Vai quem qué, volta quem pode
Quem já passou em frente à caixa d’água do Aeroclube de Bauru em um domingo por volta das 8h, certamente reparou que, faça chuva ou faça sol, religiosamente um grande número de ciclistas se reúne por ali. São os integrantes do grupo “Vai quem qué, volta quem pode” que há 20 anos reservam as manhãs de domingo para enfrentar emocionantes trilhas de bike.
Tudo começou em novembro de 1991, quando, por ordem médica, João Aldo Paccielo, 74 anos, mais conhecido como Foguinho, passou praticar ciclismo, na companhia de dois amigos.
“Eu, o Márcio Pereira e o Gula saíamos todos os domingos de manhã para pedalar. Por conta do trânsito, optamos por andar em estradas de terra. Com o tempo, o grupo foi aumentando e, atualmente, temos 63 integrantes cadastrados”, orgulha-se Foguinho.
Devidamente uniformizados e munidos de mountain bikes resistentes, equipamentos de segurança, como capacetes e câmaras de ar reservas, além de algumas garrafinhas de água e muita disposição, o grupo percorre cerca de 40 quilômetros de trilhas.
“A distância é longa, por isso o grupo se chama ‘Vai quem qué, volta quem pode’”, justifica, rindo, Foguinho, o comandante e responsável pela organização do bando.
Além de diversão, participar das trilhas com o grupo é garantia de grandes aventuras. Foguinho, por exemplo, já perdeu as contas de quantas vezes teve de fugir de cachorro, abelhas e até mesmo bois durante o percurso.
“Me lembro que, certo dia, estávamos pedalando e passamos por um sítio onde uma moça descansava tranquilamente em uma rede. Quando ela notou nossa presença, se assustou e, literalmente, soltou os cachorros pra cima de nós. Já estávamos cansados e cachorros adoram correr atrás de bicicletas. Foi um sufoco só para nos desvencilharmos deles”, recorda, rindo.
Atualmente, para salvar o grupo de situações como esta, uma caminhonete que recebeu o nome de Anjo da Guarda, acompanha os ciclistas, que se revezam na direção do veículo.
“Ela é especialmente preparada para as trilhas e tem até quatro lugares para acomodar as bicicletas de quem desiste ou não pode continuar no meio do caminho”, explica Foguinho.
Um incentivo a mais para quem quer se aventurar junto ao grupo mas não tem certeza de que tem resistência física suficiente para enfrentar os 40 quilômetros de pura adrenalina.
“Já disse, vai quem qué. Estão todos convidados. Só que o horário de saída do aeroporto é britânico: todos os domingos, às 8h”, avisa Foguinho.
Serviço
O grupo “Vai quem qué, volta quem pode” faz trilhas todos os domingos, com saída em frente à caixa d’água do aeroclube, às 8h.
O jantar em comemoração aos 20 anos do grupo será realizado na Sociedade Hípica de Bauru no dia 25 de novembro, às 20h. Convites custam R$ 30,00 e podem ser adquiridos com Arnaldo pelo telefone (14) 8146-3535.
Opção econômica
Em janeiro de 2011, a vida de Flávio Oliveira, 22 anos, mudou completamente. Foi nesta época que ele ficou sabendo que havia sido aprovado no vestibular para cursar engenharia elétrica na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.
Com a notícia, o jovem deixou a casa dos pais, em Osasco, e se mudou de mala e cuia para Bauru, mais especificamente para uma casa no Núcleo Presidente Geisel. Estava começando uma nova fase em sua vida.
Se por um lado Flávio teve de amadurecer rapidamente, assumindo as responsabilidades de uma casa, por outro, pôde retornar à infância e viver novamente a experiência de andar de bicicleta, esquecida há anos.
“Quando cheguei na Unesp, percebi que muita gente usava a bike para vir estudar. Como eu moro perto, decidi adotá-la também. Fazia anos que eu não pedalava”, conta, rindo, ele que é a prova viva do ditado que diz que nunca se esquece como andar de bicicleta.
Para isso, Flávio investiu cerca de R$ 300,00. Contudo, já perdeu as contas de quanto economizou com gasolina ou passagem do transporte coletivo.
“É muito prático. Ainda mais que a avenida Luiz Edmundo Carrijo Coube tem uma ciclovia, o que torna o trajeto bastante seguro”, avalia.
Nos corredores da Unesp é possível notar que a magrela tem mesmo um grande prestígio. Existem dezenas delas amarradas com cadeados em postes espalhados pela universidade.
