A falta de estadistas na liderança da maioria das grandes nações do globo tem complicado fortemente a solução de alguns dos mais dramáticos problemas da humanidade. Isso está evidente desde o início da crise financeira que se instalou nos Estados Unidos há 4 anos e voltou a explodir há pouco mais de um ano na Eurolândia, produzindo a enorme instabilidade que hoje domina os mercados mundiais.
Praticamente todas as semanas vêm à luz novas dificuldades escondidas na incestuosa rede de crédito construída ao longo dos anos de "moderação" entre o sistema financeiro, os governos que corromperam suas contas fiscais e as agências de risco que emprestaram seu aval para dar "conforto" ao incauto investidor final. A volatilidade dos mercados é às vezes reduzida provisoriamente por alguns sinais positivos, como a aprovação do "acordo" para "salvar" a Grécia e a mudança para melhor no comando do Banco Central Europeu, com a posse do excelente economista italiano Mário Draghi.
Infelizmente, as "incertezas" que continuam sufocando a economia mundial não se localizam somente na governança ou no plano dos "homens práticos" que costumam agir de acordo com as idéias de "economistas falecidos", mas atingem, também, os "economistas vivos". Muitos deles se confessam surpreendidos pela gigantesca distância entre os seus modelos macroeconômicos que "supunham" como deveriam funcionar os agentes e os mercados e os fatos que estamos vivendo. Para mostrar a confusão que atinge os "homens práticos" e a "academia? que costumava aconselhá-los, costumo lembrar a já célebre conferência de Lindau, na Alemanha em agosto deste ano. Ela reuniu apenas "prêmios Nobel", alguns (como o exibicionista Stiglitz) tentando provar que não apenas a profissão foi incapaz de prever a crise, como seus falsos conhecimentos ajudaram a produzi-la. Outros, como o excelente Edmund Phelps, reconheceram que a profissão "cometeu um sério erro quando abraçou as "expectativas racionais" da qual derivaram-se modelos altamente mecânicos que não têm a nada a dizer sobre nosso presente".
Um prêmio "ingenuidade e descompromisso" caberia ao magnífico matemático Roberto J. Aumann, Nobel de Economia em 2005. Irritado com o nihilismo dos companheiros nobelistas, sentenciou com energia: "Toda essa conversa a respeito dos economistas serem responsáveis pela atual crise é absolutamente sem sentido. Eu penso que a ciência econômica fez uma tremenda contribuição para a prosperidade que testemunhamos, como as políticas macroeconômicas e o comportamento contra-cíclico dos bancos centrais". Sem ignorar a contribuição de Aumann à teoria dos jogos (e à emergência das instituições), devemos observar que há controvérsia!
No Brasil, diminuíram as incertezas sobre a hipótese básica do Governo que orienta uma política econômica defensiva sob a perspectiva que a situação econômica e social do mundo vai ainda agravar-se antes que, num período não inferior a 2 ou 3 anos, os EUA voltem a crescer e a Eurolândia construa um sistema de controle fiscal adequado. É um dos poucos cenários de acerto. Ele exige, no entanto, que não haja nenhum novo problema de percurso mais sério. Por exemplo, que nenhum dos Bancos Centrais, (principalmente o FED o BCE e o da Inglaterra), fique paralisado diante da eventual quebra de um banco que seja um "nó" importante na rede de crédito internacional.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC