Geral

Mil histórias de sons que mudam vidas

Tânia Morbi e Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 7 min

João Rosan

Luzia Maria Pozzobon Ventura com a paciente do Centrinho Ana Clara Leite Meirelles

Inquieta e interessada em tudo o que se move ao seu redor, principalmente que emita som, a pequena Ana Clara, 5 anos, aos poucos vai se adaptando às palavras. Sua inquietude mostra uma criança que tem pressa em recuperar o tempo perdido sem ouvir. Para isso, há um ano e nove meses conta com um implante coclear feito no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho) da Universidade de São Paulo (USP), em Bauru.

A peralta Ana Clara está entre as 1.001 pessoas beneficiadas pelas cirurgias de implante coclear realizadas pelo Centrinho. O marco será comemorado hoje durante o seminário científico “Implante Coclear: Aspectos Atuais”, que será realizado no campus da universidade.

Ao todo são 947 pacientes atendidos, e as histórias desses adultos e crianças, que conheceram ou voltaram para o mundo dos sons graças ao implante, são as mais diversas possíveis.

A mãe de Ana Clara, Cláudia Leite Meirelles, conta que há um ano e meio a menina respondia a estímulos e pronunciava palavras comuns da idade. A partir de então, Cláudia percebeu que Ana Clara deixou de pronunciar novas palavras e passou a ficar mais retraída. A mãe procurou ajuda médica em São Joaquim da Barra, na região de Ribeirão Preto, onde a família mora.

O acompanhamento com uma fonoaudióloga e um exame aos 2 anos e meio mostrou que a criança tinha perda bilateral profunda da audição. “A gente acredita que ela perdeu a audição gradualmente. Ela não esqueceu a linguagem adquirida, mas não adquiriu nova. Então, me disseram que era a Síndrome de Wanderburg, que em crianças negras está relacionada com a cor dos olhos, uma característica da síndrome”, contou a mãe.

Há um ano e nove meses Ana Clara ouve através de um implante coclear feito no Centrinho. Está no segundo ano do ensino infantil e se esforça para aprender a pronunciar as palavras com clareza. “Ela voltou a ouvir com 4 anos e agora está começando a falar, inclusive já sabe ler. Ela passou a ser uma criança normal”, comemora Cláudia.

Com a ‘normalidade’ descrita pela mãe, ficou mais forte a personalidade da pequena, que movimentava na manhã de ontem a sala de espera pelo atendimento de retorno do Centrinho. “Ela é bem levada e ficou mais ainda depois do implante. Antes ela era quietinha, agora é super sociável”, garante.

 


No corredor


A transformação gerada na vida dos pacientes que começam ou voltam a ouvir é tão grande que mesmo os profissionais que os acompanham são afetados pela emoção. Essa é a experiência vivida pela coordenadora do Centro de Pesquisas Audiológicas (CPA) do Centrinho e professora titular da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) Maria Cecília Beviláqua, que possui 41 anos de carreira profissional - 20 deles tratando de crianças e suas famílias e os últimos 21 trabalhando no programa de implantes.

Apesar de toda a experiência, ela admite que ver a mudança da vida de seus pacientes sempre foi muito emocionante. “Muitas vezes eu tive que sair da sala para chorar no corredor, porque você não acredita. O impacto emocional é na família, nos pacientes e nos profissionais. Hoje estamos está mais habituados com essas questões, porque a gente já viu muito, mas nos primeiros anos a gente passava horas com os pacientes”, contou.

De acordo com a médica, 90% dos pacientes com implante coclear falam ao telefone e entre os 10% restantes, apenas 2% têm uso limitado ou deixaram de utilizar o equipamento.

“Isso significa que as pessoas estão tendo acesso à comunicação e informação. A criança desenvolve habilidades que, quando chega para receber a formação escolar, tem um repertório linguístico amplo, diferente de antes, quando tinha acesso apenas pela língua de sinais ou nenhum acesso”, destaca.

A indicação internacional para as crianças que nascem com deficiência auditiva profunda ou severa é que o implante seja feito a partir 1 ano e 1 ano e meio, respectivamente. A experiência no Centrinho mostra que se o implante for feito até os 2 anos de idade, a criança pode frequentar escola regular a partir dos 6 anos, com condição de acompanhamento efetivo.

 

Uso de antibiótico pode causar doença

A principal causa da surdez ocorre através da forma genética, mas o maior percentual de casos entre os pacientes ainda está relacionado à meningite, doença caracterizada pela inflamação das membranas que recobrem o cérebro e a medula espinhal.

