Podemos acreditar que a vida após a morte, a sonhada vida eterna, pode ser atingida através de nossas realizações, pois os nossos atos continuarão influenciando, acompanhando e modificando o dia-a-dia das pessoas que nos sucederão. Se aceitarmos que nossos feitos continuarão existindo por nós, nossa verdadeira missão sagrada será cuidar para que o mundo torne-se melhor com a nossa presença do que sem ela. Gandhi, Hitler, Stálin, Madre Teresa de Calcutá, John Lennon, Jim Jones, Jesus, George Bush, Saddam, Kholmeini, Antonio Carlos Magalhães, Tchê Guevara, José Sarney... como você gostaria de ser lembrado depois de sua morte? Qual figura histórica caberia em seu legado? Penso que um cara como o Jim Morrison, por exemplo, que foi poeta, compositor e vocalista do The Doors - ou seja, um ídolo de seu tempo -, está muito mais vivo agora do que quando realmente viveu. Ele atingiu um público muito maior depois de morto e um número muito maior de pessoas convive com sua personalidade hoje.
Outro dia, lembrei das fotos que minha mãe tem de meus bisavós italianos e de minha avó. São imagens da década de 1920 ou 1930 que vão valer uma grana preta no futuro, pois são testemunhos cruciais de uma época. Já tentei várias vezes me jogar dentro daquelas fotos, imaginando como seria o ambiente que os cercava. Como seria a rua lá fora naqueles tempos? Quais seriam os barulhos de Bauru naquele momento? O que será que eles fizeram depois que o fotógrafo tirou a foto? O que eles pensavam da vida? E do mundo? E do Brasil - já que eram imigrantes? As pessoas do século XXI têm o 11 de Setembro como referência de um acontecimento principal, o protagonista histórico de nosso mundo. Mas para nós, brasileiros, o atentado às torres gêmeas acabará se perdendo no emaranhado de catástrofes políticas e naturais que ocorrem todos os anos. Continuará importante. Porém, será só um dos inúmeros acontecimentos espetaculares e trágicos da vida.
Já meu bisavô viveu as duas Grandes Guerras Mundiais de um modo muito diferente de nossa visão do 11 de Setembro. Não dava para estar vivo e ignorá-las, nem mesmo por minutos. Na Primeira, foi soldado do exército italiano; na Segunda, foi espectador, aqui no Brasil. Não conseguia esconder a simpatia por Mussolini - minha avó dizia que ele quase foi preso por isso, pois a Itália era nossa inimiga e ele falava que Mussolini era "o cara".
Imagino que se os acontecimentos históricos tivessem um motor de verdade, o da Segunda Guerra Mundial seria um motor V12 único, que acabou envolvendo, de uma forma ou de outra, todos os seres humanos que viveram naquele tempo. Além disso, o Brasil participou do conflito, havia a junta militar de alistamento aqui em Bauru, na Rodrigues com a Antônio Alves, e o fantasma da guerra morou no coração dos bauruenses de uma maneira muito mais intensa do que mora o do 11 de Setembro. Mesmo que o palco principal das batalhas tenha sido a Europa, a guerra estava diante das pessoas o tempo todo.
Talvez as coisas fossem, mesmo, mais reais, pois não havia televisão para distorcer a noção de realidade e ficção. Ouvia-se os relatos no rádio, sem edição. Uma vez, quando eu era pequeno, meu bisavô me contou que uma tropa de gaúchos entrou em Bauru a cavalo, para procurar um paulista rebelde durante a Revolução Constitucionalista, em 1932. Ele havia escondido o sujeito em casa e, abordado pelos soldados, fingiu que só sabia falar italiano. Então os gaúchos foram embora. Imaginem o deslocamento que ele acabou causando na realidade, só por causa disso. Quando Hitler resolveu mudar o curso da guerra e invadir a União Soviética, 4,5 milhões de pessoas foram enviadas para o Leste Europeu - é o que diz o documentário da National Geographic. Haja poder para decidir o destino de tanta gente! Se excluíssemos Hitler da História da Terra, o mundo não seria este. Enquanto escrevo isto, vejo o bigode (só o bigode) do Fred Mercury em uma propaganda de automóvel na TV. Assim como Elvis, ele não morreu. Está mais vivo do que nunca.
O autor, Luís Paulo Domingues, é colaborador de Opinião