Ciências

Tire a mão do bolso: perigo!

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 4 min

Era impossível! Hepatite B não poderia ser. Ele tomava todas os cuidados preventivos. Não estava exposto ao vírus. Como? Nunca havia sofrido transfusão sanguínea. Um dia ele leu que recuperaram vírus da hepatite B depois de 20 anos de exposição ao tempo, fora de um organismo. Isto mesmo, o vírus da hepatite B pode ficar anos ainda viável e "escondido" em algum lugar.

O bacilo da tuberculose também é muito resistente. Para eliminar este vírus e bacilo requer-se um aparelho denominado autoclave que esteriliza com segurança os instrumentos e outros materiais, inclusive tecidos.

Em um instrumento, tecido ou na agulha, se permanecerem pequenas porções, mínimas, de sangue, saliva ou outra secreção grudados nas superfícies, os componentes proteicos formarão uma película que pode proteger o vírus ou o bacilo na hora da esterilização, mesmo que na poderosa autoclave.

As bactérias como o bacilo da tuberculose são muito pequenas, em média têm a milésima parte de um milímetro ou um micrometro. Mas os vírus são muitas vezes menores e tão pequenos que no início se achava que eram moléculas de líquidos venenosos e não partículas. A palavra vírus significa veneno.

Até o início da década de 1980, nas farmácias, hospitais, clínicas médicas e odontológicas usava-se um charmoso recipiente metálico e brilhante contendo água fervente no qual se colocava instrumentos, seringas e outros apetrechos para "esterilizá-los"! Que loucura, este procedimento não esterilizava, eliminava apenas algumas bactérias, mas as mais resistentes e patogênicas podiam persistir.

Quando as bactérias tem capacidade de produzir doenças são patogênicas, mas a graduação desta capacidade se chama virulência. As bactérias patogênicas podem ter maior ou menor virulência.

E o paciente com hepatite B que tentava descobrir como pegou a doença? Este paciente era bem de vida economicamente. Certas pessoas, por insegurança ou manifestação de postura defensiva, têm a mania de colocar as mãos nos bolsos. Não que fosse pão duro. Este paciente comprava roupas caras e de marcas famosas. No Nordeste, polo industrial têxtil importante, uma calça destas marcas tem um custo muito baixo, de R$ 30,00 a R$ 40,00, mas vendidas nas metrópoles por até R$ 2 mil.

Esterilização

Nos bolsos se colocam as mãos, celular, dinheiro, recados, cartões, moedas e outros objetos: o que tem a ver com a hepatite B do paciente citado? Na parte interna do bolso da calça de grife tinha uma marca impressa: Hospital São Luiz, mas poderia ser de hospital estadunidense. O bolso foi confeccionado com matéria "prima" de lençóis importados do sul ou EUA depois de descartados de clínicas, hospitais e motéis.

O termo "prima" significa primeira vez e estes lençóis são lavados e esterilizados muitas vezes antes de serem descartados, o que permite um lençol ser reutilizado várias vezes nos hospitais. Será com os cobertores mais difícil: seriam esterilizados ou não a cada uso? A mesma preocupação se deveria ter com lençóis, fronhas e cobertores em hotéis e motéis: seriam reutilizados e devidamente esterilizados?

Se os lençóis fossem lavados e limpos rigorosamente, ainda não estariam esterilizados, apenas desinfetados. A rigor, não estariam livres de vírus da hepatite B ou bacilo da tuberculose. Mesmo submetidos à autoclave, se nestes lençóis ficarem gotículas ou pequenas porções de sangue, saliva, esperma e outras secreções, as películas formadas protegeriam ainda mais os naturalmente resistentes microrganismos. Técnicos da polícia estadunidense estão no Brasil e procuram recuperar microrganismos no material orgânico dos produtos importados.

No descarte destes produtos nos hospitais, clínicas e motéis provavelmente não adota-se o mesmo rigor na preparação para revende-los, quando comparada com os cuidados de reutilização por outros pacientes. Nos contêineres, em meio a lençóis e fronhas importados encontraram até seringas, agulhas e meias. As manchas de secreções eram comuns e podem estar no seu bolso.

Se suas roupas famosas não vêm do Nordeste, grande parte vem do sudeste asiático e China: mão de obra barata, quase escrava e infantil. Os bolsos e forros destas roupas importadas também devem ser tecidos de descarte de motéis, hospitais e clínicas. Não espera-se que seja diferente do que ocorre no Brasil. Ensina o ditado popular: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come! Então meu amigo, tire a mão do bolso e compre roupa pelo avesso.


Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. E-mail: consolaro@uol.com.br

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