Mais do que um local onde buscamos suprimentos para o lar, o supermercado se transformou num autêntico centro de convivência. A agregação de diferentes serviços e produtos, hoje em dia além das gôndolas, faz com do estabelecimento um ponto de encontro seja entre quem adora encher o carrinho escolhendo itens de forma minuciosa e paciente, ou para aqueles em busca apenas de um cafezinho e um dedo de prosa.
Com a incorporação de serviços como caixa eletrônico ou de pontos comerciais anexos como restaurantes, casa lotérica, farmácia, entre outros, os supermercados, principalmente os de maior porte, concentram um público cativo que, por prazer ou obrigação, transformam os centros comerciais quase numa espécie de "segunda casa".
É assim com o comerciante Filipe Batista de Alcântara. Além de trabalhar numa lanchonete encostada a uma loja de uma das maiores redes varejistas da região, ele também aproveita e tira alguns minutos para fazer uma pausa ao tomar um ar, ou melhor, uma água ou café, no supermercado. "Venho aqui quase todos os dias, desde 2008. É uma convivência meio a negócio e meio por costume mesmo", considera. "A gente virou parceiro", completa.
Além de encher o carrinho, a convivência também aumenta o círculo de amigos. "Conheço todo mundo aqui, em todas as divisões da loja, desde o pessoal dos hortifrutigranjeiros até os fiscais de caixa. A gente sempre conversa. Para mim é prazeroso vir aqui fazer compras, encontro amigos, trocamos ideias e damos risadas", descreve o comerciante. "O espaço é muito agradável para comprar, passear apenas, conversar ou até reuniões informais", acentua.
O convívio com expositores e atendentes é natural quando se cria uma rotina. Contudo, a frequência de visitas ao supermercado só pode ser estabelecida se o princípio básico de um estabelecimento comercial for seguido à risca. Ou seja, sem qualidade, sem cliente. Sem freguês cativo, nada de convivência.
E foi atrás de boa mercadoria e produtos frescos que a aposentada Célia de Oliveira Rodrigues integrou o supermercado e funcionários ao seu cotidiano diário. "Não sou de estocar produtos em casa. Gosto de mercadoria fresca", prefere ela, que vai todos os dias ao estabelecimento próximo à sua casa, na região sul da cidade.
Essa preocupação em levar para casa apenas produtos recém-expostos nas prateleiras gerou a convivência que, para a aposentada, faz do supermercado uma extensão da própria casa. "Conheço todo mundo, desde o pessoal da faxina até os gerentes. É praticamente nosso quintal", considera. "Às vezes, vou buscar uma massa e acabo tomando um café ou lanche, a gente sempre passa para ver alguma novidade ou simplesmente após uma caminhada na região", completa.
Sem estresse
Muita gente vai ao supermercado por prazer. Geralmente, esse hobby é precedido pela afeição com a culinária, além é claro do gosto pela boa mesa. Entretanto, muitos também vão às grandes lojas de abastecimento, tanto no atacado ou varejo, por mera necessidade e admitem não gostar nem um pouco de ter que tirar o carro da garagem e encarar prateleiras e filas de caixa.
Contudo, essa "convivência forçada" torna-se mais agradável. As lojas cada vez mais investem em conforto, com climatização, iluminação diferenciada de produtos, além das opções de descontração para os próprios clientes, algumas delas até com música ao vivo dentro do estabelecimento, bem como o tradicional cafezinho.
O comerciante Osvaldo Alvarez de Castro é um dos clientes que, cá entre nós, se pudesse, não sairia de casa para fazer compras. Ao menos que por necessidade, conta. Proprietário de uma pequena pizzaria, ele diz que precisa percorrer, diariamente, três diferentes estabelecimentos para encontrar toda a matéria-prima fresca que precisa para a produção das redondas.
"Vou a três supermercados diferentes praticamente todos os dias, entre terça-feira e domingo. Não há como estocar material na minha pequena pizzaria, então frequento dois atacados e uma grande loja da rede varejista", detalha Osvaldo.
No caso do varejo, o que atrai o comerciante é a boa disposição de produtos, bem como a facilidade de locomoção e localização dos mesmos. "Não gosto de mercado apertado ou bagunçado."Para falar a verdade, nunca gostei muito, mas a necessidade, por causa do trabalho, faz com que a gente frequente diariamente", afirma. "Justamente por isso, procuro o melhor lugar, onde a gente se sente mais à vontade", completa. "Claro que, com o tempo, a gente faz amizades, toma um cafezinho e relaxa em meio à correria", admite.
Como surgiu
O conceito "pegue-pague", que substituiu as antigas vendas de balcão, nas quais o cliente só tinha contato direto com o produto após empacotado pelo atendente, surgiu nos Estados Unidos, ainda na década de 1930. O primeiro supermercado do mundo foi o King Kullen, inaugurado pelo comerciante Michael Cullen.
Curiosamente, ele abriu um mercado nesses moldes após ser demitido do armazém onde trabalhava. Ele foi mandado embora, justamente, por enviar ao patrão uma sugestão na mudança do sistema de trabalho com substituição do balcão pelo auto-atendimento. Kullen estava certo e, 20 anos mais tarde, o modelo chegava à Europa e ao Brasil. O primeiro supermercado do País foi o "Sirva-se", inaugurado em São Paulo.
Economia estável mudou os hábitos de compra
Talvez o principal fator que atraiu fregueses quase diários aos supermercados, a estabilidade da moeda, para o diretor da regional de Bauru da Associação Paulista dos Supermercados (Apas), Erlon Godoy Ortega, é responsável por uma verdadeira mudança de hábitos.
Antes de 1994, quando foi lançado o Plano Real, observa ele, era mais comum a presença de carrinhos abarrotados nas filas do caixa, com clientes fazendo a tradicional compra do mês. Esse costume, credita o diretor da Apas/Bauru, em grande parte, era incentivado pelo medo da rápida desvalorização da moeda e consequente perda do poder de compra ainda no mês em que o salário caiu na conta.
A partir do momento em que a moeda ganhou estabilidade, essa obrigação, ao menos em termos monetários, deixou de existir. "Hoje se compra no mínimo uma vez por semana ou até mesmo todos os dias", compara o representante do setor.
O prenúncio de uma mudança de hábitos no consumidor foi esteira para outra revolução, no caso, entre os próprios estabelecimentos, que se tornaram multifuncionais. Justamente para atender às necessidades de frequentadores diários ou então para atraí-los, as lojas investem mais em conforto e variedade de produtos e serviços. "O supermercado agregou muitos serviços, como o pagamento de contas, restaurante, lavanderia, adega lotérica", exemplifica. "Não é mais um local só de compras, ele vende serviços", diferencia, creditando a transformação dos supermercados em espaço de convivência também ao dinamismo do setor. "O ramo em Bauru é muito dinâmico. Existem muitos supermercados, redes regionais muito fortes que concorrem de igual para igual, ou até melhor, com redes nacionais. Elas interagem com o consumidor", enaltece.