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A sedução censurada

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

A imposição do "politicamente correto" tem servido mais para embaralhar ideias do que servir a causas justas como à emancipação da mulher, do negro e ao respeito aos homossexuais. O Saci-Pererê está proibido de aparecer pitando o seu cachimbo. Em vez de "negrinho de uma perna só" tem que ser chamado de "afrodescendente fisicamente prejudicado pela ausência do membro inferior esquerdo". Feministas querem extirpar a sensualidade das mulheres para que elas apareçam como "vencedoras na sociedade moderna". A Secretaria de Políticas para as Mulheres, ministério do governo, exige a proibição da peça publicitária em que a modelo brasileira Gisele Bündchen sugere às mulheres como se explicar no caso de uma batida de carro ou se estourar o cartão de crédito. Ao se encontrar com o marido, se estiver vestida com roupas normais, a explicação pode não convencê-lo, digamos, a "perdoar". Ensina Gisele Bündchen que esta é a forma errada de dar uma má notícia. A forma correta, que pode levar o marido a "perdoar" é a mulher se apresentar apenas de calcinha e sutiã. A publicidade acrescenta, "Você é brasileira, use o seu charme". As feministas implicaram. Segundo o governo federal, "a propaganda promove o reforço do estereótipo equivocado da mulher como objeto sexual de seu marido e ignora os grandes avanços que temos alcançado para desconstruir práticas e pensamentos sexistas". Este discurso não vai diminuir as inspirações sexuais. Deve, sim, ter ajudado nas vendas das calcinhas Hope. Manifestação caricata diante do simbolismo de Bette Friedman, nos anos 1960, que promoveu a queima de sutiãs em praça pública. Publicidade não é expressão cultural. Ela existe para vender um produto e disseminar idéias institucionais. Sua função social restrita é filha da economia do mercado. A sociedade do espetáculo é cada vez mais permissiva. O nu ginecológico da Playboy é vendido nas bancas para menores de 12 anos. Naturalizou a nudez de tal forma que o nu nem é mais excitante quanto no passado. As revistas até já começaram a vestir, ainda que levemente as mulheres.

A mesma ministra Iriny Lopes, ataca agora as cenas de humor na tevê (Metrô Zorra Total) que "visam desconstruir discursos que até camuflada no humor perpetua a violência simbólica contra as mulheres". Os metroviários também implicam com o que seria "incentivo ao assédio sexual nos vagões". A ditadura do politicamente correto, se instaurada de modo amplo vai retirar das pessoas a sua capacidade de rir de tudo - até do trágico ou das próprias mazelas. O riso não é sinônimo de mero deboche - é mais saudável do que uma sociedade impregnada de valores inteiramente moralistas.

A Caixa Econômica Federal tirou do ar a campanha publicitária comemorativa dos 150 anos do banco que mostrava o escritor Machado de Assis. Quem mete o bedelho oficial, agora, é a Secretaria de Política de Promoção da Igualdade Racial. A atriz Glória Pires narra uma história em que o "Bruxo de Cosme Velho" teria sido correntista do banco. O problema é que o ator que aparece em cena é branco. Nem Machado de Assis teria notado. Em 1905, um dos grandes pintores que o Brasil já teve, Henrique Bernardelli, retratou o grande escritor: branco. O atestado de óbito de Machado consta: "branco". Vejam o que dis-se Joaquim Nabuco, seu contemporâneo: "O Machado para mim era um branco e creio que por tal se tomava; quando houvesse sangue estranho isso nada alterava a sua perfeita caracterização caucásica. Eu pelo menos via nele o grego". Machado de Assis era filho de mãe branca e pai negro, favelados no Morro do Livramento, no Rio. Casou-se com Carolina, branca, portuguesa. Ignorou a abolição da escravatura. Era urbano, aristocrata, cosmopolita. A Caixa pediu desculpas públicas "a toda a população e, em especial, aos movimentos ligados às causas raciais, por não ter caracterizado o escritor, que era afro-brasileiro, com a sua origem racial". Será que alguém da diretoria da Caixa leu Machado de Assis?

A censura tem mil caras e facetas. Todas elas perigosas. A tentativa dos comissários de intervir na liberdade de produção audiovisual brasileira lembra a advertência de Michel Foucault sobre o micropoder e sua tendência a amar uma pequena ditadura com argumentações bizantinas. Nunca se construirá uma sociedade democrática de fato vendo crimes intelectuais em bobagens. Há tantas coisas importantes a serem vistas e transformadas. Daqui a pouco as piadas de papagaio serão enquadradas pelo Ibama.


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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