"Se eles, que são os maiores interessados, ainda não sabem dizer quando e como vão colocar o dinheiro no Fundo (o FMI, certamente) para tirar os outros da crise, como é que eu vou saber?" A frase direta, cortante, é da presidente Dilma Rousseff, que com essa resposta praticamente deu por encerrada a entrevista que concedia à saída da reunião do G-20, em Cannes, semana passada. "Eles", provavelmente, são os alemães e franceses que lideraram os esforços para evitar o default grego utilizando recursos de terceiros, inclusive dos países emergentes, o Brasil no primeiro lugar da lista, certamente... A sensação de "perda de tempo" pareceu evidente ao final do encontro dos 20 "pesos pesados" da economia mundial, o que talvez explique o desabafo. De toda a forma, na versão da "galera" jovem, "a presidente Dilma mandou bem"...
Os membros do clube sabem, melhor do que nós, que além do problema grego, quase todos terão que lidar nas próximas semanas e meses com os protestos dos cidadãos indignados que perderam empregos e renda por conta da crise que não provocaram. A ocupação das praças que continua dando volta ao mundo, sob inspiração do grito inicial em Wall Street, é menos um protesto contra a economia de mercado e seus problemas do que um profundo sentimento de injustiça. As pessoas passaram a identificar nos governos a responsabilidade pela perda de seus empregos e a destruição dos patrimônios, assaltadas por um sistema financeiro desinibido, com suas inovações praticadas sob os olhos complacentes das autoridades monetárias. Os protestos são contra a "mágica besta" exibida pelos "estadistas" (da Eurolândia e dos Estados Unidos notavelmente), que permitem a transferência dos custos da crise para os trabalhadores que ganham (ou ganhavam) a vida honestamente e ainda estão sendo levados a pagar a conta dos governos que se apresentam como salvadores.
A repetição de fatos como esses que estamos vivendo faz lembrar a velha lição de Hegel na sua Introdução à Filosofia da História: "o que a experiência e a história nos ensinam é que os povos e os governos não aprendem nada com a História ou usaram os princípios dela deduzidos". E, no entanto, nunca antes foi tão necessário aprender com a História e tirar dela as lições que reduzam a probabilidade de repetição dos erros. Essas lições não se circunscrevem à necessidade de construir sistemas monetários e financeiros hígidos e adequadamente regulados para financiar o sistema produtivo e as inovações que são a origem do crescimento da produtividade do trabalho. A grande lição da crise é que a percepção da existência de um sólido equilíbrio fiscal de longo prazo e uma apropriada relação Dívida Pública/PIB (corretamente medida) são fundamentos do sucesso da boa governança. São esses fundamentos que dão aos governos a capacidade de assumir o papel central no enfrentamento das crises de oferta e procura globais. Com o aprofundamento da crise financeira que se intensificou nos Estados Unidos a partir de 2007/2088, poucos países puderam mostrar que os praticavam adequadamente. O Brasil não apenas confirmou aquela percepção, mas tornou-se um grande exemplo de que soube fazer a lição, com sucesso.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC