Depois de ter sido praticamente erradicada, a coqueluche está “de volta” a Bauru. Segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde, desde o início do ano até anteontem foram registrados sete casos na cidade, todos em crianças menores de 1 ano. A mesma planilha fornecida pela secretaria aponta para apenas um caso no ano passado e quatro em 2008, sendo que em 2007 e 2009 não houve registrados da doença.
De acordo com Heloísa Lombardi, diretora do Departamento de Saúde Coletiva (DSC) da Secretaria Municipal de Saúde, o aumento no número de casos deve ser encarado dentro da “normalidade”. “Não podemos considerar isso como algo alarmante, já que trata-se de uma questão cíclica (que corresponde a períodos)”.
Conhecida também como tosse comprida, a doença fez jus à expressão que lhe foi empregada antes da descoberta e inclusão da vacina no calendário infantil nas décadas de 80 e 90, e voltou a “estar na moda”. O uso da palavra coqueluche para se referir a algo que esteja em alta surgiu, justamente, pelo fato da doença ser cíclica. Ou seja, enquanto em um período são registrados vários casos, no período seguinte os números despencam.
Números recentes mostram que a doença infecto-contagiosa que ataca o aparelho respiratório já é motivo de preocupação global, retomando o posto de doença “coqueluche” do momento.
Causada pela transmissão do ar contaminado por gotículas respiratórias de pessoas infectadas, a doença que pode levar à morte - especialmente os recém-nascidos - volta a ser encarada como um problema de saúde pública. Após anos esquecida, já se tornou a quinta maior causa de óbitos em crianças abaixo de 5 anos de idade dentre as doenças combatidas por vacinas.
Vacinação
Heloísa Lombardi explica que atualmente a vacinação contra a doença, de acordo com as determinações do Ministério da Saúde, é feita em três vias básicas e dois reforços, sendo o primeiro entre 15 e 18 meses de vida e o segundo entre 4 e 5 anos.
“Devido ao fato da vacinação se concentrar na fase inicial da vida, podemos perceber que esses tipos de ciclos são esperados. Por isso, as vacinas são sistemas que estão em constantes estudos para que a dosagem, os períodos de imunização e a faixa etária estejam sempre de acordo com as necessidades”, observa a diretora do DSC.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), são registrados aproximadamente 50 milhões de casos de coqueluche todos os anos, sendo que 300 mil resultam em mortes.
No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde através do Sistema de Informações de Agravos de Notificação (Sinan), até julho deste ano foram confirmados 593 casos da doença, dos quais 451 - ou 76% - ocorreram em crianças menores de 1 ano. Foram 15 mortes registradas até o momento no País, sendo que destas, sete ocorreram somente no Estado de São Paulo.
Vacina na rede particular
Especialistas ainda procuram a resposta para a surpreendente “volta” da coqueluche no País. A tese mais contundente remete ao próprio ciclo da vacina, que não protege o ser humano por toda a vida e coloca os adultos como principais responsáveis pela crescente transmissão da doença a bebês e crianças nos últimos anos.
Por esse motivo, uma nova vacina tríplice bacteriana foi criada para atender jovens e adultos e que tem duração média de 10 anos. A vacina é eficaz contra a difteria, tétano e a coqueluche acelular (dTpa).
“Em clínicas particulares ela já é utilizada, semelhante ao que ocorre em alguns países desenvolvidos como Alemanha, Estados Unidos e Japão. Porém, essa vacina ainda não está disponível nos serviços públicos brasileiros, só em serviços privados”, explica o médico infectologista Marcelo Pesce, que defende a tese de um estudo mais detalhado sobre os casos brasileiros para que seja tomada a providência necessária.
“Existem órgãos federais responsáveis por fazer esse tipo de estudo e enquadrar a necessidade local à propagação da doença. O reforço em adultos é algo considerável e que nas clínicas particulares estudamos caso a caso para aconselharmos. Seria interessante um estudo prévio para ver a necessidade de uma nova fase de vacinação”, conclui.