Geral

Mil árvores para cortar até a chuva

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 5 min

O começo da estação chuvosa se aproxima com Bauru tendo que cortar aproximadamente mil árvores que estão ameaçadas na cidade. De janeiro a setembro, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) já analisou 1.024 processos solicitando o corte de 1.302 árvores, mas só autorizou 849 substituições. Não houve liberação para o corte de 453 árvores. Do total, 69 solicitações foram atendidas parcialmente, quando se autoriza a substituição de apenas uma árvore para um único pedido de corte de duas ou três plantas.

Os técnicos da Semma alertam que a chuva acumulada na copa, a ação do vento, a posição da espécie e o manejo inadequado durante anos podem fazer com que uma árvore, mesmo na plenitude de sua vida, desabe inesperadamente.

Ainda que seja controverso, uma espécie exuberante também oferece risco de queda sobre pessoas, imóveis, carros e fiação elétrica. Com critério técnico e avaliação caso a caso, algumas vezes a Semma autoriza a retirada da árvore sadia, como ocorreu recentemente com um eucalipto de 40 metros dentro de um campo de futebol que ameaçava residências, caso viesse abaixo.

A diretora do Departamento Zoobotânico da Semma, Alessandra Pinezi, esclarece que grande parte dos cortes é deferida por motivo de saúde - estado fitossanitário - da árvore. Nesta situação, a planta é atingida por pragas como broca ou cupins. Nos nove primeiros meses do ano, 75 exemplares de canelinha foram cortados de um total de 92 pedidos para a espécie. Pinezi avalia que a canelinha plantada em calçadas é vunerável a pragas urbanas, como a broca. Mas é sadia na mata.

Os bairros com maior demanda nos primeiros nove meses estão na região central, com 48 cortes, seguidos por um bairro relativamente novo em Bauru, o Mary Dota, também com 48 extrações de árvores. O Jardim Bela Vista teve 27, o Jardim Estoril 17, o Jardim América 20 e o Geisel 37 cortes.

Vilão

A diretora do Departamento Zoobotânico da Semma responsabiliza a escolha de espécies inapropriadas ao meio urbano para arborização como responsável pelo principal problema de manejo inadequado. "Hoje estamos vendo o que foi feito lá no passado", cita. Pinezi comenta que, com o tempo, a poda torna a planta suscetível a pragas - cupins e brocas - e a ficar oca. A poda somente de um lado da copa causa o desequilíbrio da árvore que, com o passar dos anos e das podas sucessivas, pende e pode cair com a ação do vento combinada com as chuvas.

A diretora da Semma comenta que, antigamente, era comum o plantio na cidade de árvores de grande porte, como chapéu-de-sol, sibipiruna e fícus, sem critério técnico. Agora, os números de pedidos de substituição representam o tamanho do problema para a administração pública gerenciar. A sibipiruna é a campeã com 309 pedidos, sendo 186 deferidos e 123 negados, somente nos primeiros nove meses deste ano. Para a chapéu-de-sol foram 210 solicitações, com 121 aprovações e 89 rejeições de substituição. No caso do chapéu e da sibipiruna o argumento para a retirada é o dano a imóvel e o estado de saúde da planta.

Para Pinezi, as duas espécies são inadequadas para plantio em área urbana porque são árvores de grande porte e, debaixo de fiação, causam transtornos. "O estado fitossanitário delas (saúde) fica bem comprometido", define.

Ela inclui a fícus no rol das impróprias para calçamento porque suas raízes se expandem em busca de água e vão estourando tudo o que está à sua frente. De 130 pedidos para corte de fícus, somente cinco foram negados.


Sugestões de plantio

A Semma sugere o plantio sob rede de iluminação pública de árvores de pequeno porte e arbustos como cereja-do-rio-grande, resedá, dedaleiro, castanha-do-maranhão, bacupari, uvaia, pitanga, capororoca, mulungu, ipê-branco, ipê-amarelo-pequeno, tamanqueira, murici, araçá, gabiroba, goiabeira, flamboyanzinho, marolo, chupa-ferro, guaçatonga, grumixama, candeia, urucum, pimenta-de-macaco, grevílea-anã, escova-de-garrafa, caliandra, lixa, tiborna, sangra d?água e falsa-murta. No lado oposto à rede de iluminação a sugestão é de árvores de médio porte como quaresmeira, resedá gigante, falso-chorão, unha-de-vaca, tarumã, aleluia, pau-cigarra, guatambu, ipê-rosa, alecrim-de-campinas, cássia, capixingui, ipê-amarelo, manacá-da-serra, aroeira-pimenteira, carobinha, jacarandá-mimoso, cabreúva, pau-brasil, aldrago, jamboroxo, sucupira-roxa e oiti.

____________________

Manejo inadequado gera grandes riscos


Alessandra Pinezi, diretora da Semma, explica que, atualmente, é feita a orientação para o plantio de espécies adequadas ao meio urbano e para o seu manejo correto. "Só vamos ver esse resultado daqui a alguns anos", projeta. Segundo ela, a poda indiscriminada é uma das formas mais comuns de manejo inadequado. Assim como o corte da raiz superficial e o plantio de árvores em tubo.

A diretora ensina que a calçada estoura quando a árvore é plantada em tubo. O senso comum diz que, para não destruir o calçamento, deve-se aprisionar a raiz em um tubo. De acordo com Pinezi, o senso comum é um modelo equivocado. A diretora da Semma esclarece que a proporção da raiz assemelha-se à extensão da copa da espécie. Ao se desenvolver confinada em um tubo, conforme a experiência de Pinezi, a raiz cresce um pouco para cima, porque naturalmente precisa respirar, e estoura o calçamento. Como a estrutura de sustentação da árvore está fixada em um único ponto, plantada dentro de um tubo, o risco de tombamento aumenta pelo desequilíbrio da parte superior - copa -, exposta à ação dos ventos e chuva e, possivelmente, potencializada devido à poda inadequada.

"A raiz não está expandida, ou seja, fixada em vários pontos. Pode ser que contribua para que venha a cair, com uma rajada de vento", alerta.

A Secretaria de Meio Ambiente também é parceira da população no manejo de espécies que estejam causando algum tipo de problema. Em um processo negando o corte de três mongubas, a Semma se propõe a executar a limpeza, levantamento e equilíbrio da copa. Em contrapartida, o proprietário teria que ampliar o canteiro do imóvel. A intervenção é recomendada. As árvores estão na quadra 3 da rua Coronel Antônio de Ávila Rebouças, no Jardim Eldorado. A decisão de negar o pedido foi publicada na edição da última terça-feira do DOM, no rol de processos indeferidos.

Comentários

Comentários