Sangramento ao urinar, devido aos coágulos que se formam dentro da bexiga, dores quase que insuportáveis nos ossos, morte lenta... Por mais chocantes ou repulsivos, até mesmo de leitura, que esses sinais possam parecer, é exatamente isso o que pode acontecer caso a vítima tenha se negado a se submeter a um procedimento simples, rápido, indolor, mas ainda carregado de preconceito.
O exame de próstata - realizado através do famigerado, mas necessário, toque retal, aliado à coleta de sangue para aferição do nível de PSA no sangue ? é o meio para combater os tristes efeitos citados no parágrafo acima. Campanhas educativas na mídia não faltam. Contudo, o preconceito é a maior ferramenta da ignorância, resultando num prognóstico de 12 mil mortes pela doença no Brasil, apenas neste ano.
Os números são da Sociedade Brasileira de Urologia, que, antes mesmo do fechamento do ano, já trabalha com o prognóstico de 52 mil novos casos para o período. "Doze mil mortes que poderiam ter sido evitadas", lamenta o urologista bauruense Aguinaldo Nardi, presidente eleito da Sociedade Brasileira de Urologia ? assumirá o comando da entidade nacional em janeiro.
Para o especialista, o grande propulsor de mortes em virtude da doença ainda são, além do preconceito, a tendência natural masculina a "empurrar com a barriga" a ida ao médico. Geralmente, observa Nardi, o homem só busca auxílio médico quando os sintomas de eventual patologia tornam-se incômodos demais. "A mulher vai ao ginecologista uma vez por ano, sabe que tem de prevenir a gravidez indesejada, câncer de colo de útero, entre outros problemas. O homem não tem essa visão, de que deve cuidar da saúde", compara.
Para amenizar esse quadro, na semana passada, quando se reservou a quinta-feira (dia 17) como a data nacional para o combate da doença, o Instituto Bauru de Saúde lançou a campanha "Novembro Azul".
Inspirada justamente no exemplo de cuidado feminino com a saúde, que reservou o mês passado, o "Outubro Rosa", para alertar as mulheres a manter a preocupação na prevenção ao câncer de mama, a instituição inovou ao colorir, com apoio do Jornal da Cidade, um dos parceiros da iniciativa, a Praça Portugal, na zona sul da cidade, com a iluminação azul, alusiva à campanha.
Na quinta-feira, voluntários da entidade percorreram o calçadão da rua Baptista de Carvalho, no Centro; Bauru Shopping e a própria praça que recebeu iluminação especial, onde distribuíram folhetos explicativos e fitas na cor azul, um dos símbolos da campanha. "Queremos mudar este quadro (de mortes por falta de exame) e quebrar o tabu do preconceito", vislumbra a Maria Fernanda Tissato, assistente social do instituto.
E foi justamente uma campanha de educação que salvou a vida do motorista Luís Roberto Rocha, de 52 anos. Três anos atrás, uma rotineira ida ao supermercado foi crucial. "Eu fazia compras quando fui abordado por um amigo que estava na campanha. Após ser informado, fiz o exame pela primeira vez, aos 49 anos, e fui diagnosticado com a doença no estágio inicial", recorda.
Mal silencioso, assintomático nos primórdios de desenvolvimento, o câncer de próstata é traiçoeiro e só pode ser descoberto caso a população masculina com mais de 45 anos ? a partir dos 40 caso hajam familiares com a mesma doença, alerta o médico Nardi ? se dê conta de que é preciso disciplina nos exames, realizados anualmente. "O exame preventivo me salvou", comemora Luís.
Idade e sedentarismo
são fatores de risco
Estar com idade acima dos 45 anos é um dos fatores de risco para o desenvolvimento da doença. Contudo, além da idade e antecedentes familiares, existem outros, elenca o urologista Aguinaldo Nardi. "Vida sedentária e tabagismo são fatores", observa o urologista, afirmando que obesos sofrem ainda mais com o câncer de próstata.
Segundo ele, a doença é ainda mais agressiva nesta parcela da população. O sedentarismo, atenta o médico, também pode acelerar o desenvolvimento de tumores. "Durante a vida, o indivíduo produz diversas substâncias tóxicas no organismo, como os radicais livres, entre outras. O sedentarismo leva ao acúmulo dessas substâncias, prejudicando de maneira global a programação de morte celular no organismo, chamada apopitose", explica. "A célula não morrendo quando deveria, ocorre a produção de células anormais, resultando em câncer", acentua, citando também o tabagismo como forma de acelerar a bomba relógio do câncer de próstata.
Uma recente pesquisa do Datafolha, encomendada pela própria Sociedade Brasileira de Urologia, mostra que o preconceito é um dos principais entraves para que a maioria faça os exames e, desta forma, diagnostique a doença em seu estágio inicial.
Nesta fase, acentua o médico, as chances de cura são de 95%. Passado o estágio inicial é que os sintomas começam a aparecer. Nesta etapa, atenta Nardi, não há cura, apenas tratamentos para conter a doença.
E era justamente o preconceito que evitava com que o técnico em eletrônica aposentado Paulo Sirines Afonso, de 56 anos, empurrasse com a barriga a obrigação em passar por exames preventivos completos. Foi numa aferição de PSA (Antígeno Prostático Específico, analisado através de coleta sanguínea), que ele desconfiou.
Após exames completos, a doença foi diagnosticada. "Fiquei arrasado, pensei "morri"". Para a sorte do paciente, o câncer estava em estágio inicial e, por meio de cirurgia, mesmo procedimento a qual o motorista Luís Roberto Rocha foi submetido, ele retirou o tumor e a ameaça à vida. "A gente não percebe nada, mesmo estando com a doença", salienta. "O exame de rotina salva vidas", incentiva.
Apesar do PSA ser importante para a detecção de problemas na próstata, o procedimento, observa o urologista, não é determinante para o câncer. "O PSA é um exame complementar, que afere o nível de uma proteína, produzida pela próstata no sangue", especifica. "Mas ele não é específico para o câncer e sim para a próstata, que pode ter inflamações e outras doenças, como a hiperplasia benigna", exemplifica.
A maior certeza e, consequentemente, segurança ao paciente, é aliar os exames de toque retal com a coleta de sangue para aferição do nível de PSA. "O exame de toque é muito rápido, não fere a masculinidade de ninguém. É um exame comum como qualquer outro. Quando a pessoa vai ao otorrino, examina a boca, o ouvido, o nariz", compara. "Não fere ninguém", tranquiliza.