Botucatu - Pesquisadores da Faculdade de Medicina (FM) do câmpus de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp) desenvolveram uma nova técnica que possibilitará a criação de uma traqueia sintética feita a partir de células-tronco do próprio receptor do transplante. O método pode reduzir o risco de rejeição após a cirurgia e aprimorar o tratamento de doenças graves nesse órgão, como câncer e estenose.
As células-tronco ou células-mãe são capazes de se dividir para originar tecidos de outras partes do mesmo organismo. Ao cultivar células-tronco extraídas da gordura de coelhos, os cientistas sintetizaram detalhadamente o tecido vivo que dá sustentação aos anéis de cartilagem que compõem o chamado tubo traqueal. Em seguida, aplicaram o material em traqueias congeladas doadas por animais da mesma espécie.
“Para que isso fosse possível, estes órgãos precisaram passar por um processo de remoção de seus tecidos originais, permanecendo apenas com o arcabouço tubular cartilaginoso que posteriormente receberia uma nova camada celular sobre si”, explica o coordenador da pesquisa, o cirurgião Raul Lopes Ruiz Júnior, professor do Departamento de Cirurgia da FM.
Para retirar o tecido original das traqueias utilizadas no experimento, os pesquisadores da Unesp precisaram submetê-las a detergentes bioquímicos e, de maneira inédita nesse tipo de operação, também a lâmpadas de LED azul. Esse diodo emissor de luz tem uma baixa radiação que destrói cadeias celulares residuais, sem prejudicar a estrutura dos anéis do tubo traqueal.
“A utilização de LED foi essencial para o sucesso da experiência, já que a presença da mais insignificante quantidade de células originais das traqueias doadas seria suficiente para causar rejeição e arruinar todo o nosso trabalho”, explica a professora Elenice Deffune, responsável pelo Laboratório de Engenharia Celular do Banco de Sangue do Hospital das Clínicas da universidade, onde a pesquisa foi desenvolvida.
A partir dessa experiência, os pesquisadores obtiveram traqueias perfeitamente compatíveis com as cobaias, já que elas mesmas foram as doadoras das células utilizadas para revesti-las novamente.
“Ao receber tecidos com a mesma identidade imunogenética de seus receptores, os segmentos traqueais que modificamos em laboratório puderam, então, ser enxertados em cada um deles sem apresentar rejeição”, afirma o professor.
Embora essa nova técnica tenha sido testada apenas em coelhos, os pesquisadores estão otimistas. “Se esse procedimento funcionar da mesma maneira em seres humanos, contaremos com um grande avanço na busca pela cura de graves doenças respiratórias, como câncer e estenose traqueais, cujo tratamento é delicado justamente por demandar transplantes de traqueia”, diz Ruiz.
“Por isso, o trabalho que realizamos pode contribuir bastante para a qualidade de vida das pessoas que sofrem com problemas desse tipo”, acrescenta.