São Paulo - Receitas caseiras de repelente, com citronela, andiroba e outras substâncias, não são um meio eficaz de afastar o mosquito da dengue. No máximo, garantem picadas em uma pele cheirosa.
A constatação é de pesquisadores da Unesp de Botucatu, que testaram as principais receitas caseiras para afastar o Aedes aegypti. Os resultados foram divulgados pela revista “Unesp Ciência”.
Com a chegada do verão, época em que os casos de dengue disparam, as fórmulas mágicas e “naturais” proliferam quase tão rápido quanto o mosquito que transmite a doença, ganhando espaço em correntes de e-mail, redes sociais e até em alguns programas de televisão.
“O maior perigo é a falsa sensação de segurança. As pessoas aplicam essas substâncias achando que vão estar protegidas contra a doença, mas, na verdade, estão vulneráveis”, diz Hélio Miot, professor de Dermatologia e um dos coordenadores da pesquisa, que será publicada na “Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical”.
Os pesquisadores criaram em laboratório um berçário de Aedes aegypti livres de contaminação com a dengue ou qualquer outra doença.
Eles então selecionaram somente fêmeas (só elas nos picam) adultas e estéreis. Para aumentar o apetite dos insetos, eles foram privados de alimentação por 24 horas.
Os mosquitos, depois, foram colocados em uma espécie de gaiola circular, só com uma abertura para o braço.
Um grupo voluntário de estudantes de medicina topou, literalmente, dar o sangue pela pesquisa e enfiar os braços na gaiola para testar o grau de repelência.
Primeiro, os voluntários colocavam os braços nus e sem qualquer substância. Depois, passavam algo no outro braço a ser testado.
Essa operação foi repetida várias vezes e, ao final, os cientistas compararam a quantidade de picadas de cada situação. O desempenho dos produtos testados também foi comparado com uma substância-padrão, cuja repelência já é bem conhecida.
No experimento, os cientistas usaram andiroba, cravo-da-índia, citronela, óleo de soja e outros produtos que a crença popular diz afastar o mosquito.
“Eles afastaram os mosquitos por um curto período. Algumas centenas de segundos apenas. Nenhum superou os repelentes industrializados”, avaliou Miot.
As velas à base de citronela e andiroba, porém, podem fazer diferença,
As fêmeas do mosquito buscam o sangue humano (e de outros mamíferos) pela albumina, uma proteína usada em seus ovos. Por isso, os insetos evoluíram para “rastrear” o gás carbônico e a amônia liberados pelos animais.
“Qualquer meio que bagunce esses sensores já ajuda. Acender fogueiras é um método muito antigo de espantar insetos”, diz Miot.
“Qualquer vela, mesmo as comuns, vai contribuir. Isso, porém, só funciona em ambientes fechados e com tamanho restrito. Numa varanda, por exemplo, não serviria pra nada”, completou o pesquisador da Unesp.
Como é feita a pesquisa
1. Os cientistas cultivam fêmeas do mosquitos do Aedes aegypti em laboratório e garantem que elas estão livres da dengue e de outras doenças
2. Os cientistas deixam cerca de 30 insetos sem comer por 24h, para que fiquem bem famintos. Eles são colocados em recipientes circulares [parecidos com bacias de 5 ou 6 litros] que são cobertos por uma tela transparente
3. Voluntários inserem na “bacia” primeiro o braço sem nenhum tipo de repelente e o deixam exposto por alguns minutos
4. Depois, os voluntários colocam o outro braço, dessa vez com a substância que se quer testar a repelência
5. Os cientistas então comparam a quantidade de picadas das duas situações, os resultados são ainda comparados com uma substância padrão, cuja ação repelente já é conhecida
Resultados: todas as fórmulas caseiras de repelentes tem efeito tão baixo que é quase a mesma coisa que deixar o braço sem nada