Ao longo dos anos, o bauruense tem aprendido a se guiar conforme a chuva. Se a região central sofre com alagamentos frequentes, os moradores de muitos bairros da cidade sabem que basta começar a chover para as ruas de terra ficarem totalmente destruídas. Apesar de poucas, as recentes precipitações já trazem transtornos aos “quatro cantos” da cidade.
Ontem, o JC foi conferir alguns bairros e encontrou reclamações que vão desde centros de assistência social prejudicados até pessoas que, por conta de a calçada ter virado o único acesso de automóveis, instalaram obstáculos na guia (leia mais abaixo).
O “tour” de buracos feito pela reportagem começou na quadra 5 da rua José Chaves de França, no bairro Parque São João. No local, os moradores colocaram um boneco pescando em meio à rua de terra totalmente destruída. Os buracos são tão grandes que é possível ver a tubulação de esgoto.
“Esse problema existe há anos. É só chover que fica assim. Disseram que iam asfaltar em março. Até agora nada. Tem cadeirante que mora nesta quadra e gente que, além de ter o carro quebrado, teve o veículo furtado por não conseguir entrar em casa e ter que deixá-lo na rua”, conta Osvaldi Ticão Martins, presidente da associação de moradores do bairro.
De lá, a reportagem foi para o Parque Santa Cândida. Por conta de uma erosão que atravessa mais de três quadras na rua Primo Pegoraro, os ônibus não fazem o destino completo. Com isso, além dos moradores, quem frequenta o Centro de Referência de Assistência Social (Cras) e o Centro de Interação Social (Cite) da região está enfrentando muitos problemas.
“Quem vem de ônibus, precisa parar cinco quadras acima. Nós trabalhamos com crianças e adolescentes. Fazemos corais e eles se apresentam. Na semana passada, tivemos que cancelar apresentações porque choveu e eles não tinham como sair do Cite”, conta a educadora social do Cite Érika Estefânia Oliveira, afirmando que nem estagiários estão vindo mais ao local.
Do outro lado da cidade, no bairro Pousada da Esperança 1, as reclamações continuam. O buraco na quadra 3 da rua Vasco Pompemayer é assustador. Apesar da erosão ser digna da queda de um meteorito, Constantino dos Santos, 69 anos, afirma que essa ainda é “criança”.
“Eu moro aqui desde 96. E sempre foi esse problema. Se chover, mesmo pouquinho, não dá nem para andar pela rua”, conta.
Junto com Constantino, José Pinto Queiroz Júnior, 32 anos, entra na erosão para comprovar a profundidade. “Até a máquina do DAE (Departamento de Água e Esgoto) ficou presa aqui. É muito perigoso”, alerta Júnior, coberto até a metade do corpo pela erosão.
Desesperados, a maioria dos entrevistados dessas ruas afirmaram ter acionado a prefeitura. Entretanto, a situação não deve ser resolvida imediatamente. Apesar de os moradores afirmarem que o asfalto da rua José Chaves de França, no bairro Parque São João, estava previsto para março deste ano, a pavimentação só deve chegar no fim de 2012.
“Haverá a pavimentação dessa via nas quadras 4 e 5. Mas vai demorar um pouquinho. Como falta galeria, a previsão é de que saia só no fim do ano que vem”, afirma Sidnei Rodrigues, titular da Secretaria Municipal das Administrações Regionais (Sear), que trabalha em conjunto com a pasta de Obras para mapear as áreas mais prejudicadas.
A mesma previsão é dada para a rua Vasco Pompemayer, no Pousada 1. Segundo o secretário, essa data tardia é também pelo fato de estar faltando galerias. Apesar de demorar, essas duas vias estão previstas no cronograma de pavimentação. Ao contrário da rua Primo Pegoraro, no Santa Cândida. Por isso, Rodrigues explica que, no local, será feito um trabalho de recuperação apenas.
Nem o Samu
Aleksandra Victória Perrone, 40 anos, está grávida de sete meses. Ela, que reside na quadra 11 da rua Primo Pegoraro, no Parque Santa Cândida, vive preocupada. Segundo a gestante, nem mesmo viaturas de emergência vão ao local.
“Esses dias, minha pressão caiu, passei mal e acionei o Samu. Como a ambulância não chegava aqui por conta dos buracos, precisei, passando mal, subir até a parte de asfalto”, diz a mulher.
Paliativo
Segundo o titular da Secretaria Municipal das Administrações Regionais (Sear), Sidnei Rodrigues, em parceria com a Obras, várias ruas estão sendo recuperadas nos últimos dias. O próprio secretário, porém, confirma que a medida é paliativa.
“Como o solo de Bauru é arenoso, a chuva vem e tira toda a terra que colocamos. Recentemente, colocamos 50 caminhões de terra em um local de dia. De noite, a chuva tirou tudo”, exemplifica.
Mesmo assim, enquanto a pavimentação não chega, a recuperação paliativa continua. Segundo Sidnei Rodrigues, ontem, foram colocados 38 caminhões de terra em uma via do Parque Viaduto e, hoje, o trabalho continua na Vila Dutra.
Outro ponto que merece atenção é a Rua Walter Rodolpho esquina com a Avenida das Bandeiras, na Vila Industrial. Ontem, leitores escreveram ao JC para reclamar das condições da via.
Era uma vez uma calçada que se tornou rua...
Na alameda João Batista Pacheco Fantin, no Jardim das Orquídeas, aconteceu algo digno de conto de fadas. O que era para ser a via virou um buraco intransitável para veículos e, com isso, a calçada acabou se transformando em rua. Desse modo, com medo de ser atropelada, uma senhora de 75 anos precisou instalar dois pilares na guia como obstáculo aos veículos.
“Eu moro aqui com meu marido, de 63 anos. Várias vezes estava saindo e quando abri o portão, tive que entrar correndo porque tinha um carro passando na calçada. Por isso, pedi para meu filho colocar esses pilares”, conta Eduwirges Fernandes, dizendo que, mesmo assim, as motos continuam usando a guia como via de acesso.
O filho dela, José Izaniel da Silva, 47 anos, foi quem instalou o pilar. Ou melhor, os pilares. “Agora só tem um. Mas tinha colocado dois. Um deles foi derrubado por um caminhão que tentou passar por aqui”, explica.