Douglas Reis |
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Corpos dos dois homens esfaqueados e vendados foram encontrados em depósito de lixo |
Dois corpos foram encontrados em um depósito clandestino de lixo que fica entre os bairros Jardim Gasparini e Parque Pousada, em Bauru, na manhã de ontem. Para a polícia, a crueldade e a “técnica” com que foram mortos e descartados torna o crime bastante incomum. As vítimas tiveram as gargantas cortadas e estavam igualmente vendadas com camisetas amarradas na cabeça. A hipótese é de que sejam duas vítimas do “justiçamento” existente no mundo do crime.
As vítimas, que não foram identificadas até o fechamento desta edição, eram dois homens. Logo pela manhã, moradores teriam encontrado os corpos. O primeiro, que vestia camiseta e shorts e aparentava ter entre 40 e 45 anos, estava separado por uma distância de aproximadamente 200 metros do outro, que estava de calça jeans e parecia ter cerca de 40 anos. As vítimas estavam às margens de uma estrada de terra que liga os dois bairros.
Além de marcas de tortura e outras perfurações pelos corpos, ambos tiveram as gargantas cortadas. Os dois homens estavam com camisetas amarradas na cabeça, cobrindo os olhos. Segundo a polícia, até o modo como foram vendados é igual.
O titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), Kleber Granja, esteve no local e confirmou que as vítimas não foram mortas no depósito. O principal indício é a falta de sangue nas proximidades. Outra pista é que, apesar de estarem descalços em uma área de terra, os pés de ambos estavam limpos.
“Os corpos foram lavados antes de serem transportados, provavelmente para que o veículo não ficasse impregnado com o sangue. Isso denota a forma ‘técnica’ como o crime foi cometido. É algo muito incomum e preocupante”, revela o delegado.
Além disso, os cortes também confirmam essa preocupação. Segundo o titular da DIG, as facadas na região torácica já seriam suficientes para causar a morte, porém, optou-se por cortar as gargantas. A arma do crime não foi encontrada. “Chega a ser algo psicopata. Uma das vítimas quase foi decapitada”, completa. A Polícia Científica esteve no local para a realização da perícia. Enquanto os policiais preservavam o local onde os mortos estavam, muitas pessoas se aglomeraram. Uma mulher chegou a afirmar que conhecia uma das vítimas, mas depois descobriu que a pessoa conhecida estava viva.
Investigações
O delegado Kleber Granja diz ser prematuro apontar o motivo do crime, justamente pelo fato de as vítimas não terem sido identificadas. “Precisamos descobrir quem são as vítimas antes de chegar ao autor. Investigamos se isso foi um tipo de aviso. Porém, há grande possibilidade de serem pessoas relacionadas com o mundo do crime”, afirma.
Segundo ele, essa suspeita é justamente pela maneira cruel e “técnica” do duplo homicídio. “Pela forma como foi feito, não parece ser uma questão passional ou uma briga de bar. Foi realmente algo extremamente cruel e incomum, provavelmente ligado ao mundo do crime”.
Mesmo não confirmando que os casos estão relacionados ao tráfico, a suspeita do delegado converge com o que mostra levantamento extraoficial do Jornal da Cidade. Desde o início do ano, das 28 mortes acompanhadas pelo JC, apenas três casos não teriam ligação com criminalidade.
Outro ponto que reforça a tese de julgamento e execução são os sinais encontrados nos dois corpos, principalmente no segundo. “Pelos sinais de violência externos, dá para ver que foram torturados. Isso sugere que foi um grupo com mais de duas pessoas”, completa o delegado.
Com mais esse duplo homicídio, chega a 28 o número de assassinatos em Bauru este ano, segundo levantamento extraoficial feito pelo JC. O caso de um homem encontrado morto em uma piscina anteontem, ainda está em investigação pela polícia.
Sem identidades
Até ontem, somando as duas últimas vítimas encontradas no depósito, quatro corpos masculinos aguardavam identificação no Instituto Médico Legal (IML) de Bauru.
O primeiro chegou ao Pronto-Socorro Central (PSC) na última quarta-feira, após ser atendido na rua pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). O homem, sem documentos, foi socorrido na esquina da rua Aviador Gomes Ribeiro com a alameda Doutor Octávio Pinheiro Brisola, conforme relatado no boletim de ocorrência (BO), que sugere morte natural.
Na manhã do dia seguinte, o cadáver de outro homem foi localizado boiando em um córrego que deságua no rio Bauru, no Jardim Guadalajara.
A violência do ‘Código de Hamurabi’
Em 1780 a.C, o Código de Hamurabi trouxe para a Babilônia a Lei de Talião, que permitia a justiça com as próprias mãos. Baseada na máxima “olho por olho, dente por dente”, tal aplicação começou a entrar em declínio com a conquista de direitos humanos. Entretanto, no mundo do crime, o justiçamento por meio de julgamentos e execuções ainda é frequente.
O tenente-coronel Nelson Garcia Filho, comandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), confirma essa realidade. Segundo ele, as facções criminosas acabam cometendo crimes para “resolver” seus problemas internos, sistema que, erroneamente, é chamado de “justiça”.
“Um caso comum é a dívida do tráfico. Quando a polícia faz apreensões, a pessoa que estava vendendo a droga fica com uma dívida com o traficante. Como eles dizem, ficam ‘no prazo’. Se essa quantia não é paga, muitos acabam morrendo”, explica.
De acordo com o tenente-coronel, outro motivo que leva ao justiçamento do crime é quando ocorre algo com familiares de integrantes de facções criminosas. “Quando ocorre isso, o integrante, mesmo dentro da cadeia, ordena que o autor ‘pague’ pelo crime”.
Apesar de não apontar oficialmente que o caso do duplo homicídio registrado ontem seja um desses acertos de contas, Garcia explica que os indícios são fortes. “A arma branca geralmente é utilizada quando se quer mandar um recado. A violência é para servir de exemplo”, completa.
‘Fazer justiça com as próprias mãos é crime’, aponta advogado
Além do código existente no mundo do crime, o “justiçamento” motivado por casos de grande comoção é feito também por populares. Um desses prováveis exemplos ocorreu na semana passada, quando, após ter sido acusado de abusar de um familiar de 11 anos, um aposentado de 64 anos teve sua casa, no Parque Jaraguá, incendiada.
Entretanto, fazer justiça com as próprias mãos não é fazer justiça. Segundo o vice-presidente da Subseção Bauru da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP), Alessandro Bien Cunha Carvalho, que é advogado na área de direito penal, em qualquer que seja o caso, esse “justiçamento” é um crime.
“As leis e as penas foram pensadas ao longo de muito tempo pelo sistema judiciário. Fazer justiça com as próprias mãos é algo inadmissível, independentemente do caso”, aponta o advogado.
O sistema judiciário é conhecido pela oportunidade concedida ao cidadão de provar sua inocência. Essa premissa é retirada em “julgamentos populares”. No ano passado, em Marília (100 quilômetros de Bauru), Cirso Fernandes Guilherme, 47 anos, teve sua casa incendiada e foi espancado até a morte depois de ter sido relacionado ao assassinato de uma garota de 14 anos. Poucos dias depois, a polícia da cidade declarou que nenhuma prova o ligava ao caso.
