos no fundo... ninguém merece isso. Para a nossa sorte e a do Justin Bieber, espero que ele não tenha que pedir uma chance na TV. Prefiro saber, daqui a 20 anos, que ele está morando em Tuvalu, ou nas ilhas Fiji, sem fazer nada.


O autor, Luís Paulo Domingues, é colaborador de Opinião

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