O primeiro dia de greve dos bancários, ontem, não registrou nenhuma ocorrência grave em Bauru, mas foi marcado pela indignação de parte dos clientes que alegaram ser prejudicados pela paralisação em nível nacional deflagrada por tempo indeterminado. A estimativa dos sindicalistas é de que o movimento começou com 65% de adesão.
Apesar de acarretar transtornos ao cidadão, a greve da categoria não fere os direitos dos consumidores. Segundo a coordenadora do Procon/Bauru, Fernanda de Assis Martins Pegoraro, ao fornecer alternativas para dar continuidade aos serviços prestados, a entidade mantém a oferta de serviços considerados essenciais à população. "O que não pode é os serviços serem interrompidos completamente e configurar prejuízo ao consumidor".
Segundo ela, as pessoas precisam ficar atentas em relação aos prazos de pagamento de contas e boletos cuja data de vencimento é sempre no mesmo dia do mês, pois é responsabilidade do usuário buscar as formas alternativas para quitá-las.
Entre elas, a emissão de segunda via de conta de energia pelo site da CPFL, caso seja entregue com atraso devido à greve dos Correios, para ser paga em casas lotéricas. No caso de boletos bancários, o cliente pode usar o Internet Banking ou imprimir a segunda via pelo site do banco.
"Não podemos culpar as empresas desde que estas forneçam outra alternativa para uma segunda via de pagamento, como pela Internet. Agora, se estas não oferecerem este tipo de serviço, aí sim podem ser considerados os danos e prejuízos ao consumidor", explica.
Plantão bancário
Ontem, em frente as bancos, os comentários do público foram mais apimentados pelo fato do movimento coincidir com a greve dos funcionários dos Correios, que estão de "braços cruzados" desde o último dia 14. O pagamento das contas que chegaram com atraso ou ainda sequer foram entregues aos destinatários é o principal problema enfrentado.
Conforme antecipou o Sindicato dos Bancários de Bauru e Região/Conlutas anteontem, ainda antes do início da paralisação, os serviços de caixas eletrônicos e aqueles realizados pela Internet seguem operando normalmente nas agências bancárias.
Apesar disso, alguns clientes que foram aos bancos ontem pela manhã alegaram precisar de atendimento feito diretamente por funcionários, e reclamam de prejuízos gerados pela greve da categoria. Segundo os usuários, para alguns tipos de pagamento ou solução de problemas, não é possível resolver por meio do Internet Banking ou nos caixas eletrônicos.
"Todas as agências que estão em greve oferecem um comitê de esclarecimentos para atender os clientes e orientá-los até mesmo sobre o uso do caixa eletrônico. Além disso, serviços prioritários como compensação e devolução de cheques podem ser realizados. Reiteramos que nossa intenção não é prejudicar a população, e sim os banqueiros com a paralisação na abertura de contas e venda de serviços", diz Paulo Tonon, diretor do sindicato.
Ontem, nas agências bancárias onde a reportagem do JC esteve, ao menos dois funcionários ajudavam clientes nos caixas eletrônicos.
PARALISAÇÃO ATINGIU 34 AGÊNCIAS ONTEM
Segundo informou o Sindicato dos Bancários de Bauru e Região/Conlutas, das 62 agências da rede bancária de Bauru, 34 paralisaram desde a manhã de ontem e aproximadamente 65% dos 1.468 funcionários aderiram à paralisação reivindicando, entre outras situações, reajuste salarial.
Ainda ontem, Marcos Lenharo, diretor do sindicato, informou que até o início da paralisação não havia nenhuma nova proposta apresentada pela Federação Nacional dos Bancos (Fenaban). "Tudo vai depender da força do movimento, se for bom, eles vão ter que apresentar proposta boa. Nós vamos fazer nossa parte, porque a proposta deles é humilhante", afirmou.
Quanto às dificuldades que a paralisação causa à população, Lenharo defendeu que outras fontes de serviço sejam usadas como alternativa. "A população hoje tem várias opções, pode procurar as casas lotéricas, o autoatendimento vai estar funcionando e os correspondentes bancários são alternativas", disse.
Na última segunda-feira, os sindicatos de bancários de todo o País rejeitaram a proposta de reajuste apresentada pelos bancos no dia 23 e iniciaram a greve por tempo indeterminado. Os trabalhadores não aceitaram o reajuste de 8% oferecidos pela representação das empresas através da Fenaban.
Segundo o sindicato, em Bauru e Região são mais de 3.100 bancários e mais de 150 agências, 62 em Bauru. A greve paralisou bancos públicos e privados. A última greve da categoria aconteceu em outubro do ano passado e durou 15 dias.
"Reivindicamos reajuste de 26% de acordo com as perdas salariais desde 1994 até que sejam zeradas. Além disso, lutamos por valorização do piso, maior participação nos lucros, além de outras questões particulares como fim da rotatividade, mais contratações, adequações em planos de saúde e da jornada de trabalho, pois em alguns bancos existem trabalhadores de 6 horas atuando por 8", comenta Paulo Tonon, do sindicato.
Em todo o País, ontem havia 4.191 agências fechadas em 25 Estados e o Distrito Federal, segundo o Comando Nacional dos Bancários.
Sem pagar
Em frente a uma agência do banco Itaú na manhã de ontem, nervosa, a dona de casa Benedita Mariano da Silva reclamava da paralisação que a impediu de pagar uma conta vencida, que não poderia ser quitada na rede credenciada. "Eu quero pagar uma conta e não posso. Eu tentei e não consegui. Eles estão errados e só querem saber de dinheiro para eles", reclamou.
Mais tranquilo, Valdemar Moreira Costa foi à mesma agência, na rua 1º de Agosto, para pagar um boleto bancário vencido no último dia 21. "O meu genro pediu para eu pagar, mas vou falar para ele que agora não dá", lamentou.
Apenas um incidente ocorreu na agência do Banco do Brasil que fica em frente à praça Rui Barbosa, no Centro de Bauru. A Polícia Militar (PM) foi chamada para conter um homem que chutava a porta de vidro que dá acesso entre a área de autoatendimento e o interior da agência. Sem cartão magnético o homem, aparentemente embriagado, queria sacar dinheiro, mas foi controlado com a chegada da PM.
Já para o vendedor autônomo Carlos Roberto da Luz, o movimento de funcionários em frente às agências ao invés de clientes não era surpresa. Vendendo goiabas em um carrinho de mão ?estacionado? em frente à agência da Caixa Econômica Federal da rua Gustavo Maciel, ele disse que a expectativa é de aumentar as vendas devido à presença dos funcionários fora da agência. "Essa é a segunda greve que eu pego e no ano passado eu vendi bem", afirmou.