Neide Carlos |
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“Eu bebia até no trabalho”, conta o auxiliar de enfermagem e beneficiário André |
Nos últimos anos, a dependência química preocupa cada vez mais os órgãos responsáveis. Com isso, o quadro deixou de manter apenas uma preocupação sobre criminalidade e acendeu um alerta diretamente na questão da saúde pública. Considerada uma doença, a dependência é capaz de afastar pessoas de seus respectivos trabalhos. Segundo dados do Ministério da Previdência Social, é o que acontece com 29 trabalhadores em Bauru que, dependentes de drogas como álcool, crack e cocaína, não exercem suas profissões e, por isso, recebem benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Segundo o instituto, o benefício é para segurados que já tenham contribuído com a previdência por, no mínimo, um ano e estejam impossibilitados de exercer as atividades habituais por conta da dependência.
O problema também precisa ser comprovado. Só tem direito ao benefício aqueles trabalhadores que apresentam o laudo médico atestando a dependência. Segundo o perito médico do INSS em Bauru, Cardec Batista Rufino, a constatação do problema é feita por meio de “entrevistas, exames físicos , análise dos laudos dos médicos assistentes, análise dos prontuários de internações, exames realizados, entre outros”.
O valor a ser recebido é calculado com base nas contribuições. O tempo no qual o benefício é concedido depende do exame pericial. “Geralmente são períodos curtos para possibilitar a oportunidade de recuperação”.
Durante esse período, entretanto, o médico explica que os beneficiados são obrigados a realizar tratamento para a dependência. É o caso do auxiliar de enfermagem André (o entrevistado pediu para ter somente o primeiro nome divulgado), 40 anos, que se trata em uma comunidade terapêutica em Bauru e recebe há quatro meses R$ 978,00 do INSS.
“Tive uma recaída no alcoolismo. Não tinha mais condições de trabalhar e fui diagnosticado como dependente químico. O benefício está sendo ótimo para a minha recuperação. Tenho esposa e um filho de 12 anos e entrego o dinheiro para eles”, conta.
Ainda em relação ao benefício, André faz questão de frisar que “não está sendo sustentado pelo governo”. Ele afirma isso uma vez que esse auxílio é fruto da sua contribuição anterior na previdência.
Drogas
André relembra que o seu problema começou há 15 anos. “Na época, bebia muito e passei por quatro internações. Depois do tratamento, encontrei uma religião também e fiquei todo esse tempo sem beber”, conta.
Há cerca de 2 anos, porém, André começou a tomar “uma latinha” de cerveja. “Depois, evoluiu para destilados e outras bebidas. Trabalhava cuidando de uma idosa em uma casa e bebia até no emprego. Há alguns meses, eu já estava até caindo embriagado”, conta.
Segundo o perito médico Cardec Batista Rufino, o álcool é uma das drogas mais prevalentes na questão da dependência. Junto com ele, os casos mais frequentes, segundo o profissional do INSS, são relacionados ao uso de cocaína e crack.
O psiquiatra Sérgio Sato, que é especialista em álcool e drogas, confirma que essas são as principais substâncias causadoras de dependência. Além disso, explica que a rotina do trabalho é um fator de risco para o problema.
“Nos últimos anos, tenho verificado que muitos desses trabalhadores exercem profissões estressantes. Também vejo que são do sexo masculino e estão principalmente na faixa etária dos 22 aos 30 anos. O vício é algo que vai dominando aos poucos. Quando a pessoa vê, ela está batendo o carro ou usando no trabalho. Por isso, precisa ficar atenta”, alerta o psiquiatra.
Prazer
As drogas, sejam elas lícitas como o álcool ou ilícitas como o crack e a cocaína, atuam em uma área específica do cérebro. É o que afirma o psiquiatra Sérgio Sato. “Elas agem na área de prazer do cérebro. Por isso dá aquela sensação de recompensa”, explica.
Entretanto, se agem nessa área determinada, tais substâncias acabam “desorganizando” todo o cérebro. “E a dependência vem porque, depois de beber muito, essa área é usada em excesso. Assim, a pessoa não tem mais a mesma sensação que tinha quando bebia pouco. E, assim, as doses vão aumentando cada vez mais”, conclui o psiquiatra.
71 pessoas na região
Segundo os dados do Ministério da Previdência Social, além de Bauru, vários outros municípios da região possuem trabalhadores afastados recebendo o benefício do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) por conta de dependência química. Ao todo, são 71 beneficiados.
Com os 29 já citados, Bauru é a cidade com o maior número. Depois, vem Jaú, com 15 casos. Ainda na região, Lençóis Paulista aparece na terceira colocação, com sete trabalhadores recebendo o benefício.
Psiquiatra alerta sobre os ‘pacientes malandros'
Segundo o especialista em álcool e drogas Sérgio Sato, com o objetivo de ajudar, o benefício pode assumir um sentido contrário. Apesar das exigências do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), existe o perigo dos “pacientes malandros”.
“Eu não dou atestado de dependência para muitos que me procuram. Há aqueles que usam o problema para ficar longe do emprego e manter o benefício. Então, por isso, é importante o tratamento”, destaca.
Segundo ele, em alguns casos, o próprio tempo livre - que deveria ser para recuperação – serve para até mesmo ampliar a dependência. “Com o dinheiro e o tempo livre, o beneficiado pode alimentar o vício. Por isso, em alguns casos, a melhor coisa é continuar trabalhando”, alerta o psiquiatra, dizendo que só dá laudos contestando a dependência em casos graves, com, por exemplo, alucinações alcoólicas.
Kadyne Fernanda Silva Garcia é assistente social da comunidade terapêutica Bom Pastor, em Bauru, que possui, atualmente, oito beneficiados. Ela afirma que, até hoje, a maioria dos internos quer realmente se tratar. Porém, há as exceções.
“Aqui, os beneficiados passam por exames de três em três meses. Já tivemos casos de pessoas que conseguem o benefício e vão embora em seguida. Como o valor vai para ele mesmo, fica recebendo durante os outros dois meses sem se tratar”, conta a assistente social.