Praticidade e inspiração
Mochila, fone de ouvido, uma seleção de músicas de rap, e, é claro, uma bicicleta. Estes são os elementos fundamentais para que Matheus Marques Pinheiro, 20 anos, chegue com disposição e inspiração até o atelier onde trabalha.
Pedalar de seu apartamento, no Jardim Marambá, até sua empresa, no Jardim Aeroporto, ao som de uma boa música, funciona quase como um ritual para o jovem.
“No trajeto de casa até o serviço, me exercito, ouço música e aprecio a paisagem. Isso me deixa mais animado e me inspira a produzir. Tanto que faço questão de almoçar em casa, contabilizando quatro viagens diárias de bike”, conta ele, que, nos dias de chuva, deixa a magrela descansando e trabalha em casa.
“É simples: quando chove não vou para o atelier. Adianto alguns desenhos em casa e espero a chuva passar. É um privilégio de quem não tem patrão”, explica, rindo.
Mas não é só a inspiração que leva Matheus a trocar o carro pela bike. Com as pedaladas, é possível economizar tempo, dinheiro e manter a boa forma, pontos positivos que superam os riscos enfrentados por ele ao dividir espaço com carros, motos e caminhões, que transitam a toda velocidade pela avenida Marechal Rondon, trecho que representa a maior parte do percurso.
“Entre os pontos positivos de trabalhar de bike, posso destacar a prática de exercícios físicos, o tempo e estresse que economizo sem ter de ficar parado no trânsito. Em contrapartida, é preciso tomar muito cuidado. A bicicleta não impõe respeito aos motoristas”, afirma.
E não é somente Matheus que pensa assim. Pode parecer raro, mas ainda hoje muitas pessoas usam a bicicleta como meio de transporte oficial para chegar ao local de trabalho. Para notar isso, basta percorrer algumas ruas do Distrito Industrial, onde muitas empresas disponibilizam aos seus funcionários bicicletários para guardar a magrela com segurança. A julgar pelo número de bikes penduradas, pode-se afirmar que os funcionários usam e abusam da opção econômica e saudável.
Completamente apaixonado
Você seria capaz de viajar mais de 20 mil quilômetros a bordo de uma bicicleta? E de pedalar por horas a fio sob o sol escaldante, por puro prazer? E de investir mais de R$ 25 mil em uma bike?
Certamente, boa parte dos leitores responderá com uma negativa a todas as perguntas feitas acima e, possivelmente, duvidarão que exista alguém capaz de enfrentar todos esses desafios. Pois saibam que existe, sim, quem já fez tudo isso e está disposto a fazer muito mais. O nome dele é Edenilson Rogério Veríssimo, mais conhecido como “De”, um apaixonado por bicicletas.
Com cabelos longos, pele queimada pelo sol e uma camiseta do projeto Night Biker’s, do qual participa toda quarta-feira, ele conta que a paixão por bicicletas começou ainda quando criança e, com o passar dos anos, tornou-se cada vez mais forte, a ponto dele elegê-la como profissão e estilo de vida.
“Tive minha primeira bicicleta aos 11 anos, o que considero tardio para uma criança que era louca para andar sob duas rodas. Isso só não aconteceu antes porque minha mãe não deixava. Meu pai chegou a encomendar uma bike e ela o fez devolver sob o argumento de que era perigoso”, lembra.
Mas os apelos da mãe de De não o fizeram mudar de ideia. Aos 11 anos, fazendo alguns bicos e ganhando o próprio dinheiro, De comprou sua tão sonhada magrela. Dos 13 aos 19 anos, contou com a ajuda de sua fiel companheira para trabalhar como entregador de jornal.
“Eu amava fazer aquilo. Saía de casa de madrugada, ajudava a encadernar o jornal e depois saía para distribuí-los de bicicleta. Depois, dormia a manhã toda. À tarde, ia às bicicletarias ver se tinha um ‘bico’ pra eu fazer. Era a vida que pedi a Deus”, lembra, saudosista.
Em 1991, De deixou de lado a profissão de jornaleiro para alçar voos ainda maiores. Ele foi convidado para trabalhar em uma franquia que revendia e consertava bicicletas importadas. Lá, ficou até 1997 e teve grandes lições. Com a experiência adquirida, abriu sua própria bicicletaria.
Neste meio tempo, aproveitou para viver grandes aventuras junto de sua magrela. Entre elas, a participação em um campeonato de mountain bike, pelo qual competiu por dez temporadas, e a participação no projeto Pedal na Estrada, que fez com que ele viajasse de bike por dois anos e percorresse mais de 20 mil quilômetros, passando por países como Argentina, Paraguai, Bolívia e Uruguai.
