Cultura

"A Primavera do Dragão"


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Escrever uma biografia - ainda mais quando se trata da de um ícone da cultura brasileira - pode ser uma tarefa capciosa. Para ser bem-sucedido, é preciso pesquisar exaustivamente, ter distanciamento crítico, confrontar informações com diferentes fontes e, de preferência, trazer à tona detalhes biográficos até então ignorados. Esse rigor metodológico, um dos fatores que, inclusive, conferem prestígio ao gênero, está sendo colocado em xeque na nova biografia escrita por Nelson Motta: "A Primavera do Dragão - A Juventude de Glauber Rocha".

Na obra, realizada com seis meses de pesquisa (quatro meses em 1989 e mais dois em 2010), o autor conta quem foi o cineasta Glauber Rocha a partir de sua juventude. "Quis mostrar os primeiros 25 anos da vida de Glauber, até ele ser consagrado no Festival de Cannes, em 1964, com ?Deus e o Diabo na Terra do Sol?." Tarefa árdua para o pouco tempo de entrevistas. O escritor Ruy Castro, por exemplo, demorou cinco anos para concatenar os fatos da vida de Carmem Miranda numa biografia. No caso do livro de Motta, os fatos estão sendo, inclusive, desmentidos por amigos de Glauber Rocha que são citados no livro.

Uma das acusações mais graves diz respeito ao capítulo intitulado "Comandos Justiceiros", que conta quando o cineasta e amigos tentaram pichar um navio espanhol, no final dos anos 50, em protesto contra a ditadura franquista. Um dos citados, Fernando da Rocha Peres - apelidado erroneamente pelo autor de Bananeira (o apelido, na verdade, é de Fernando Rocha, outro amigo de Glauber) - disse que o fato não aconteceu.

O capítulo, entretanto, traz trechos descritivos: "...Um apito grave, longo e soturno encheu a noite do cais e assustou a tripulação do bote formada por Bananeira, Glauber, Anísio e, apesar de suas condições físicas precárias, Calá - o pintor oficial do grupo -, que fora embarcado sob protestos à força". Questionado pela reportagem, Motta admite que tanto esse trecho, quanto outros que mostram conspirações para sequestrar políticos e explodir bancas de jornais não são reais. "Esses episódios são frutos da fantasia dos jovens anarquistas", ele diz.

E completa: "O João Ubaldo Ribeiro e o próprio Glauber Rocha me contaram aos risos. Nenhum leitor vai levar isso a sério, né? Eu coloquei para mostrar o espírito brincalhão do Glauber", diz. Cabe dizer que, a julgar pelas descrições e pela falta de indicações de que se trata de uma brincadeira, o leitor tem a impressão de que lê sobre um fato verídico.

"Farei alterações na próxima edição, que sai até o dia 15 de novembro", diz Motta. O autor, porém, não pretende modificar esse capítulo. O que será modificado será um outro trecho, que fala de um assalto ocorrido na casa de Glauber quando ele estava às vésperas do vestibular. No episódio, Motta cita Bananeira e Guerrinha - amigos de Glauber - como tendo presenciado o cineasta tentando convencer um ladrão de que, na verdade, este era uma vítima da desigualdade social. Nenhum dos dois, porém, se lembra do fato.

"Ouvi essa história do Glauber
Rocha e da mãe dele, Dona Lucia. Ela pode ter se confundido em relação aos dois amigos presentes e, por isso, substituirei o nome deles pela expressão ?dois amigos?", afirma o autor. Mas fato é: se os citados pela mãe de Glauber e pelo próprio cineasta estavam vivos, não teria sido de bom tom checar com eles suas versões dos fatos?

Tantas questões acabam tirando o brilho de "A Primavera do Dragão" que, apesar dessas contendas, é a 13.ª obra mais vendida do País - sorte ou azar, da lista dos livros de não-ficção.

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