A qualidade de vida do portador de diabetes melhora, as pesquisas em relação à doença avançam, há informação qualificada, porém, as pessoas ainda se mostram pouco sensíveis em relação à epidemia de diabetes. O diabetes tipo 2 atinge 90% das pessoas, enquanto o restante é portador do tipo 1 da doença. Estima-se que sejam 300 milhões de pacientes em todo o mundo e a Organização das Nações Unidas (ONU) há muito já tipificou como uma epidemia. As discussões sobre a doença são reforçadas hoje, Dia Mundial do Diabetes.
O médico endocrinologista clínico e pesquisador Freddy Goldberg Eliaschewitz define que o avanço do diabetes tipo 2 trará como consequência uma epidemia de infarto do miocárdio e insuficiência renal, tratada com diálise. Ele baseia sua projeção no fato da correlação do diabetes tipo 2 com as complicações renais e cardiovasculares.
Ele alerta que o problema é de saúde pública gravíssimo porque hoje há uma epidemia de obesidade, que provoca o tipo 2. Eliaschewitz ressalta que, no Brasil, estima-se que 12% da população adulta acima de 30 anos é atingida pelo diabetes tipo 2.
O endocrinologista cita que o resultado será um impacto econômico violento nos orçamentos de saúde pública do mundo inteiro e na qualidade de vida das pessoas muito jovens. Em relação ao diabetes tipo 1, ele defende que a administração de insulina é parte de um processo de abordagem de um tratamento multidisciplinar, com apoio psicológico e educacional e que seja muito bem conduzido.
"Infelizmente, nós ainda estamos engatinhando em prover essas necessidades. Em alguns centros de excelência já conseguimos fazer a lição de casa em relação ao diabetes tipo 1. Infelizmente abrange uma minoria", define. Eliaschewitz é chefe do Setor de Endocrinologia do Hospital Heliópolis e coordenador do Núcleo de Terapia Celular e Molecular (Nucel), da USP.
A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Bauru atende 8.908 pacientes diabéticos dos dois tipos cadastrados nas Unidades de Saúde da rede municipal. Centenas de pacientes são acompanhados pelos serviços particulares na cidade. Não há dados precisos em Bauru que quantifique com exatidão o número de portadores do tipo 1 e do tipo 2.
O dia de hoje é mais uma oportunidade para mobilização, quando se comemora o Dia Mundial do Diabetes - acesse o site www.diamundialdodiabetes.org.br.
"Morte"
A dentista Lilian Maria de Seixas Morato Pinto de Almeida, 66 anos, teve a sensação de condenação à morte ao ser diagnosticada como portadora de diabetes tipo 2. "Fiquei arrasada", relembra. A sensação de impotência vivida por ela, há 15 anos atrás, foi momentânea e um alerta de vida. Lilian cita que sua primeira dosagem glicêmica foi de 390. Para ela, disciplina é fundamental para que o portador da doença pense em qualidade de vida. Não por acaso, uma alimentação dosada, criteriosa e rica em qualidade soma-se a exercícios físicos e medicação.
No entanto, Almeida se revigora como ativista em prol da conscientização para o enfrentamento da diabetes. Ela comenta que, nesta semana, estava em uma fila de um supermercado e se alertou para a conversa travada por senhoras sobre problemas de saúde. Almeida conta que, quando percebeu, já estava fazendo uma palestra para as pessoas que ficaram atentas às informações.
Ela integra um grupo de pessoas da Associação dos Diabéticos de Bauru (ADB) que travam um cabo-de-guerra diário contra o diabetes. Enquanto a doença é silenciosa, o pessoal da ADB faz "barulho" para que todos e o poder público, nas diversas esferas, entendam o perigo do diabetes.
Pesquisadores perseguem a cura
No diabetes tipo 1 ocorre a destruição das células que produzem insulina pelo sistema imunológico. O que há de mais avançado em termos de busca da "cura" ainda necessita de avanços.
Uma das pesquisas em fase inicial e bastante interessante é feita pela equipe de transplante de células-tronco da Universidade de São Paulo (USP), campus de Ribeirão Preto. Imagine se um portador de diabetes tipo 1 pudesse começar de novo. Ou seja, como se faz quando o computador dá pau e se reseta o sistema e se reinicia a máquina. Esse estudo foi apresentado em outubro último no Congresso da Sociedade Brasileira de Diabetes, promovido em Brasília.
O estudo da equipe da USP Ribeirão, comandada pelo pesquisador Júlio Voltarelli, é para diabético tipo 1 e com diagnóstico recente, feito há cerca de seis semanas. Com essa característica, o paciente ainda produz as células que produzem insulina. O médico endocrinologista clínico e pesquisador Freddy Goldberg Eliaschewitz ressalta que a ideia é interromper, destruir o sistema imunológico. Antes, se colhe células- tronco da medula e acondiciona. As células-tronco não têm memória do sistema imunológico. O paciente tem que ser vacinado novamente contra tuberculose, sarampo, catapora, rubéola e demais.
"Assim você dá uma segunda chance para o sujeito não desenvolver o diabetes", avalia Eliaschewitz. Ele diz que o estudo é muito recente para se fazer qualquer tipo de projeção além do que já se obteve com estudos com um grupo restrito de pacientes.
O endocrinologista cita que há um risco de que o paciente contraia infecção generalizada devido à destruição do sistema imunológico. O diabetes tipo 1 é uma doença auto-imune. O sistema imunológico responsável pelas defesas naturais do organismo reage quando reconhece algum agente infeccioso. Ataca esse vírus ou bactéria até destruí-lo.