“Não tínhamos muito dinheiro, mas também não estávamos dispostos a abandonar o desafio. Por isso, diversas vezes, utilizamos as camisetas do projeto como moeda de troca por comida e até mesmo por estadia em hotéis. Uma boa noite de sono, um quilo de arroz e feijão e uma latinha de cerveja era nosso combustível”, brinca, relembrando a aventura.
Comandante Foguinho
Em 1991, João Aldo Paccielo, mais conhecido como Foguinho ouviu do médico que precisava, com urgência, dedicar-se a algum exercício físico. Ele havia passado por um problema de saúde recentemente e, se quisesse ter vida longa, precisava, além de largar o cigarro, praticar ciclismo ou natação.
Frente às recomendações, Foguinho não teve outra alternativa senão obedecer o médico: comprou uma bicicleta ergométrica e parou de fumar.
“Comecei pedalando um pouco por dia mas logo me enchi daquilo. Achava chato ficar montado em uma bicicleta que não sai do lugar, olhando para as paredes”, conta.
Foi quando junto de mais dois amigos trocou a sala de sua casa pelas estradas de terra e trilhas existentes em Bauru, fundando assim o grupo Vai quem qué, volta quem pode’.
E então, aos 54 anos, Foguinho teve a certeza de que, uma vez aprendido, nunca se esquece como andar de bicicleta.
O tempo e os benefícios à saúde transformaram Foguinho em um apaixonado pelo ciclismo. Tão apaixonado que em 1995 ele investiu 4.200 dólares em uma bicicleta importada de fibra de carbono. Na época, uma fortuna.
Em 2005, Foguinho voltava de um de seus passeios noturnos quando um homem empunhando uma arma o encurralou, exigiu a bicicleta e lhe acertou com uma coronhada. Recuperado, Foguinho foi em busca do ladrão, que desceu a rua de sua casa pela contramão, mas não teve sucesso.
“Aquela bicicleta era o xodó dele. O esquadro era parecido com o corpo de uma guitarra”, explica Marilene Zorzela Paccielo, a simpática esposa de Foguinho.
“Foi a grande frustração de minha vida. É uma sensação terrível de impotência”, lembra, emocionado.
Em 2010, quando já não tinha mais esperanças de ver sua magrela de volta, Foguinho recebeu o telefonema do amigo De, dono de uma bicicletaria e responsável por vendê-la à Foguinho em 1995.
“Ele me ligou e disse que um homem tinha aparecido com minha bike na loja, pedindo por um conserto, e que ele tinha segurado a bicicleta lá. O homem marcou de pegá-la no dia seguinte, mas, depois, ligou adiando. Foi então que o De disse a ele para nem aparecer mais na loja, pois a bicicleta era roubada e o verdadeiro dono já havia sido informado”, conta.
O reencontro entre Foguinho e sua bicicleta foi emocionante: a magrela estava destruída pela falta de cuidado, mas continuava a mesma de cinco anos atrás.
Hoje, Foguinho exibe a bicicleta como um troféu, e tira o atraso provocado pelo roubo nas trilhas, todos os domingos, no comando do grupo ‘Vai quem qué, volta quem pode’.
Português, o expert em bicicletas
“Se a bicicletaria tem movimento? Sim, claro que tem! Graças a Deus a bicicletaria do português é bastante tradicional e a freguesia é boa. Tenho clientes até de outras cidades da região”, responde o português Antonino de Oliveira, que apesar de estar há anos morando em Bauru permanece com o sotaque de ‘s’ chiado e ‘p’ apertado, herdados da Santa Terrinha.
Antonino montou sua bicicletaria no Centro da cidade em 1956. Na época, segundo ele, as bicicletas Caloi, feitas de ferro, com quadros redondos e pneus finos e altos, eram o grande sucesso de vendas.
Além de vender magrelas, Antonino fazia os tradicionais consertos. Ofício que aprendeu ainda em Portugual, pequenino, como ele mesmo diz, ao frequentar, por curiosidade, a bicicletaria de um amigo.
“Ficava o dia todo lá dentro, vendo tudo o que ele fazia. Foi assim que aprendi a consertar bicicletas. Para falar a verdade, não tem segredo”, afirma.
Na verdade, tem segredo sim, seo Antonino: a simpatia típica do comerciante português, que faz questão de não deixar que nenhum cliente saia da loja insatisfeito.
“Hoje as coisas mudaram um pouco. Os fregueses estão mais exigentes, buscam bicicletas de qualidade, além de um bom atendimento, é claro”, justifica ele, que não perde a oportunidade de passear de bicicleta com a esposa, Amélia Mateus de Oliveira, pelas calçadas da avenida Getúlio Vargas.