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Bauru integra clube nacional do vinho

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 5 min

Bauru faz parte da seleta "confraria" de cidades do País com subseção da mais importante entidade nacional de enófilos, profissionais ou amadores.

Desde a semana passada, a cidade conta com seu braço da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS), entidade apresentada oficialmente na noite de quinta-feira, com uma palestra, seguida por degustação, conduzida pelo diretor executivo da seção paulista da entidade, o sommelier Arthur Azevedo.

Na oportunidade, ele apresentou o ?beabá? do vinho para novos apreciadores, entre os mais de 200 participantes que lotaram a Fazendinha JC, no recinto Mello Moraes, onde apresentou métodos básicos de apreciação gustativa, olfativa e visual da bebida.

Tida, por muitos, como néctar restrito a grupos distintos, um bom vinho, desmistifica o especialista, na realidade, precisa ser apreciado de forma democrática, com o maior número possível de apreciadores.

"Todos somos especiais. O vinho está no mundo, comprovadamente, há 7,5 mil anos. Não é algo para poucos, sendo que todas as ocasiões se tornam especiais com o vinho", enfatiza Azevedo, que ministrou sob o tema: "A arte de degustar vinhos".

Médico e jornalista especializado em vinhos, Azevedo é editor da revista temática Wine Style e é consultor da bebida para a TAM Linhas Aéreas.

Membro de importantes confrarias na França e Portugal, países referenciais na produção vinícola, Azevedo, contudo, condena os chamados "enochatos", esnobes que, segundo ele, ao invés de ajudarem a atrair novos apreciadores afastam potenciais degustadores.

"Não tem frescura", descontrai o diretor executivo da ABS-SP. "O importante mesmo é seguir uma certa etiqueta não passar vergonha, mas também não dar uma de enochato", diferencia, bem humorado, ao citar os quatro sabores do vinho. "Ao contrário dos 600 aromas são apenas quatro os sabores: doce, salgado ? raríssimos e defeituosos geralmente -, ácido e amargo", diferencia. Mais que isso, resume, é discurso de blefadores.


Sabor e requinte

Degustar um vinho classe A não significa, necessariamente, gastar rios de dinheiro, observa o especialista. Segundo ele, existem bebidas de excelente qualidade que podem ser compradas até mesmo no supermercado e com preços convidativos aos primeiros brindes de potenciais enófilos e até mesmo, no futuro, sommeliers, especialistas profissionais em vinhos. Contudo, etiqueta, diferencia, é fundamental.

Durante a apresentação oficial da subseção bauruense da ABS, na quinta-feira à noite, foram degustadas bebidas concebidas pela vinícola Salton, de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha. Na ocasião, foram servidos três tipos de vinho: o Virtude Chardonay, Salton Desejo Merlot e Salton Talento, com o primeiro deles branco e os restantes tintos.

Os participantes puderam ter noções básicas desde a forma correta de se segurar uma taça, sempre pela haste ou base ? jamais no centro ? até mesmo diferenciar alguns dos principais aromas da bebida.

Logo após o serviço, sempre com apenas 1/3 da taça completos (para a bebida liberar seus aromas), o copo com vinho tinto deve ser inclinado num ângulo de 45 graus, ensina Azevedo, para que se enxergue algo chamado de "unha", denominação dada ao formato que o vinho ganha com a inclinação. "Uma das boas razões para que a taça nunca deve estar cheia até a boca é para evitar que o vinho seja derrubado. Não se pode perder vinho. Não deixe o garçom encher até a boca, no máximo até o meio", ensina. "Depois, com a inclinação em 45 graus, enxergando algo que sugestivamente chamamos de unha, com a mão para trás, tente enxergar o dedo por trás do vinho, o que dá a noção de intensidade de cor, se o vinho é claro, médio ou escuro", detalha, enfatizando que o procedimento deve ser realizado sobre uma superfície clara.

É nesse momento que o enófilo, detalha Azevedo, identifica a idade da bebida. "Repare se a cor vai até o fim do liquido (borda), se existe um alo aquoso. Isso indica, de um modo indireto, nada científico, se o vinho está ?pronto? ou não para ser bebido", descreve.

Obviamente, ressalva o especialista, todo vinho, assim que sacada a rolha, está pronto para ser apreciado.

Contudo, quanto mais intenso o alo aquoso ? denominado perda de cor ou até mesmo transparência na borda ? é indicativo de que o líquido deve ser bebido o máximo possível. "Se o vinho está compacto de cor, sem nenhuma evolução, indica que pode beber devagar, com tranquilidade. Agora, havendo alo aquoso grande, representa que tem água. É indicativo de que você tem que beber rápido. A história de que vinho quanto mais velho melhor é conversa para boi dormir", diferencia.

Segundo ele, no caso do vinho branco, quanto mais antigo, mais o líquido ganha cor. No caso do tinto, ocorre o inverso. "(a cor) começa púrpura, vai para vermelho, laranja, âmbar e cova, tchau", brinca. É justamente por isso que, ensina Arthur, vinho foi feito para beber e não para ser objeto de decoração. "Quem guarda muito não guarda vinhos, guarda cadáveres. Não há nada mais triste do que tirar um vinho ?morto? da adega", compara.

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Lágrimas de alegria


Lágrimas, pernas... quem escuta os termos e está descontextualizado da conversa pode achar que se fala de qualquer coisa, menos vinhos.

Contudo, alguns termos usados por enófilos (estudiosos, amantes da bebida em geral) , enólogos (formados em enologia, a ciência que estuda vinhos) ou sommeliers (conhecedor profundo, geralmente consultores de restaurantes, adegas ou grandes empresas) no momento de caracterizar a bebida, se assemelham a detalhes até mesmo do corpo humano. Natural, afinal, para os amantes do vinho, ele é sagrado como tal.

Um dos aspectos visuais que mais chamam a atenção no ato de degustar, destaca o sommelier são as "lágrimas" deixadas pelo líquido que escorre suavemente nas paredes das taças após o leve balançar. Segundo o especialista, quanto mais graduação alcoólica tem um vinho, mais fina é a lágrima no vidro. "E mais se chora no dia seguinte", diverte.

Segundo ele, se o vinho não ?chora? o problema está na taça, ou melhor, na maneira como a mesma foi limpa. "Detergente é um problema. Nunca ponha vinho numa taça sem antes coloca-la vazia no nariz. Não pode ter aroma de ovo, se tiver é detergente. O ideal é lavar o mínimo possível com detergente e passar muita água. De preferência, não passar pano dentro. Seque-a de cabeça para baixo e tampouco passe álcool", recomenda. "Isso deixa sommelier com a pulga atrás da orelha", completa.

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