Por algum motivo ainda desconhecido, nas pessoas com diabetes tipo 1, o sistema imunológico resolve atacar as células produtoras de insulina no pâncreas. Por isso, esse processo é chamado de auto-imune.
O que os pesquisadores relatam é que a possível causa é resultado 30% da genética e 70% dos fatores ambientais.
Sistema imunológico
Conforme os pesquisadores, os resultados verificaram a existência de células do sistema imunológico que não foram destruídas na quimioterapia ? método de desligamento do sistema imunológico. Neste ano, foi iniciado um novo estudo semelhante usando um esquema de quimioterapia mais agressivo, aprovado pelo Comitê Nacional de Ética e Pequisa da Food and Drug Administration. Serão incluídos somente pacientes recém-diagnosticados.
A equipe começou outra pesquisa com célucas-tronco mesenquimais, responsáveis por regenerar tecidos e propriedades imunomoduladoras. As células podem bloquear a auto-imunidade e regenerar as células que produzem insulina. Para isso, um parente do paciente precisa ir até ao centro de estudo, há uma pequena cirurgia para retirada de um pedaço da medula óssea.
A equipe prepara material para que haja proliferação das células mesenquimais. Quando inseridas no paciente, estas migram direto para as células inflamadas no pâncreas. Conforme os pesquisadores, o procedimento implica em oito infusões endovenosas, sem efeito colateral.
Somente participam desse estudo pacientes recém-diagnosticado de 5 a 18 anos.
Estudos sobre transplante avançam
O procedimento de transplante está em fase mais adiantada de desenvolvimento. Segundo o endocrinologista clínico e pesquisador Freddy Goldberg Eliaschewitz, o caminho hoje do transplante de ilhota se desenvolve sem a necessidade da administração de drogas que evitam a rejeição - imunossupressoras.
O procedimento com o transplante de ilhota serve a um grupo restrito com condições específicas para diabéticos tipo 1, que já tomam drogas para evitar a rejeição, como os transplantados de rins, ou pacientes raros em que não se controla a glicose com múltiplas injeções de insulina.
O endocrinologista explica que as células que produzem insulina estão espalhadas no pâncreas em estruturas denominadas ilhotas - ilha pequena -, que juntas representam somente 1% a 2% do volume total do pâncreas. Esse órgão tem em sua maior glândula a produção do suco pancreático - digestivo.
As ilhotas são responsáveis pela produção de hormônio. Atualmente, o tratamento de "cura" do diabetes tipo 1 é o transplante com implantação de um outro pâncreas. A cirurgia é complexa.
Nessa situação, o paciente passa a ter dois pâncreas, o seu órgão que não tem as células produtoras de insulina, mortas pelo sistema imunológico. E recebe um outro que produz insulina. Há também o risco da rejeição do órgão doado havendo a necessidade da aplicação de drogas imunossupressoras e que causam efeitos colaterais.
Eliaschewitz explica que o paciente não precisa de um segundo pâncreas, mas somente de células produtoras de insulina e que foram destruídas pelo próprio sistema imunológico.
O transplante consiste em, no laboratório, separar as ilhotas após a retirada do pâncreas e injetar as ilhotas no fígado do paciente onde será produzida a insulina. O endocrinologista comenta que, mesmo com o transplante de ilhota, o paciente necessita do medicamento para evitar a rejeição das ilhotas.
O procedimento é feita com anestesia local, durante cerca de 40 minutos e recuperação rápida. "Em tese, no dia seguinte o paciente sai dirigindo sozinho", acrescenta Eliaschewitz.
O transplante de ilhota ganhou destaque, principalmente, a partir de 2000 com vários grupos se formando no mundo afora para a implementação do novo procedimento.
No entanto, surgiu um retrocesso quando se observou que as células não se reproduziam no fígado, produziam insulina enquanto cumpriam seu ciclo de vida e a produção do hormônio não atendia as necessidades do organismo.
Gradativamente, o paciente volta a precisar de insulina. Atualmente, o transplante de ilhota vive um período de pesquisa em que se busca alternativas de implantes e outros procedimentos de transplante. Um deles é colocar as ilhotas em cápsulas semipermeáveis, com a insulina e os nutrientes saindo. A glicose penetra, porém os anticorpos não entram.
Amplo atendimento
Na Associação dos Diabéticos de Bauru (ADB), a dentista Lilian Maria de Seixas Morato Pinto de Almeida, 66 anos, portadora do diabetes tipo 2, trabalha lado a lado com a vice-presidente da entidade, Rita Kátia Almeida de Oliveira, para a melhora da qualidade de vida dos associados.
Oliveira comenta que o pessoal recebe atendimento psicológico, nutricional, arte terapia e palestras mensais. Segundo ela, a entidade fornece kits alimentares com verduras, legumes e frutas para cerca de 25 pacientes que não têm dinheiro para custear a cesta de alimentos fundamental para o controle do diabetes.
Hoje, Dia Mundial do Diabetes, uma seringueira da Praça da Paz será iluminada numa iniciativa da ADB, em parceria com o Jornal da Cidade. No dia 19 deste mês, a ADB fará um trabalho de conscientização no Calçadão, com distribuição de panfletos e teste de glicemia. No dia 26, será promovido na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP), subseção Bauru, um encontro de diabéticos.