Articulistas

A maçonaria e a antirrepública

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Estamos na antevéspera do 122º aniversário da República brasileira. São muito claras as dificuldades que o país enfrenta para combater práticas não condizentes com os princípios republicanos. Talvez por isso, o que deveria ser motivo para manifestações de civismo, hoje não passe de um "grande feriado". A política e os políticos carcomidos não cansam de reproduzir sua lógica patrimonialista. Apropriam-se dos bens públicos em benefício de interesses privados. O ideal grego de se lidar com a "coisa pública" (res-publica) era o de preservar o interesse coletivo. Os governantes eleitos lidam com bens que não são deles, mas que pertencem a todos. Deveriam cuidar do patrimônio coletivo, melhor ainda que dos bens pessoais, defendia Aristóteles há 2400 anos.

Mas, esta não é uma questão apenas filosófica. É uma questão de sobrevivência com liberdade e igualdade, sem as quais nada vale à pena. Na luta por este ideário muita gente sofreu perseguições, torturas e morte. Numa época em que ainda não havia partidos organizados, foi o trabalho das sociedades secretas que introduziu ideias libertárias no Brasil. A Independência foi proclamada por um grão-mestre maçom, D. Pedro I. O gesto histórico também não o constrangeu a mandar fechar a Maçonaria, em seguida, para evitar ser vítima da hidra que ajudou a criar. Mais tarde, se arrependeu. Outro maçom proclamou a República, o marechal Deodoro da Fonseca. Entre os 12 presidentes da Primeira Republica, oito eram maçons. Rui Barbosa, Quintino Bocaiuva e Benjamin Constant, do primeiro ministério, eram todos maçons (v. Laurentino Gomes, "1822", Nova Fronteira). Não sou da Maçonaria e nem acho que seu papel na luta pelas liberdades democráticas tenha sido único. Também não foi o mais decisivo. Mas, é ilustrativo. Desde a Revolta dos Alfaiates (os líderes eram dessa profissão) em 1798, na Bahia, os grupos secretos de pressão serviram à organização da sociedade civil contra o absolutismo monárquico. A própria bandeira da Inconfidência Mineira traz um triângulo verde sobre fundo branco, referência simbólica maçônica. O Brasil recebera o legado de outros gritos libertários que por aqui ecoaram. Todas as grandes transformações ocorridas no mundo no século XVIII tiveram o "olho" maçônico. Na Revolução Francesa, a Marselhesa, marcha revolucionária que se tornou Hino da França, foi composta numa loja. Nos Estados Unidos, dos 56 cidadãos que ajudaram a escrever a declaração da independência, 50 eram maçons. George Washington era o grão-mestre da Loja Alexandria, da qual fazia parte Benjamin Constant. Até hoje, as notas de dólar trazem o triângulo, o olho que tudo vê e o G, de God. Na América Latina, os libertadores Simón Bolivar, Bernardo O´Higgins e Saint Martin frequentavam a mesma loja da Grafton Street, em Londres, que ainda lá está, no número 27.

Naquela época os rebeldes tinham causa mais altruística do que a do direito de puxar um baseado no escurinho do campus universitário. Seria bom ter de volta os grupos de pressão ? não somente a maçonaria ? para motivar o exercício da cidadania. As imperfeições da república brasileira clamam por mudanças. Impossível continuar com tantos desmandos, com a desfaçatez na privatização do público e a impunidade dos ladrões da República. A Constituição elenca os principais valores republicanos, mas ninguém os cumpre. A "impessoalidade" foi substituída pelo compadrismo e as licitações viciadas; a "publicidade ou transparência" deu lugar aos conchavos de gabinetes, ou de suítes de hotéis de Brasília. A "legalidade" está desmoralizada pela prescrição; e, a "eficiência", ou seja, práticas atualizadas e competentes de gestão, simplesmente não existe porque lotearam a administração de acordo com as alianças políticas. Quem indica são os partidos da base do governo. A eficiência exigida é a de saber surrupiar sem deixar rastros, ou, quando descoberto com a mão no botim, pôr a culpa num subordinado.

A velha política teme e luta pelo fim dos privilégios. Os ministros teimam em não largar o osso, nem à bala. É necessário um despertar da sociedade e dos órgãos de controle administrativo e judicial, para que o ideal republicano seja revitalizado. Os maçons históricos fizeram sua parte e merecem a gratidão do povo brasileiro. Agora é com a gente.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

Comentários

Comentários