Conversando na semana passada com meu amigo Paulo Tordivelli, um senhor cujo hobby é uma oficina onde cuida pessoalmente de um jipe Candango Vemag, de duas Lambretta e de mais um monte de coisas interessantes, ele comentou comigo sobre a diferença do desenho dos pneus antigos e dos modernos. Em uma primeira análise, parece que foi apenas uma evolução no design da banda de rodagem, mas tem muito mais coisa por trás disso.
Paulo comentou que os pneus de suas duas Lambretta têm um desenho com mais ranhuras, enquanto que os pneus modernos de motos são quase lisos e com poucas ranhuras. Para ele, dá a impressão que os pneus atuais têm menos aderência, pois parecem com os pneus "carecas" antigos. Ele não deixa de ter razão, mas não totalmente.
Se olharmos bem, os pneus originais da antiga Lambretta realmente se parecem com o de um carrinho de mão atual, desses que se usa em obra. Sulcos em ziguezague, banda de rodagem pouco arredondada e borracha dura, com câmara. Acontece que na época os pneus tinham uma construção diagonal, ou seja, a carcaça do pneu é composta de lonas cruzadas sobrepostas umas sobre as outras, com cordonéis de fibras têxteis. Os compostos de borracha eram mais duros, portanto o pneu durava uma menor quilometragem. Em compensação, tinham o flanco ou lateral do pneu com perfil mais quadrado e resistente, que suportava mais castigo como buracos, pedras e estradas ruins comuns na época. Até hoje se prefere pneus diagonais para uso off-road pesado em jipes, picapes e tratores.
Com o surgimento dos pneus radiais, que praticamente dominaram os mercados urbano, rodoviário e esportivo, de início ganhou-se muito em performance como estabilidade, tração e economia. Sua característica construtiva é de ter a carcaça com os fios, mantas e cordonéis dispostos em arcos radiais, na direção ao centro do pneu. Na banda de rodagem estão dispostas mais camadas de mantas sobrepostas, o que confere mais estabilidade e diminui o atrito interno, consequentemente a temperatura do pneu. Os primeiros pneus radiais tinham quase o mesmo desenho da banda de rodagem dos diagonais da época, porém com uma modificação clara e evidente na junção com o flanco, devido à sua construção mais arredondada. Basta ver nos carros de corrida da década de 60, que usavam pneus para seco com tantos sulcos que hoje nem os especiais para chuva tem.
A grande evolução surgiu com a parte química dos compostos de borracha, que foram evidentemente desenvolvidos em pistas de competição, o maior e melhor laboratório da indústria automobilística. A princípio, foram descobertas novas formulações que aumentavam a durabilidade dos pneus radiais (até porque tinham a capacidade de se aquecer menos que os diagonais), chegando a rodar de 30 a 50% a mais que os outros.
Para as motocicletas isto foi extremamente bem vindo, pois com a configuração radial os pneus puderam ter seu perfil mais arredondado, permitindo maior inclinação da moto (consequentemente maior velocidade e estabilidade em curva) e menor atrito de rolagem.
Os engenheiros de corrida descobriram que os sulcos diminuíam a área de contato com o solo, pois só o topo da banda de rodagem efetivamente tocava o piso. Para aumentar a área de contato, surgiram aqueles pneus enormes da Fórmula 1 com mais de meio metro de largura. Questionaram então se os sulcos fossem preenchidos (que dá no mesmo se não houvesse sulcos na banda de rodagem) a área de contato aumentaria muito, consequentemente a tração e a estabilidade também. A velha crença de que pneus lisos escorregavam mais era devida aos antigos pneus com sulcos que se desgastavam e ficavam carecas, mas o que os deixava escorregadios era o composto de borracha dura inapropriado. Partiram então para desenvolver compostos mais moles e aderentes, chegando aos pneus slick de hoje completamente lisos, com uma aderência enorme e com baixíssima durabilidade de apenas algumas voltas.
Como meio termo, surgiram então os pneus radiais modernos. As motos esportivas têm pneus com poucas ranhuras para altas velocidades, com muita aderência em pistas e estradas. Já as motos urbanas têm pneus com mais ranhuras para maior conforto e aderência em piso ruim de cidades, mais baratos e com menos tecnologia agregada. Cada um na sua e com seu preço!