Outras formas apontadas pela médica são o uso excessivo de certos tipos de medicamentos, como antibióticos, e ainda há os casos de vítimas de acidentes que tenham traumatismo craniano, principalmente entre os motociclistas.

Dois acidentes, aliás, mudaram a vida do mineiro Ronaldo Vieira, 45 anos, que agora estuda para o exame escrito que vai lhe garantir sua primeira Carteira Nacional de Habilitação. Depois de 22 anos imerso no silêncio causado por uma pedrada e por um tiro no rosto, Ronaldo sorri o tempo todo, respondendo as perguntas sobre como a surdez mudou sua vida. “Eu tinha 23 anos e fiquei muito nervoso, agitado. Não saía de casa e não trabalhava”, lembra.

Sua vida se resumiu à casa da família, segundo o irmão Afonso Henrique. “Agora ouço rádio, ouço música, o telefone e a campainha. Minha vida melhorou muito. Agora trabalho, fiz o exame psicotécnico este mês e vou estudar para fazer prova e dirigir”, comemora. O carro já está na garagem do trabalhador rural, natural de Fortuna de Minas, próxima de Belo Horizonte.

A alegria de Ronaldo faz com que a viagem de cerca de 800 quilômetros valha muito à pena, na opinião de seu irmão. “O atendimento daqui é fantástico. A gente fica até emocionado”, diz Afonso.

 

Cirurgião explica o implante coclear

O médico otologista Orozimbo Alves Costa Filho é o responsável por grande parte das cirurgias de implante coclear realizadas no Centrinho. Um dos pioneiros da área em Bauru, ele é também um dos responsáveis pela implantação do programa na instituição.

O que parece um milagre para quem consegue ouvir um som pela primeira vez, é explicado tecnicamente pelo médico. Segundo ele, o equipamento é composto por dois dispositivos: um interno e outro externo.

“O dispositivo interno é o que é implantado por meio da cirurgia. Ele é composto por uma antena, um chip, imã e um cabo de eletrodos”, explica o médico. Já o externo é bastante semelhante aos aparelhos de surdez normais, com um microfone, antena e outro imã.

“O microfone capta os sons, que são transformados em sinais elétricos. Esses sinais passam do ambiente externo para o interno transcutaneamente por meio de radiofrequência”, detalha Orozimbo Filho.

A partir daí, esses sinais são encaminhados para o chip e para a cóclea, onde foram implantados cirurgicamente os eletrodos. “Os eletrodos emitem um sinal elétrico que estimula o nervo. Esse estímulo causa o potencial de ação. É assim que esses sinais passam a ser percebidos como sons pelo indivíduo”, completa o otologista.

 

Desenvolvimento só veio em 2000

De acordo com a coordenadora do Centro de Pesquisas Audiológicas (CPA), do Centrinho e professora titular da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) Maria Cecília Beviláqua, apenas a partir de 1985 o implante de próteses deixou de ser um procedimento experimental e foi aprovado para a utilização clínica. A decisão possibilitou que pela primeira vez um ser humano tivesse um órgão biônico em seu organismo. Mas o grande desenvolvimento tecnológico ocorreu apenas em 2000. “Antes de 1985 os implantes não davam resultados satisfatórios, as pessoas ouviam, mas não tinha a compreensão da linguagem e audição.”

O desafio histórico é, segundo a médica, fazer a substituição dos aparelhos de acordo com o avanço da tecnologia. “Esse é o desafio, e o ouvido biônico faz parte desse desenvolvimento”, conclui.

 

Seminário terá referências da área

Além dos idealizadores do programa de implantes cocleares no Centrinho, dois importantes nomes da área estarão presente no seminário de hoje: Anne Beiter, audiologista e diretora clínica global da Cochlear Limited, e Jon K. Shallop, professor emérito de Audiologia e consultor do Departamento de Otorrinolaringologia da Mayo Clinic e Mayo College of Medicine (EUA).

“Ao longo dos anos, o equipamento do implante foi se aperfeiçoando. Essas mudanças resultaram em melhorias para quem precisa do implante”, explica Anne Beiter.

Já Jon Shallop afirma que o Brasil está pareado ao exterior na qualidade de implantes “O trabalho feito aqui é reconhecido tanto nos Estados Unidos quanto na Europa.”

Comentários

Comentários