João Rosan |
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Gabriel Ruiz Pelegrina explica a relação de Bauru com a Proclamação da República. |
Em 15 de novembro de 1889 o Brasil deixava o regime monárquico e se tornava uma república. Para a historiadora e professora aposentada da rede estadual de ensino e da Universidade Sagrado Coração (USC) Vera Lúcia Pereira Telles Nunes, esta deve ser considerada a data mais importante para os brasileiros desde a Proclamação da Independência por Dom Pedro I.
“Dentro do contexto da época em que aconteceu a Proclamação da República, podemos dizer até que foi um momento mais importante que a própria Independência, uma vez que quase toda a América Latina já vivia intensamente movimentos republicanos e o Brasil ficava para trás. Foi quando o marechal Deodoro da Fonseca, liderando um golpe, proclamou a república brasileira e tornou-se o primeiro presidente do País”.
Apesar de sua importância, a data não é lembrada com tanto apreço pelo brasileiro. Foi isso que a reportagem do JC constatou quando foi à rua XV de Novembro, no Centro de Bauru, para questionar o que a população sabe sobre o que representa o dia de hoje para a História do Brasil e, ainda, se o bauruense conhece a grande personalidade que fez com que 15 de novembro se tornasse um feriado nacional.
“Não me faça pergunta difícil”, foi o que respondeu uma atendente de telemarketing de 32 anos se justificando: “Eu fugia dessa aula (de História)”.
Apesar disso, a maioria dos abordados não pensou muito para responder corretamente que essa data é marcada pela Proclamação da República, porém, poucos foram os que se lembraram da figura de marechal Deodoro da Fonseca.
Diferentemente de alguns que chegaram a citar Dom Pedro I, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e até mesmo Getúlio Vargas, o agricultor aposentado Antônio José Sena, 51 anos, demonstrou firmeza e certeza em sua resposta: “No dia 15 de novembro é comemorada a Proclamação da República por Marechal Deodoro em 1889”.
Ao contrário de alguns questionados que demonstraram desinteresse na história brasileira, ele se mostrou interessado no assunto e ainda criticou a falta de comprometimento dos mais jovens com a Pátria. “Não é que a educação está ruim, pelo contrário, hoje as coisas estão muito mais adiantadas do que no tempo que eu trabalhava na roça e ia à tarde para a escola na fazenda. Acontece que hoje eles (jovens) se preocupam muito com as tecnologias e se esquecem de coisas que não podemos deixar passar”.
Explicação
De acordo com a professora Vera Lúcia Pereira Telles Nunes, a falta de conhecimento da maioria dos brasileiros em relação às datas históricas e momentos marcantes do País é justificada pelo próprio curso natural da História. “No Brasil, as grandes manifestações e os grandes movimentos de libertação não nasceram nas classes mais baixas e sempre foram polarizados. Temos como um grande exemplo a própria Proclamação da República, que foi um golpe de militares e da classe mais rica. Nesse caso, não existia no País a classe média. Ou eram os ricos, ou os pobres”, diz.
Bauru não tem nome de rua para homenagear 1º presidente do País
Floriano Peixoto, Prudente de Morais, Campos Sales, Rodrigues Alves e Afonso Pena. Em ordem, do segundo ao sexto presidente da república do Brasil. Além desta constatação, o que é comum à estes cinco ex-presidentes brasileiros é que todos dão nome a ruas da cidade, o que é costume em todo o território nacional. “Não é difícil encontrar ruas e praças com nomes de pessoas importantes do Brasil e de datas que marcaram a nossa história, como é o caso da rua XV de Novembro, aqui no centro de Bauru”, explica o historiador Gabriel Ruiz Pelegrina.
Aos 90 anos, ‘seo’ Gabriel goza de um acervo pessoal incrível e uma memória de dar inveja a qualquer um. Requisitado quando o assunto é a história do município, é ele quem faz uma revelação que poderia passar desapercebida: “Bauru é uma das poucas cidades brasileiras que não tem nenhuma rua ou avenida com o nome do primeiro presidente brasileiro”.
Procurado pela reportagem do JC ontem, ele revelou mais uma ‘preciosidade’ de seu acervo: a cópia original da Carta Magna assinada por Deodoro da Fonseca garantindo a liberdade religiosa na então ‘nova república do Brasil’. “É um documento muito importante e que tenho aqui em minha casa a cópia original. Agora, sinceramente não sei porquê Bauru não tem nenhuma rua com o nome do marechal Deodoro. É um caso raro em todo o País”, comenta.
‘A nossa experiência republicana ainda engatinha’, diz historiadora
Em 1889, governado pelo imperador Dom Pedro II, o Brasil passava por grandes problemas em virtude da abolição da escravidão em 1888. Naquele momento, os proprietários de terras se viam sem os serviços dos negros e precisavam contratar imigrantes para trabalharem nas lavouras. “Somado a essa insatisfação da elite, temos a Guerra do Paraguai (de 1864 a 1870), onde soldados brasileiros receberam incentivos de Argentinos e Uruguaios na implantação da República no Brasil”, afirma a professora Vera Lúcia.
Aproveitando-se da fragilidade do governo de Dom Pedro II, marechal Deodoro da Fonseca proclamou a República. “Num primeiro momento, os responsáveis por essa conspiração montaram um governo provisório, sendo que Deodoro da Fonseca permaneceu como presidente. Benjamin Constant, Rui Barbosa, Campos Sales e outros que participaram do movimento formaram os ministérios”.
De acordo com a historiadora, mesmo após mais de 120 anos após a data memorável, o Brasil ainda atravessa o processo de proclamação da república. “Podemos dizer que nossa experiência republicana ainda engatinha. Isso deve-se ao fato de termos sempre uma visão de dinastias no poder. Na época, o ‘povão’ brasileiro tinha uma imagem de Dom Pedro II como sendo um bom velhinho. O mesmo acontece com nossos políticos que fazem seus discursos eleitorais longe da realidade, mas que acabam cativando o povo. É por isso que existem famílias no poder, existe corrupção e desvio de dinheiro público. Naquela época (da proclamação da República) o povo assistiu atônito da rua o movimento e não entendeu nada”, conclui.
