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A alma boa da Dilma

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

As pessoas se emocionam menos, dificilmente ficam indignadas, hoje em dia. Como dizia uma velha amiga jornalista,  nada mais a surpreende, depois de ver tanta miséria humana na sua trajetória profissional. Cada vez mais prevalecem critérios "racionais", "frios", "inteligentes", "pragmáticos". Talvez esse sentimento do mundo, produto das efusões de um mundo dinâmico e tecnológico explique o porquê da presidente Dilma Rousseff não ter ainda se livrado do "pesadão" Carlos Lupi, seu ministro "trabalhoso". Lupi, que em latim é plural de lobo, já deu a Dilma todos os motivos para que ela use a bala de prata, capaz de dar fim à carreira desse sugador das finanças públicas. No entanto, como aconteceu em outras situações semelhantes, Dilma vai dando sobrevida ao "companheiro de 30 anos", irresistível com sua declaração de a mor. A charge do genial Fernando, colega de página  aí de cima, quinta-feira, sintetiza a situação tragicômica em que vivemos. O avião que Lupi jura não ter usado faz um looping em forma de coração para homenagear a amada Dilma.

Nem as novas evidências de corrupção e as ameaças do próprio partido de abandonar o seu ministro, para não perder o Ministério, demovem a presidente Dilma. Confirmada a saída de Lupi, será o sexto ministro a deixar o governo, em menos de um ano. Todos eles, com exceção de Pedro Novais, do Turismo, vêm da era Lula. A nova acusação que pesa contra Lupi é a de ter criado sindicatos no Amapá, para trabalhadores em atividades que sequer existem naquele Estado. Sindicato da Indústria Naval, por exemplo.  O pragmatismo de Dilma pode também revelar uma bondade perigosa. Existe uma bondade inteligente, mas também existe uma bondade burra. O grande dramaturgo alemão Bertold Brecht, na peça "A alma boa de Setzuan" mostra como a bondade que não consegue conhecer seus limites, acaba por se negar a si mesma.

Mesmo com o apoio dos deuses, a moça Chen Te não consegue disciplinar as atividades da sua comunidade, fraqueja quando se trata de fazer prevalecer a justiça. Ela é muito boa e compreensiva para administrar as mazelas da aldeia sob sua responsabilidade. Assume, então, a identidade do primo Chui Ta, que, embora, em última análise, também seja bom, é capaz de exercer sobre os outros a coerção necessária para impedir os seus subordinados a não avançarem sobre o interesse coletivo.   

A bondade não pode dispensar a inteligência. Mas a inteligência também não pode dispensar a bondade. Muitas vezes o cérebro tem que se distanciar do coração. Principalmente quando o bem comum está em jogo. Um escritor alemão, Lichtenberg, viu nesse distanciamento um dos problemas mais graves dos tempos modernos. E, como era corcunda, Lic htenberg dizia que, pessoalmente, já estava dando um exemplo de encurtamento da distância entre o cérebro e o coração. Apesar do exempo do corcundinha Lichtenberg (cujo nome em alemão significa montanha de luzes), a bondade continuou sendo arrastada na onda da desvalorização dos sentimentos e da sensibilidade, em geral. Palavras generosas caem no vazio. Gestos magnânimos são mal interpretados. Linhas de ação, para serem consistentes, eficazes, não devem deixar transparecer absolutamente nada dos afetos que constituem inevitavelmente uma parte das atitudes. Esses fenômenos podem ser observados no nosso dia-a-dia. Podemos enxergá-los, por exemplo, no Partido dos Trabalhadores que não titubeou na expulsão da então senadora Heloísa Helena. Os dirigentes petistas foram impassíveis, como os jogadores de pôquer, diante da saída de Marina Silva. A valer  a mesma "racionalidade" cartesiana dos companheiros de José Dirceu, Carlos Lupi já seria o sétimo a cair. No momento em que escrevo, Dilma ainda esperava explicações razoáveis  do seu ministro. Ou é a alma boa da presidente que falou mais alto e precisa incorporar um primo capaz de pôr ordem na casa, ou foi o sangue frio adquirido no primeiro ano do governo. 

De um lado, certo ou errado, um ser humano que acredita na tal governabilidade  e, por ela luta e sofre. Do outro lado, o que temos? Máscaras. Como na fábula de Esopo onde o lobo encontra uma máscara teatral (Lupus et personna) e com ela insiste  em dialogar.


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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