Um impasse deve perdurar, ao menos até o ano que vem, entre os setores que debatem a definição dos cursos que serão oferecidos pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), que será implantado em Bauru. De um lado, o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) defende que eles atendam exclusivamente a necessidade mercadológica, evitando que haja duplicidade na oferta (leia mais abaixo). Por outro, a prioridade da administração municipal é o atendimento a parcela mais carente da população. O assunto só deve ser retomado no ano que vem, em uma audiência pública.
Um encontro realizado no último dia 3, na prefeitura, avaliou as propostas apresentadas pelos setores da sociedade envolvidos, como Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho (Sert), instituições de ensino e do Sistema S (Senai, Sesc, Ciesp), e outras secretarias municipais, como a Assistência e Bem-Estar Social (Sebes). O prefeito Rodrigo Agostinho e a vice-prefeita, Estela Almagro, participaram.
Com pontos de vista semelhantes, Comissão Municipal de Emprego e Ciesp defendem que a decisão dos cursos deve ser pautada por um estudo apresentado pelo Senai que demonstra os setores da economia que já são atendidos por formação técnica, através de cursos pagos ou gratuitos, em cinco instituições de ensino da cidade.
Edson Dias Bicalho, presidente da comissão de emprego, afirmou que o estudo do Senai comprova que já existe duplicidade em diversos setores de formação tecnológica. "Vamos tentar consensuar uma proposta para indicar os cursos que devem ser trabalhados. Queremos aperfeiçoar isso e compor cursos que atendam interesses da nossa cidade e região, para que não haja duplicidade e principalmente que atendam a demanda das áreas que precisam de mão de obra qualificada."
O presidente ressaltou que existem diversas áreas de formação em Bauru e região que não possuem oferta em nenhuma instituição de ensino, enquanto existe a procura por parte de alunos. Ao mesmo tempo, em outros setores em que existe oferta de cursos, não há demanda de alunos, mesmo naqueles em que as aulas são gratuitas.
Em até três anos de funcionamento o IFSP deve oferecer cinco cursos, em uma área de 6 mil metros quadrados de construção, com 60 professores. Devem ser abertas vagas para 1.200 alunos.
Ciesp defende a ?necessidade mercadológica?
O diretor regional do Ciesp, Domingos Malandrino, defende que o Instituto deve oferecer apenas formação não disponível em Bauru e região, priorizando a necessidade mercadológica, apontada pelo levantamento apresentado pelo Senai. O diretor é contrário à proposta de que o Instituto priorize a questão social na definição dos cursos que irá oferecer. A carência na formação básica e fundamental dos alunos das redes públicas estadual e municipal dificultaria o papel social do Instituto, em sua opinião.
"O ponto de vista do setor empresarial é que deve ser considerado o levantamento técnico que foi feito, avaliar setores produtivos que temos na região e ver aquilo que não tem cursos que contemplem qualificação de mão de obra para esse setor. Privilegiar o que não temos", resumiu o diretor.
Outra sugestão do Ciesp é que os cursos do Instituto sejam flexíveis na formação dos alunos, podem ser adaptados de acordo com a necessidade atual de mercado. "Temos que pensar em cursos que venham e que se fizermos pequenas alterações na grade possam ser mudados". Como exemplo, Malandrino citou a qualificação da mão de obra para a indústria do plástico, uma carência do mercado de trabalho de Bauru, apontada pelo levantamento do Senai. O curso do setor poderia ser alterado para uma formação específica em sopro, injeção ou para área química.
Sobre as diferenças de pensamento na definição dos cursos, Malandrino voltou a defender a necessidade de atender o mercado produtivo de Bauru e região. "Estamos tentando mostrar que não dá para fazer bem estar social ou inclusão social com esse curso. O curso é para inserir profissional no mercado e não dá para fazer benevolência. A oportunidade (para alunos carentes) já é o fato de ser gratuito (o curso). O problema é que as escolas de ensino fundamental e médio não dão preparo suficiente para o jovem da periferia reivindicar uma vaga num curso como esse, porque ele não vai ter condições de passar na pré-seleção", concluiu.
?Sem conflito?
A titular da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), Darlene Tendolo, nega que exista conflito entre as prioridades apontadas pelos setores que debatem a formatação do Instituto. Para a secretária, a discussão passará a ser mais ampla com o ingresso de Bauru no Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), lançado na terça-feira, em Brasília.
"Faz parte do Pronatec o Instituto Federal de Ciência e Tecnologia que Bauru foi contemplado e faz parte a implantação de inúmeros cursos que servirão a população. E o público alvo, prioritariamente, são as pessoas que fazem parte dos programas sociais de transferência de renda", explicou Darlene.
O diagnóstico apresentado pelo Senai é importante para definir a mobilidade na formação do trabalhador, mas a prioridade, ressaltou a secretária, são os beneficiários dos programas federais. "Não vai haver sobreposição de cursos. Tem vaga para todo mundo", garante.
A Sebes pretende realizar um encontro no próximo dia 18 , entre os setores que apontam os cursos ideais para o Instituto, mas defende que a discussão agora é mais ampla. "A discussão anterior foi muito importante,o diagnóstico é extremamente importante. Respeito a posição de todo mundo, temos que ouvir todos. É parte fundamental as pessoas se manifestarem, não vejo como divergência", concluiu.